Crônica

Conduções

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Conduções

Com ilustrações de La Cruz*

Pernas

Ando sem vontade de passar perfume e penteando o cabelo de qualquer jeito. Encostei o quarteto de sombras Aurora Boreal que comprei no catálogo e guardei minha boneca porta-brincos no fundo do armário. A bonequinha que tem um espaço na barriga e que batizei de Bertoleza. Sinto que não sou eu mesma sem perfume e sem brincos. Então, não sei quem está guiando meu corpo pela rua.

Os fones me garantem alguma intimidade. Quem passa por mim, não sabe o que estou ouvindo.

Ele é filho de Zambi
Ô, São Benedito, tenha dó

Coisa que me aborrece é tropeçar em monturos de lixo. São muitos os que encontro a caminho do ponto. Pela manhã, creio ser ainda mais indigesto. A carcaça de uma poltrona repousa na esquina da Nascer. Apresenta cicatrizes de queimadura. Ontem, quando passei voltando do trabalho, um povo cirandava em volta dela. Em noites frias costumam atear fogo em qualquer traste. Em noites quentes também. Se divertem assistindo ao balé das labaredas. O tempo é quem se encarrega de destruir os restos incendiados que ninguém recolhe. Há muitas carcaças se decompondo. Mobílias do cenário de outros balés. O processo é lento. Chuvas e sóis pra desgastar o material, até que se deteriore e desapareça. Ninguém nota.

As ruas daqui são pobretonas. Desvalidas. Tenho a sensação de que, todos os dias, enfeiam um pouco mais. Não bastassem os cabos embaraçados nos postes, um emaranhado de condutores atracados com restos de rabiola, agora, alguns fios ficam pendurados, tocando o chão. Outro dia, ouvi a senhora que vende tapioca na feira comentando com os vizinhos de barraca que os vagabundos arrancam os fios e desencapam pra vender o cobre. Zumbis fazem mesmo correrias desse tipo. Na fissura, vendem até o liquidificador da mãe. Quem recepta, quase sempre, banca o desentendido. Faz de conta que acredita que o liquidificador pertence mesmo a quem está se desfazendo dele a troco de bagatela. Assim como o ferro elétrico, da semana anterior. A frigideira. O motor da máquina de lavar, o relógio de parede. O doente aplica que tá vendendo baratinho, precisando do dinheiro pra pagar condução. Entrevista de emprego. O cidadão solidário se convence de que o motivo é nobre. Nem tinha interesse na peça, mas se dispõe a fazer caridade. Torcendo pra que, da próxima vez, o fissurado descole uma televisão. Quem sabe, até uma geladeira em bom estado. Nem sempre é preciso aplicar. Tem gente que se aproveita da situação sem pudor. Há quem desvie material hospitalar. Quem desencaminhe caminhão de merenda. Há até quem saqueie creches e escolas. E quem recepte objetos oferecidos nessas circunstâncias.

— Vagabundo também é o infeliz que compra o cobre, ciente de que é produto de roubo, minha tia!

O menino da banca de temperos respondeu assim.

A dona da barraca de verduras concordou:

— As companhias de fornecimento cobram o prejuízo da reposição dos fios nas tarifas. A gente acaba pagando o pato. Mas, se não tivesse quem comprasse, eles não tinham esse trabalho todo, não. Ladrão também é quem paga pelo material. Quem adquire peça de carro desmontado, sabendo que um coitado ficou ainda com o carnê da grossura de uma bíblia pra quitar. Isso quando não desligam a pessoa. Quando não finalizam o sujeito a troco de um monte de lata. Quase tiraram a vida do meu genro por causa de um carro.

Viajei no assunto, enquanto escolhia tomates. Enxerguei uma oficina escura. Os receptadores avaliando os produtos. Um barbudo careca gesticulando, alegando que as seguradoras cobrem os transtornos causados às vítimas. O barbudo falava alto dentro da minha cabeça: “se não podem pagar seguro, que não se metam a ter carro! As coisas precisam funcionar redondinho. Cada um que se vire. Quem não tem competência, nem condição, não se estabelece”. A conversa, regada a aperitivos, entre uma piada preconceituosa e uma expressão fascista corria solta. Acontece sempre assim comigo. Começo a analisar uma coisa e desembesto desvairada, num divagar sem fim. Acho que é isso o que está me deixando tão cansada. Já não tenho mais vinte anos. Nem trinta. Essas divagações me esgotam. Tento passar indiferente por essas pessoas jogadas nos colchões úmidos pelos líquidos da madrugada. Amontoadas nessa morte temporária causada pelo efeito do entorpecente. Desfrutando o sono reconfortante, resultado da garrafa de pinga entornada pra aquecer. Esquecer. Eu não queria reparar que a pele lisa desses pés inchados vai estourar em feridas logo, logo. As feridas que já nasceram estão infectadas. Eu queria me ater às palavras que meus fones reproduzem. 

