Crônica

Faxina

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Faxina

A perfeição é a ausência de desejos. Penso nisso enquanto ensaboo os copos. Começo pelos mais limpos para reaproveitar o detergente. Eles estão bem variados. Mês passado uma onda de energia ruim quebrou alguns daqueles sobreviventes de outras crises. Mais um ciclo. Passo para as colheres pequenas. As facas e os garfos. Deixo as colheres grandes por último. Ligo a torneira para enxaguar. Minha parte preferida. A água escorrendo fria abre caminho para o sabão levar embora a gordura e os restos. Usando a mão direita como uma concha direciono o jato para os talheres que seguro com a esquerda. Tento fazer da maneira mais ágil possível, apesar de não ter pressa. Não suporto desperdício, de água então, detesto. Fecho a torneira enquanto coloco todos para escorrer. Agora é a vez dos copos. A água dança em círculos passando de um para o outro, caindo como numa fonte. Isso me acalma e em instantes me esqueço que estou lavando a louça.

Os desejos refletem nossa incompreensão do mundo. Penso nisso jogando água sanitária e sabão no chão do banheiro. Passo a vassoura em movimentos circulares. Primeiro desenho espirais pequenas. Depois que tenho a impressão de já ter percorrido todo o chão, faço espirais maiores e finalizo com linhas retas em direção ao ralo. Pego uma bucha para ensaboar os azulejos das paredes, a pia, o vidro do box e o vaso sanitário. Com o mesmo tipo de movimento circular, mas agora de maneira mais próxima. Sinto o esforço nos meus braços. Alterno. Mão direita. Mão esquerda. Mão direita de novo. Pra limpar o mais alto possível fico na ponta dos pés, um pouco da água com sabão escapa da esponja e escorre pelo meu braço. Abro a torneira e passo o braço embaixo. Água fria nas mãos, no braço, nos pés. Ela me acalma. Esqueço que estou lavando o banheiro.

[Continua...]

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A perfeição é a ausência de desejos. Penso nisso enquanto ensaboo os copos. Começo pelos mais limpos para reaproveitar o detergente. Eles estão bem variados. Mês passado uma onda de energia ruim quebrou alguns daqueles sobreviventes de outras crises. Mais um ciclo. Passo para as colheres pequenas. As facas e os garfos. Deixo as colheres grandes por último. Ligo a torneira para enxaguar. Minha parte preferida. A água escorrendo fria abre caminho para o sabão levar embora a gordura e os restos. Usando a mão direita como uma concha direciono o jato para os talheres que seguro com a esquerda. Tento fazer da maneira mais ágil possível, apesar de não ter pressa. Não suporto desperdício, de água então, detesto. Fecho a torneira enquanto coloco todos para escorrer. Agora é a vez dos copos. A água dança em círculos passando de um para o outro, caindo como numa fonte. Isso me acalma e em instantes me esqueço que estou lavando a louça.

Os desejos refletem nossa incompreensão do mundo. Penso nisso jogando água sanitária e sabão no chão do banheiro. Passo a vassoura em movimentos circulares. Primeiro desenho espirais pequenas. Depois que tenho a impressão de já ter percorrido todo o chão, faço espirais maiores e finalizo com linhas retas em direção ao ralo. Pego uma bucha para ensaboar os azulejos das paredes, a pia, o vidro do box e o vaso sanitário. Com o mesmo tipo de movimento circular, mas agora de maneira mais próxima. Sinto o esforço nos meus braços. Alterno. Mão direita. Mão esquerda. Mão direita de novo. Pra limpar o mais alto possível fico na ponta dos pés, um pouco da água com sabão escapa da esponja e escorre pelo meu braço. Abro a torneira e passo o braço embaixo. Água fria nas mãos, no braço, nos pés. Ela me acalma. Esqueço que estou lavando o banheiro.

Realizar é uma fonte de satisfação. Terminadas as duas primeiras etapas, o mais importante agora é a limpeza do chão. Tiro todos os objetos largados, levanto as cadeiras, empurro móvel, bato almofadas e tapetes, amarro cortina. Passo um pano pra tirar o pó acumulado durante a semana. Primeiro o barulho do aspirador. Faço rápido porque me irrita. Não gosto de barulho. Não consigo pensar com ele. O aspirador suga o que é mais visível. Olho pra trás com a satisfação de quem já realizou mais da metade do trabalho do dia. Assim, só resta passar água com desinfetante. O silêncio do rodo. O chão que parecia limpo deixa a água do balde escura. Passo duas vezes para ter certeza de que está bem feito. Eu estou triste. Não sou uma pessoa triste. Como o chão. Ele estava sujo. Não está mais. Uma hora esta tristeza vai passar. Continuo com vigor.

Termino e começo a guardar tudo. Balde, vassoura, bucha, pano de chão úmido. Não vi a hora exata que comecei, mas deve fazer um bom tempo porque está me batendo uma fome de almoço. Desço as cadeiras de cima da mesa e olho pro fogão. Ah! O fogão. Esqueci dele. Não gosto de limpar fogão. Nunca gostei. Tem gente que acha que é a mesma coisa que lavar uma louça. Não é. Eu pego um prato sujo e pouso um prato limpo no escorredor. Se eu pego uma boca suja de leite queimado, depois de muito esforço, eu consigo devolver uma boca de fogão manchada. Toda boca de fogão tem uns cantinhos onde a gordura se acumula pela eternidade. Você esfrega, esfrega, esfrega, mas nunca conseguirá limpar um fogão como limparia um prato. O fogão é a parte da casa que existe para nos lembrar nossa mortalidade e incompletude.


Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou “Aqui dentro” pela editora Venas Abiertas. Disponível pelo Instagram da própria autora: @nathalliaprotazio.escritora.

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