Crônica, José Falero

Eu entendo quem desiste

Change Size Text
Eu entendo quem desiste

Faz tempo já que tava ali, atirado no canto do meu quarto, o único par de tênis que eu tenho, todo podre, sem condição de uso nenhuma.

Eu não suporto usar tênis. Prefiro chinelo. Mas eu fiquei pensando: “uma hora dessa eu vou ter um compromisso que eu vou ser obrigado a ir de tênis, e daí esse troço ainda vai tá aí, sem condição de uso nenhuma”. Por isso eu resolvi botar o bendito tênis de molho num balde, antes de sair.

[Continua...]

[elementor-template id="36664"]

Faz tempo já que tava ali, atirado no canto do meu quarto, o único par de tênis que eu tenho, todo podre, sem condição de uso nenhuma.

Eu não suporto usar tênis. Prefiro chinelo. Mas eu fiquei pensando: “uma hora dessa eu vou ter um compromisso que eu vou ser obrigado a ir de tênis, e daí esse troço ainda vai tá aí, sem condição de uso nenhuma”. Por isso eu resolvi botar o bendito tênis de molho num balde, antes de sair.

Lá fora, vi que o meu primo tava mexendo no celular, do outro lado da rua, escondido do sol forte debaixo do toldo. Me abaixei atrás da caixa de luz e fique jogando pedra nele, só pra ver ele sem saber de onde vinha as pedra. Eu sou infantil, quando tô de bom humor.

Mas parece que o vizinho também tava de bom humor hoje. Posicionado atrás do muro, onde eu não podia ver, e percebendo o que eu tava fazendo com o meu primo, ele resolveu fazer parecido comigo: ficou me jogando água, e eu não conseguia ver de onde vinha. Era uma situação ridícula: eu não queria me levantar, pro meu primo não me ver, mas, ficando abaixado, eu não conseguia ver quem tava me jogando água.

Quando uma quantidade um pouco maior de água atingiu a minha nuca, achei que já era demais e resolvi me levantar pra identificar o malandro. Flagrei o vizinho preparando novo ataque.

— Ah, viu só? — ele disse rindo. — Com os outro é bom, né?

Eu também ri. Mas uma coisa me irritou um pouco: quando eu me levantei, eu tava com o pé meio torto no chão, e lá se foi a alça do chinelo. Por um segundo, pensei comigo mesmo que não tinha problema nenhum: era só eu colocar o tênis… E na mesma hora eu lembrei do troço lá, de molho no balde.

Não é incrível? Eu deixei o bagulho esquecido no quarto vários mês. Nunca precisei dele pra nada. E justamente no dia que eu resolvo botar de molho, o que acontece? Me arrebenta a alça do chinelo.

Voltei pra casa e usei um fio de cobre pra remendar a alça do chinelo. Depois tornei a sair pra rua, e desta vez eu resolvi seguir o meu rumo direto, antes que acontecesse outra coisa pra me atrasar.

Eu tava indo no Centro Comercial da Lomba do Pinheiro: a Parada 16. Precisava tirar foto 3×4 e fazer xerox dos documento pra fazer a matrícula no Colégio Aplicação da UFRGS. Juntando as moeda e as nota no meu bolso, não dava 20 pila, e era por isso eu tava indo a pé, no forte do sol: se eu pegasse um ônibus pra ir até a 16, não ia sobrar dinheiro pra pagar as foto, os xerox dos documento e as passagem de ida e volta pro campus Vale.

Só Deus sabe como eu queria tomar um gelo hoje. O calor tava demais, a caminhada tava acabando comigo. E eu tava com esse dinheiro no bolso, sendo tentado pela ideia de esquecer a matrícula e gastar tudo em latão. Foi por isso, por causa dessa tentação, que eu reparei, pela primeira vez na vida, como tem boteco da Vila Sapo até a 16. Perdi as conta de tanto boteco. Cara, como tem boteco! Boteco, boteco, boteco. O que mais tinha no caminho era boteco. Não parava de aparecer boteco. E em cada boteco, sempre tinha alguém debaixo de sombra, tomando um gelo, e eu ficava imaginando que aquele gelo devia tá bem geladinho, bem saboroso. As moeda e as nota no meu bolso pesava uma tonelada, a essa altura.