Deixe-me ir
Preciso andar

Empreendo passar pela moça que dorme embrulhada na colcha esfarrapada sem imaginá-la de banho tomado, cabelo penteado e dentes escovados, vestida num jeans de promoção. Carregando uma bolsa comprada na baciada, contendo um guarda-chuva, uma garrafa com água congelada, carteira, batom, marmita e um bilhete único. Apenas passar por essa moça que dorme com o corpo exposto, freio de baba maquiando o rosto, dominada pela droga, sem enxergá-la na minha mente folheando um catálogo em seu horário de almoço. A marmita vazia e o cigarro queimando, junto ao copo de café. Solzinho visitando o uniforme. Dez minutos faltando ainda pra tocar o sinal de retorno à sessão. A caneta desenhando seu nome sobre a foto do frasco de perfume que a revendedora topou parcelar em duas vezes. Dia cinco e dia vinte. É tão gostoso comprar por catálogo. Rabiscar as folhas e ficar esperando com ansiedade a chegada dos produtos. Sentir o cheiro, conferir a cor. Na minha fantasia, a moça que dorme no chão, sonhando sabe-se lá com quê, vai ao supermercado na saída do trabalho. Escolhe umas maçãs. Põe um litro de leite no cestinho, duas latinhas. Ovos, uma esponja nova para a pia. Um quilo de filé de frango da promoção para presentear a mãe, que ela pretende visitar no dia seguinte. Um sábado. A moça paga as compras com seu vale-alimentação e sai carregando a sacola. O segurança a cumprimenta com um olhar travesso. Ela sorri, concluindo que o quarteto de sombras Aurora Boreal a torna, de fato, irresistível. Encaixa os fones de ouvido e se requebra involuntariamente.

Os bóias-frias
Quando tomam umas biritas
Espantando a tristeza
Sonham com bife-a-cavalo, batata-frita
E a sobremesa
É goiabada cascão com muito queijo
Depois café, cigarro e um beijo
De uma mulata chamada
Leonor ou Dagmar

Van

A paisagem influencia meu estado emocional. Os barracos se multiplicam a cada dia pelo caminho. Ergo praças, parques, cinemas, teatros e bibliotecas dentro da cabeça cansada. Universidades. Conjuntos de casas populares honestas. Troco as pichações dos muros por grafites. Faço com que os esqueletos dos carros abandonados desapareçam da beirada da avenida.

As vidraças das vans limitam um pouco a visão. Aperto danado. Calor. Carros pequenos não atendem a necessidade dos bairros populosos. Muitos são empesteados de insetos. Uma linha ou outra oferece um atendimento menos sofrível. Mas as saturadas são, geralmente, as que suportam (ou não) maior fluxo. No terminal de Itaquera, embarcar para Cidade Tiradentes é um  martírio. As filas crescem. Encosta um micro-ônibus.  E micro-ônibus na COHAB não funciona. Os trajetos são longos. Para um caminho curto, quem sabe, possam atender. Mas para itinerários de quarenta minutos, uma hora… não dá. Num bairro considerado nobre, a desigualdade desfila. Paga-se pra viajar com conforto tarifa idêntica à cobrada de quem vai enlatado. Penso na volta. Vai levar de duas a três horas. Eu havia planejado passar roupa. Precisava lavar o banheiro. Vai ficar tudo pra domingo.

Pareamos com um ônibus no farol. Apinhado também. Eu queria saber quem foi que projetou esse modelo com uma só porta para desembarque. O passageiro é obrigado a atravessar o carro todinho. Pico, na periferia, funciona em horário integral. É gente que não acaba mais, circulando nos coletivos o dia inteiro. Morador periférico não consegue fazer muitas coisas a pé. Distância é rotina. Mesmo para quem tem carro, nem sempre o gasto com combustível compensa, dependendo do destino. Pois no tal ônibus desajeitado a pessoa tem que passar atropelando todo o mundo. O risco de furto aumenta muito. É impossível perceber um movimento estranho. Eu, ao menos nesta viagem, ocupo um privilegiado assento solo, junto à janela.

