Crônica

Excesso de exceções

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Excesso de exceções

Nem bem o sol terminava de desabar lá para os lados da Vila Nova, a gente se reunia. Nunca menos que uma dúzia de moleques. Tínhamos pouco tempo até as mães começarem a chamar um por um, então precisávamos aproveitar ao máximo. Nenhum de nós chamava aquilo de “pique-esconde”, muito menos de “esconde-esconde”. Seria motivo de chacota. Para a gente, era “brincar de se esconder”.

Mas aconteceu, uma noite, o impensável. Tirávamos na sorte qual de nós começaria procurando os outros quando um carro acelerou bruscamente em nossa direção e freou logo em seguida, de maneira espetacular, os pneus arrancando uma nota aguda do asfalto, o farol alto cegando todo o mundo. Homens nervosos desembarcaram, sem perder tempo fechando as portas, e despejaram sobre nós o terror:

— Mão na cabeça!

— Vai todo o mundo pro muro!

— Agora!, já!, todo o mundo de costas!

— Todo o mundo quieto!, não quero ouvir nem um pio!

Repare o leitor que não era apenas uma brincadeira a ser interrompida. Interrompia-se, naquele momento, algo mais fundamental, dentro de cada um de nós; algo que nem mesmo sei nomear. Quebrava-se um encanto. Mais um encanto. Um dos poucos encantos que àquela altura ainda nos restavam. O mundo nos apresentava um perigo inédito, muito maior do que a mãe zangada empunhando o chinelo. Eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, claro, mas a ignorância não me livrou do pânico absoluto. Pensei que aqueles homens nos fariam o pior de todos os males. Pensei que estavam nos confundindo com alguém que tivesse feito algo errado, muito errado. Apontavam-nos armas. Gritavam sem parar. Faziam perguntas que eu não sabia exatamente como deveria responder. Mexiam nos nossos bolsos.

Uma tia minha apareceu e fez um escândalo. E até hoje, quando penso nela, sou incapaz de dissociá-la de uma certa aura heroica. Foi um alívio sem tamanho vê-la surgir para nos livrar de uma possível surra, ou até mesmo de uma possível morte.

— Mas o que é isso? Que absurdo é esse? Vocês não têm mais o que fazer?

— A gente só tá fazendo o nosso trabalho, dona. É só o nosso trabalho.

Era só o trabalho deles. E continuou sendo só o trabalho deles através dos anos todos da minha vida, à medida que iam se desenrolando.

Numa outra oportunidade, já na adolescência, resolvi aceitar o convite para uma festa. Era à tarde, à luz do dia, no Julinho. A entrada custava cinco reais, coisa que infelizmente descobri apenas quando cheguei lá, sem um único tostão furado nos bolsos. Resolvi me sentar em um banco próximo ao Coreto, em frente aos portões do colégio, e torcer que chegasse para a festa algum conhecido que talvez pudesse pagar a minha entrada. Contudo, antes de isso acontecer, uma dupla de policiais me viu ali sentado e achou por bem me submeter a um interrogatório.

— O que tu tá fazendo aí?

— Tô esperando os meus camaradas pra entrar na festa, seu.

— Hum… Onde tu mora?

— Moro no Pinheiro, seu.

— Hum…

Mandaram eu me levantar e me revistaram.

— Rapaz, tu pode não ter nada agora, mas, olha, tu tem uma cara de quem fuma um baseadinho…

— Não uso droga nenhuma, seu.

— Nada, nada? Nem um lolozinho de vez em quando?

— Nada, seu.

— Hum… Então vai, vaza daqui.

— Mas eu tô esperando pra entrar na festa…

Vaza!

Nada mais caricato do que um policial abordando uma pessoa como eu. É tão caricato, que, agora, colocando esta história no papel, me dou conta de que soa inverossímil.

Como também deve soar inverossímil este outro caso: ia eu embora para casa, depois de doze horas com a bunda sentada numa bosta de portaria, quando apareceu uma blazer da brigada. Apesar de gelar por dentro imediatamente, tentei aparentar indiferença; continuei subindo a rua, enquanto a blazer descia. Nos cruzamos. Deus do céu! E a vontade de olhar para trás? Parecia que uma força de mil ímãs tentava virar a minha cabeça. Mas não se olha para trás, nesses casos. Nunca. Eles deviam estar de olho em mim pelo retrovisor, e se eu olhasse para trás, era pedir para ser abordado.

De qualquer forma, não precisou eu pedir. Dez ou quinze passos após cruzar com a blazer, ouvi, às minhas costas, um som. Foi bem baixinho, mas ouvi. E não havia dúvida: era a porta da blazer sendo fechada, depois de ter sido aberta para os policiais descerem. Os desgraçados tentaram não fazer barulho, para me pagar de surpresa. Mas eu ouvi. Ouvi e sabia que vinham na minha direção naquele exato momento, pé ante pé. Não aguentei: olhei para trás. E o que vi foi o cano de uma pistola a um palmo da minha cara.

A partir daí, o roteiro de sempre: “mão na cabeça”, “vira de costas” etc. Tiraram a minha mochila, abriram-na, viraram-na de cabeça para baixo, chacoalharam-na e, assim, as minhas coisas todas foram parar no chão. A tampa do pote onde eu levava comida para o trabalho se soltou e desceu a lomba rolando. Pegaram a minha carteira de identidade e ligaram para a central. Descobriram que eu não tinha passagem. Me devolveram o documento. Foram embora. E o que sobrou, depois disso, foi eu recolhendo as minhas coisas do chão. Todo o mundo assistindo de camarote das janelas dos apartamentos. Um espetáculo para os moradores da Bela Vista. Eu só queria desaparecer dali o quanto antes. Nem tive coragem de ir catar a tampa do pote.

O problema é que não foi só a tampa do pote que eu perdi. Perdi algo mais. Algo que me faz muita falta. Algo que rolou e rolou e rolou cada vez para mais longe nas dezenas de vezes em que fui humilhado pela polícia ao longo da vida. Algo que talvez não possa mais ser resgatado.

Paciência. Era só o trabalho deles.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza. 

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