Crônica

Copacabana

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Copacabana

A filosofia budista sugere que tenhamos desapego das coisas materiais. O Restaurante Copacabana, que aos 81 anos acaba de fechar definitivamente as portas naquela esquina da Praça Garibaldi, era uma coisa material?

Claro que sim, era um prédio, tinha lá dentro mesas, cadeiras, fogões, pias, pessoas. Mas para mim, que há dias me pego pensando em momentos marcantes que vivi lá, e para as milhares de pessoas cujas lembranças as arrastam também para lá, o Copacabana tornou-se um patrimônio imaterial.

Quem poderá apagar nossas memórias? Além da objetividade física, de avistar quase diariamente aquele prédio desde que vim morar em Porto Alegre para estudar no Julinho, em 1964, aos 18 anos, e digo isso porque ano após ano meus trajetos de ir ou vir passavam por ali, lido com uma memória afetiva incontornável. Nosso grupo da Mesa das Quintas (no início nomeado pelo escritor Arnaldo Campos de Os Confidentes) começou lá sua história, em 1988.

Liderado pelo professor e historiador Joaquim Felizardo, sujeito de uma inteligência veloz e um senso de ironia como poucos, criador da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, o grupo foi tomando forma ao longo do tempo, tendo como um de seus pilares o não-preconceito. Outro: todos os temas são permitidos. Antes que me fuja, esclareço que a denominação Os Confidentes foi brincadeira associada a uma das especializações de Felizardo, a Inconfidência Mineira.

O número de “confidentes”, ou mesmo “inconfidentes”, é vasto, mas basicamente professores universitários, escritores e jornalistas, com alguns políticos ocasionais, da esquerda à direita civilizada. Só quem pode recordar todos os nomes é o “caderno de chamadas” do professor Luiz Osvaldo Leite, que anotava todas as presenças. Líder da Mesa depois de Felizardo, o filósofo Leite é uma verdadeira instituição. Além de lembrar tudo, tem uma cultura absurda e um temperamento encantador.

A começar por Felizardo, em 1992, perdemos vários confrades para a inimiga das gentes. Também fomos agregando outros, temos idades variadas. Enfim: se as paredes do Copacabana falassem, contariam toda essa história. Como contariam as histórias das centenas de personagens materializadas nas fotos que se espalhavam nos três salões do restaurante. O Copa da Praça Garibaldi tinha alma. Não vou falar da comida, até porque ele continua atendendo em telentrega.

Dizíamos, brincando, que estávamos lá pela conversa, não pela comida. Mas a comida era fundamental, claro. E o atendimento, também. Tínhamos intimidade com o cotidiano da “casa”. Na área de comentários do emocionado texto que postei no Facebook logo ao saber do fechamento, com mais de 3,5 mil manifestações, dezenas de pessoas recordam seus pratos preferidos do cardápio do Copa. Na parede cheia de fotos à frente de nossa mesa (sempre a mesma), também estávamos nós, em tempos idos.

E fecho esta crônica, que já se estende em demasia, com o que eu deveria ter dito desde o início: o maior sentimento é pela perda, pelo nunca mais. O fechamento do Copa significa o fim de um tempo. Não voltaremos àquela mesa, não sentaremos nos mesmos lugares dizendo que só o Leite tinha lugar fixo, não comentaremos/criticaremos as reuniões de políticos no novo salão, não esticaremos o olhar às mulheres passando para ir ao banheiro feminino ali perto, não reclamaremos dos garçons Flávio ou  Eloy, não nos veremos mais nas fotos, não estaremos mais lá.

Será difícil me desapegar dessa memória. Nem quero.

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