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil…

Trem

Custa caro aos cofres públicos estender a malha ferroviária. O especialista explicou no rádio. Não sou especialista, mas me arrisco analisando que qualificar e padronizar a frota de ônibus não parece tão complexo quanto construir estações de metrô e trem. Reformar os terminais, torná-los cobertos de modo que os usuários não torrem no sol, nem fiquem encharcados enquanto aguardam em dias de chuva. Vem uma moça empurrando a cadeira-de-rodas do neném. O menininho deve ter uns oito anos. Pra mim, é neném. Essa rampa da estação Guaianazes é um desafio até para os mais atléticos. Acho que a moça está exausta. Deve fazer isso todo dia. O neném usa óculos e um uniforme azul. Minha avó dizia que a lã não pesa para o carneiro. E que Deus não confia a seus filhos peso maior do que suportam carregar. Tinha a parte de que Deus dá o frio, conforme o cobertor. Tenho lido em muitos lugares sobre romantizar o sofrimento. Penso então que, vó, apesar da aparente rudeza, era romântica. Se ainda estivesse por aqui, eu ia lhe dizer que não faz mal adiantar um pouco o lado do carneiro. Nem aliviar, um bocadinho que seja, o peso que um filho de Deus carrega pelo mundo. E que um tanto de gente nem cobertor tem. Ela mesma era uma. Cada noite fria nervosa passou descoberta a minha velha. Tem muitas espécies de frio. Vai ver que, distraída, nem notava. Acostumada. Adestrada. Se me ouvisse opinando desse modo, ela ia me mandar lavar a boca com sabão. E trabalhar a fé no sagrado. O neném correndo, livre da cadeira. Eleve o seu pensamento, menina selvagem. Mas meu cérebro racional, ainda que contra a minha vontade, trabalha soluções imediatas. Coisas que me parecem aplicáveis. Sinto que cometo uma heresia desejando elevadores e esteiras rolantes. Faz tempo que não vou à igreja.

Tem um senhorzinho que sempre encontro na estação do Manoel Feio. Conversador que só ele. Usa muletas. Amputou o pé direito. Diabetes. Ele já me contou a história muitas vezes. Na estação do Manoel Feio, nem rampa tem. O passageiro que não tem condições de subir escadas é obrigado a desembarcar em outra estação e reembarcar no destino oposto, para descer do outro lado da plataforma. Contando assim, fica difícil explicar a operação, mas o pessoal é criativo.  Inclusive o senhorzinho falador. Ele não dá conta de subir. Não são dois ou três degraus. A escadaria, em péssimo estado de conservação, parece que vai dar no céu. O céu… onde jatinhos desenham caminhos. Eu já imaginei o senhorzinho sem muletas, sim. Não nego. Devolvi o pé amputado, removi umas rugas de seu pescoço. Planejei até casamento pro camarada. Com uma dona enxuta, conversadeira que nem ele. Mas minha fixação por elevadores, escadas rolantes, esteiras, guindastes e facilitadores em geral sempre surge no meio do planejamento. Retrocedo do sagrado ao terreno. Será que a verba também não é suficiente pra instalar alambrados que mantenham as filas organizadas e sem tumulto lá em Guaianazes? Nem pra contratar funcionários que auxiliem e orientem o fluxo? Gerar empregos, humanizar a rotina? Será que também não dá pra fixar placas de trânsito eficazes nos Confins? Nos lugares que não são rota de bacana e, portanto, não significam nada? Se o governador ou o prefeito tivessem que atravessar as avenidas do Distante todo dia, penso que o milagre já teria recaído sobre nós.

