Crônica

Expecto Patronum

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Expecto Patronum

Eu não segui a série de livros do Harry Potter quando tive a oportunidade. Por pura birra, claro. Assim que o primeiro título caiu nas mãos do meu irmão e o encantou, eu me desmotivei. É que no âmbito da leitura eu era, digamos assim, muito adulta para fantasia. Não demorou pro meu cérebro infantil de irmã mais velha deslegitimar o seu valor, afinal um leitor que amava Os sofrimentos do jovem Werther e Paramore não era exatamente o tipo de crítico literário que minha alma realista respeitaria. Depois me surpreendi bastante vendo os filmes. A narrativa era ótima, criativa e com uma coesão de dar inveja da primeira à última cena. Passei muitas horas acompanhando o crescimento daquelas personagens enquanto meu irmão se repetia sem cansaço: ‘‘o livro é muito melhor’’.

Eles sempre são. Confesso que ainda hoje não os li, talvez por puro acaso ou a velha desculpa da falta de tempo, porém guardo bastante aprendizado do cinema. Um dos feitiços mais poderosos de proteção daquele universo é o Expecto Patronum. Ele ficou famoso por ter salvo a vida do Harry algumas vezes, mantendo a sua saga de quase divindade na história. É um feitiço bem complicado e difícil, mas pensando numa memória feliz o suficiente, você conseguirá evocar o seu espírito guardião. O Patrono. Ele é alguém que defende uma causa, uma ideia, um ponto de vista. Lembrei disso passando minha timeline das redes sociais ao me deparar com as notícias da programação da feira do livro de Porto Alegre deste 2020, o ano Pandêmico.

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Eu não segui a série de livros do Harry Potter quando tive a oportunidade. Por pura birra, claro. Assim que o primeiro título caiu nas mãos do meu irmão e o encantou, eu me desmotivei. É que no âmbito da leitura eu era, digamos assim, muito adulta para fantasia. Não demorou pro meu cérebro infantil de irmã mais velha deslegitimar o seu valor, afinal um leitor que amava Os sofrimentos do jovem Werther e Paramore não era exatamente o tipo de crítico literário que minha alma realista respeitaria. Depois me surpreendi bastante vendo os filmes. A narrativa era ótima, criativa e com uma coesão de dar inveja da primeira à última cena. Passei muitas horas acompanhando o crescimento daquelas personagens enquanto meu irmão se repetia sem cansaço: ‘‘o livro é muito melhor’’.

Eles sempre são. Confesso que ainda hoje não os li, talvez por puro acaso ou a velha desculpa da falta de tempo, porém guardo bastante aprendizado do cinema. Um dos feitiços mais poderosos de proteção daquele universo é o Expecto Patronum. Ele ficou famoso por ter salvo a vida do Harry algumas vezes, mantendo a sua saga de quase divindade na história. É um feitiço bem complicado e difícil, mas pensando numa memória feliz o suficiente, você conseguirá evocar o seu espírito guardião. O Patrono. Ele é alguém que defende uma causa, uma ideia, um ponto de vista. Lembrei disso passando minha timeline das redes sociais ao me deparar com as notícias da programação da feira do livro de Porto Alegre deste 2020, o ano Pandêmico.

Um evento cultural ocorrendo pela primeira vez 100% on-line e de transmissão gratuita num ano de tanta insegurança político-sanitária já seria motivo suficiente para chamar a atenção. Mas as responsáveis pela curadoria esperam mais do que olhares através de janelas: sinto a busca por uma nova versão de conteúdo, para além da forma. Nem que para isso sua ousadia atual pudesse, em outros tempos, alimentar a combustão de fogueiras em praça pública. Este ano a praça da Alfândega estará vazia e as telas cheias de diversidade. Com mais mulheres tanto no número geral de participantes como de convidadas principais, mesas que receberão convidados internacionais e nacionais, misturando escritores consagrados e estreantes, falaremos sobre o que realmente importa: as pessoas, suas vidas e os livros. A escolha do patrono seguiu a toada, Jeferson Tenório, primeiro negro assumindo a responsabilidade de guardião.

Mas o que ele vai guardar? O que um homem pode fazer pelo futuro do livro? Acredito que a escolha, tendo sido realizada por diversas pessoas, carregue diferentes fontes de expectativa. No meu papel preferido na vida, o de leitora, eu já me fiz esta pergunta um milhão de vezes. O que eu posso fazer para os livros não acabarem? Quando surgiu a tecnologia que permite hoje a leitura e o armazenamento de títulos aos milhares num só aparelho, eu fiquei muito triste. Com medo. Gosto do papel, do cheiro, dos espirros, da textura, dos mais variados tons de envelhecimento, tamanhos e capas. Ah, as capas! Pelo menos metade dos livros que compro é culpa delas. Às vezes não me orgulho disso, mas geralmente são ótimas surpresas. Gosto do objeto para além de todos os significados culturais e metafísicos que ele pode carregar em um volume espacial tão minúsculo.

O que uma pessoa pode fazer pelo futuro do livro? Pode criar um imposto que dificulte seu acesso já tão restrito e centralizado. Pode perseguir seus temas e discussões queimando-os nas ruas, criticando sem embasamento nas redes sociais e ridicularizando seus autores. Pode fechar escolas e bibliotecas negando cultura e conhecimento às crianças ou depreciar sua utilização em nome de uma educação sem partido… Uma das maiores injustiças possíveis em nosso universo físico é a tendência ao caos. A desorganização é por natureza mais passível de realização. A construção requer sempre um maior gasto de energia. Ou seja, uma pessoa sozinha pode destruir mais rápido e com maior facilidade algo que outro indivíduo criou.

O nosso mundo é assim. Aprendi com um amigo que para cada pessoa de ação existe uma multidão de reacionários. Eles vão vencer, uma hora o cansaço bate. Contudo, diferente das histórias que os livros carregam, a vida não tem um fim. Até quando a existência de alguém acaba, a vida continua. Assim, não faz sentido dizer que eles vão vencer no final. Definitivamente. Os reacionários vão ganhar enquanto alguém de ação se cansa até aparecer outra pessoa para guardar a luta. O movimento eterno da passagem humana. Hoje um escritor que ensina o amor à leitura em sala de aula recebe o bastão que quase quarenta anos atrás estava nas mãos póstumas de Monteiro Lobato. Colegas, se isso não for uma vitória, um respiro, um copo de água fresca de alívio, eu não sei o que é.


Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou “Aqui dentro” pela editora Venas Abiertas. Disponível pelo Instagram da própria autora: @nathalliaprotazio.escritora.

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