Crônica

Democracia

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Democracia Foto: Tânia Meinerz

Sábado eu estava meio pra baixo. As gurias, carregando aquela angústia das amigas que não sabem o que fazer, vieram aqui em casa. Depois de bolinho, cafezinho e conversa, abrimos os trabalhos alcoólicos de acordo com as garrafas de vinho que foram chegando. Merlot, Carménère, Cabernet Sauvignon, Syrah. Merlot de novo.

As amigas colocaram música, e dançamos em homenagem à chuva que cairia só na segunda-feira. Num dado momento a bebida já nos alcançava os olhos e os ouvidos, na casa se disseminava tal umidade tanínica que nossos corpos não eram mais receptáculos suficientes. O vinho invadia as frestas do espelho, o frio da geladeira, as lombadas dos livros.

A casa ainda desacostumada com nosso ritmo dormiu cedo e serenou em silêncio. Para não acordá-la desta pausa necessária saímos pelas travessas e encruzilhadas em busca de novas dúvidas e promessas incertas a serem afogadas. Mal sabia eu, distraída na tristeza e euforia que embalava, os apuros que encontraria ao voltar.

A algazarra era ouvida desde o corredor. No abrir da porta uma fumaça espessa e cheiro de guerra ocupavam o que antes era serenidade. Entrei com certa dificuldade e já no segundo passo tropecei em algo pesado e sólido. O barulho ensurdecedor e o vinho que me molhava os olhos aos poucos foram se diluindo pela fumaça. Enfim cheguei a uma janela.

Uma lufada de vento sul varreu a sala abrindo um caminho na escuridão. Vi uma fogueira branda no meio da casa e ao seu redor os meus livros reunidos numa balburdia desmedida. Bêbados eles cantavam, gritavam, giravam, resmungavam. Dançando censuravam-se arrancando páginas uns dos outros e alimentando o fogo com suas antigas palavras. O lamento geral me feria os ouvidos e um aperto do fundo da garganta me calou.

Após uns minutos paralisada incrédula do que via e ouvia, pronta para colocar a culpa de tal devaneio na última garrafa compartilhada com minhas companheiras noturnas meia hora atrás, fui sugada do estado de torpor por uma voz autoritária: 

‘‘Não fique aí parada, me ajude com este rebelde aqui!’’ – era Os fundamentos da farmacologia que junto do Notes de grammaire et d’orthographe française seguravam um pequeno exemplar d’As Ondas com determinação. Seus olhos inflamados me pediam auxílio e de suas bocas tudo pareciam ordens proferidas: ‘‘Entreguem suas palavras agora!’’, ‘‘Allez, petit salaud!’’, ‘‘Não temos a noite toda!’’, ‘‘On y va!’’

O clima de discórdia agora me confundia mais do que a fumaça que me ardia os olhos. ‘‘Parem com isso! Que absurdo! Onde já se viu? Livro queimando livro?’’ ‘‘Não estamos queimando ninguém, oras.” — respondeu cético O dicionário da língua portuguesa, enquanto fumava alguma erva desconhecida enrolada no que havia sido seu índice de abreviações.

‘‘O que é isto então, se não um auto-extermínio?’’

‘‘Uma purificação.’’ – respondeu A antologia poética.

‘‘Hahahahaha, papo furado! Vocês não têm o direito de mutilarem-se uns aos outros!’’

‘‘Quem disse?’’ – interrompeu Os nossos antepassados.

‘‘Eu estou dizendo! Eu sou a dona de vocês e não acho certo!’’

‘‘O que você acha certo então, dona pro-pri-e-tááááá-ria?’’ – indagou-me O Capital.

‘‘Todos têm o direito de existir!’’ 

‘‘Mas ninguém vai ser queimado vivo aqui, não somos selvagens, somos reformadores, estamos em busca do melhor de cada um.’’ – me explicava À espera dos bárbaros já no fim de minha paciência.

‘‘Não, isso não é possível!’’

‘‘Por que não? Só porque você não consegue fazer isso com seus amiguinhos humanos?’’ – debochou Os segredos todos de Djanira.

‘‘Não estamos falando de mim, vocês não têm o direito de destruir partes dos outros!’’

‘‘Claro que temos, vocês nos ensinaram que nós somos editáveis, revisáveis, não-publicáveis. Então agora nós mesmos vamos escolher como queremos ser.’’ – me informava com calma uma edição de bolso d’O Idiota.

‘‘Mas forçar não é justo com os outros…’’ – eu falei já cansada numa última tentativa de lucidez.

‘‘A maioria escolheu. Só vamos retirar as palavras erradas, feias, velhas e fora de moda de nós mesmos. Diferentes de vocês, nós podemos ser perfeitos.’’ – apregoou O dicionário da língua portuguesa com a segurança de um tirano e a paz de quem não se faz perguntas.

Não pude acompanhar aquele ritual por muito tempo, a noite avançada, o Merlot e todas as outras substâncias que se misturavam e circulavam em meu organismo pesava cada vez mais. Meus olhos irritados pela fumaça, meus ouvidos pelos sons de coro e tambores, meus músculos foram cedendo. Meu cérebro adormeceu. E naquela repetição melódica um último argumento pra sempre calado ecoava: 

‘‘Perfeitos, mas nunca inteiros.’’

‘‘Perfeitos, mas nunca inteiros.’’

‘‘Perfeitos, mas nunca inteiros.’’

‘‘Perfeitos, mas nunca inteiros.’’


Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou Aqui dentro pela editora Venas Abiertas. Disponível para venda pelo Instagram da própria autora.

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