Tudo o que se faz na Terra
Se coloca Deus no meio
Deus já deve estar de saco cheio 

Os especialistas podiam visitar as ruas da Lonjura ao menos uma vez por ano. Pelo espírito natalino. Verificariam que atualizações são necessárias não apenas em seus computadores e telefones celulares de última geração. O tempo passou. O número de veículos circulando na Terra dos pobres aumentou. Há vias que já não podem ser mão dupla e locais onde é necessário proibir o estacionamento. Faltam faixas. Faltam semáforos. As avenidas estão apertadas, precisam ser ampliadas. O trânsito está cada vez mais lento. O trabalhador precisa sair de casa cada vez mais cedo. A mão divina terá que entrar em ação? O Fura-Fila vai chegar em Fim-de-mundo! Está chegando! O ferrorama que transportará a massa trabalhadora com conforto, rapidez e segurança! Questão de tempo! Ao invés de reclamar, o certo é torcer pra que dê certo. Otimismo! Pois, pra mim, ainda que chegue, demorou. Contraímos uma velhice prematura esperando tanto tempo por algo que podia ter tornado nossas vidas um pouco mais… ou um pouco menos… eu não sei. Mas era uma solução aplicável. E a não aplicação do que é aplicável é imperdoável.

Mudaram o meu povo pra longe, bem distante
Aonde Deus não faz morada
Que culpa tenho eu se nasci pobre?
Se não posso levar vida de nobre?
Meu salário não dá sequer pra alimentar

Metrô

São elegantes estes bairros correndo lá fora. Linha verde. Esperança. Quase todo o mundo aqui usa fones de ouvido também. Algumas pessoas leem com ar muito sério, confinadas em seus conteúdos secretos. A próxima estação é a minha.

Tava durumindo, cangoma me chamou
Tava durumindo, cangoma me chamou
Disse: levanta, povo, cativeiro já acabou

Ônibus

Aguardo o ônibus que vai me conduzir até a famosa avenida. A parada é moderna. Um painel indica as linhas e o horário previsto. É impressionante. Um ônibus atrás do outro. Equipados com ar condicionado, Wi-Fi, entrada USB, portas dos dois lados e no meio do corredor pra facilitar o embarque e o desembarque. Duas catracas para agilizar o movimento. Transportam poucos passageiros. É claro que isso deve variar conforme o horário. Mas acredito que raramente chegam a ficar lotados, como ocorre com os que circulam nos lugares onde o metrô e a CPTM não alcançam. As regiões que não contam com estação de trem e metrô deviam ser prioridade no plano de distribuição de veículos coletivos. Veículos funcionais. De vez em quando, aparecem uns melhorzinhos. Quase sempre, rodam os pau véio. Disse a especialista.

Mas se me disser que é sem querer
Que errou mas não teve a intenção
Que foi tudo culpa da emoção
Eu volto a ser como era antes
Conte comigo então

Eu devia ter removido as sobras do esmalte vermelho que apliquei nas unhas semana passada. Furei o horário agendado no salão na terça-feira. Não tive coragem de ir. Eu não sou eu sem a camada vermelha e brilhante cobrindo as unhas quadradinhas. E sem pulseiras que tilintam quando ando. Não sei onde eu mesma fui parar. Por isso, me indicaram esse lugar, onde a consulta com o psiquiatra é de graça. Uma espécie de organização social. Tudo tão chique. Estou com vergonha dessas unhas estropiadas. Será que o doutor vai reparar? O ar condicionado está me dando calafrios. A máquina de cafés e chás é gigantesca. Será que precisa colocar moeda? Sei que é indelicado continuar com os fones. Eu já devia ter desligado o celular, mas a música me consola. E acho que o médico ainda nem chegou. A secretária está lendo uma revista. Vou levando.

Quero ser um fio de linha, no balaio de Sinhá
Agulha pequenininha, no balaio de Sinhá
Resto de pano de chita, no balaio de Sinhá
Um farrapinho de fita, no balaio de Sinhá

O que será que o médico vai perguntar? E o que é que eu vou dizer?

Há muitas carcaças se decompondo.

Ando sem vontade de passar perfume e penteando o cabelo de qualquer jeito.

A paisagem influencia meu estado emocional. 

Faz tempo que não vou à igreja.

Não sei onde eu mesma fui parar.

O processo é lento.

Já não tenho mais vinte anos.

A próxima estação é a minha.

Ninguém nota.


Lilia Guerra é paulistana. Ariana de abril. Publicou seu primeiro livro, o romance Amor avenida, em 2014. O segundo, a coletânea de contos Perifobia, pela editora Patuá, foi finalista do Prêmio Rio de Literatura.

*La Cruz, 29 anos, Belo Horizonte – MG. Artista Visual. Atua com ilustrações e quadrinhos. Graduando em Conservação e Restauração (UFMG). Produtor audiovisual.

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