Mas, desta vez, eu não troquei o futuro por dois ou três latão.

Quando eu cheguei na 16, tomei uma facada muito pior que a do Bolsonaro: 15 conto pra tirar as foto. “Me fodi”, eu pensei.

— Mano, quantas foto?

— Oito.

— Mas eu só preciso de duas. Sai mais barato se eu tirar só duas?

— Não é assim. É um bloquinho com oito. Não dá pra imprimir menos de oito.

Pedi um momento pra decidir o que fazer. Fiquei pensando: se eu tirasse as foto, e se sobrasse dinheiro pros xerox, eu não ia poder pagar as passagem de ida e volta pro campus. Mas se eu guardasse o dinheiro das passagem, deixando de tirar as foto, não adiantava nada eu ir até o campus, porque eu precisava das foto pra fazer a matrícula.

Resolvi tirar as foto e fazer os xerox. Me sobrou 1 real e 70 centavos. Cada passagem de ônibus é 4 e lá vai paulada. Comecei a cogitar a ideia de ir a pé até o campus, e voltar de lá também a pé.

Me permiti comprar um docinho pra alegrar a vida. Entrei no primeiro mercadinho que apareceu.

— Tem bombom?

— Tem?

— Quanto é?

— É 1 real.

— Ouro branco?

— Não. É este aqui, ó.

Ela me mostrou o bombom. Era duma espécie que eu nunca tinha visto.

— É bom, isso aí?

— Bem bom.

Comprei. Comi. Ao contrário do que diz a música, aquilo era bombom, mas não era bom.

Voltei a pensar se era melhor ir e voltar do campus a pé, ou pedir um par de passagem emprestado pra minha tia e ir amanhã. O meu estado de espírito tava bom: eu não me importava de caminhar. Além disso, argumentei assim, pra mim mesmo: “quando começar as aula, certamente vai acontecer de eu não ter passagem, e eu vou ter que ir e voltar a pé; talvez seja bom eu já ir me acostumando”. Mas o sol tava forte de verdade. Eu temia passar mal no meio do caminho.

O que me fez desistir da caminhada foi a visão que eu tive do alto da Parada 14 da Lomba do Pinheiro, e que registrei nessa foto. Repara só naquele morro lá no fundo. O último. Lá atrás. Aquele meio azulado, de tão distante. O campus Vale da UFRGS é lá, na base daquele morro. E eu tava cá, a sei eu quantos quilômetros de distância.

Vou ter que fazer esse caminho, ida e volta, a pé, algumas vezes, enquanto eu estiver estudando lá. Vai ser normal pra mim. Mas não foi hoje que eu comecei a me acostumar. Não tive coragem de encarar uma caminhada dessa no sol forte que tava. E me senti culpado por isso. De qualquer forma, tá tudo bem, eu tô determinado. Eu não vou desistir de me formar, desta vez. Eu morro, mas não desisto.

Só que, sabe, eu entendo quem desiste.

Escrevi essa crônica no dia 18 de janeiro de 2019 e postei no Facebook, junto com a foto. Hoje, mais de dois anos depois, estou prestes a me formar no Ensino Médio. Me formo neste semestre. Cumpri a minha promessa. Não desisti. Em muitas ocasiões tive que ir e voltar a pé: duas horas pra ir e duas horas pra voltar, às vezes debaixo de chuva, às vezes com câimbras nas pernas. Em muitas ocasiões achei o ambiente do colégio hostil. Depois veio ainda a tragédia da pandemia e, com ela, a problemática EAD. Mas cumpri a minha promessa. Não desisti.

E agora, mais do que nunca, eu entendo quem desiste.


José Falero é escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e Os Supridores (Todavia, 2020).

RELACIONADAS
marca-parentese

Abra um parêntese no seu fim de semana com jornalismo e boas histórias. Deixe seu email e receba toda semana as newsletters da revista Parêntese.

Escolhe um dos combos

Pagamento exclusivo via cartão de crédito