Crônica

Fingimento

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Fingimento

Eu tava aqui pensando se os homens, quero dizer, a maioria deles, ou melhor, pelo menos alguns que conheci, nunca vão aprender a gostar de uma mulher sem querer dominar, sem querer ganhar mais, sem toda hora querer comer o cu? Sim, é uma pergunta, mal escrita, mas uma pergunta, misturou aqui o pensamento com o “quer saber? Vou perguntar mesmo”.

Porque assim, durante muito tempo eu acreditei que quando azamigas diziam que a maioria dos homens não aguenta uma mulher como eu porque são machistas e, redundância, fracos, eu achava que era apenas consolo. Mas então resolvi fazer uma retrospectiva de todos os machos alfa, aqueles fodões mesmo, aqueles que sempre tentaram me diminuir, e consegui enumerar algumas frases que já ouvi como desculpa pra um afastamento – tem mais, porém tive que parar pra não vomitar:

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Eu tava aqui pensando se os homens, quero dizer, a maioria deles, ou melhor, pelo menos alguns que conheci, nunca vão aprender a gostar de uma mulher sem querer dominar, sem querer ganhar mais, sem toda hora querer comer o cu? Sim, é uma pergunta, mal escrita, mas uma pergunta, misturou aqui o pensamento com o “quer saber? Vou perguntar mesmo”.

Porque assim, durante muito tempo eu acreditei que quando azamigas diziam que a maioria dos homens não aguenta uma mulher como eu porque são machistas e, redundância, fracos, eu achava que era apenas consolo. Mas então resolvi fazer uma retrospectiva de todos os machos alfa, aqueles fodões mesmo, aqueles que sempre tentaram me diminuir, e consegui enumerar algumas frases que já ouvi como desculpa pra um afastamento – tem mais, porém tive que parar pra não vomitar:

1. Mas se tu não quer ter filho é porque tu não me ama.

2. Com certeza, se tu diz que casamento é só formalidade é porque não quer se prender, e se tu vem com essa desculpa é porque quer me largar. E eu quero uma companheira, não uma desapegadona que não quer nada com nada.

3. Acho demais você ser assim empoderada, sabia? Detesto mulher dependente. Você é uma preciosidade, e sempre vou te lembrar disso. Mas acho melhor a gente se afastar. Não sei, tem alguma coisa em ti que não bate, sei lá.

Aí eu passo a minha vida toda fazendo todas as fórmulas da felicidade, aprendo a me amar, a não ser dependente de ninguém, a gostar da minha companhia, porque aí sim ia aparecer alguém legal, e complemento, se esse alguém fosse legal mesmo quem sabe eu até casasse, ué, não sei, aí eu tenho meu trabalho, minha casa, minha independência, sei trocar pneu, trocar lâmpada, não pego no pé de ninguém, não encrenco se num dia não tá a fim de me ver, não pressiono pra assumir compromisso, porque sim, eu ouvi pagode anos 90 COM ATENÇÃO, deixa acontecer naturalmente, quer dizer, eu tenho um trabalhão da porra em toda uma construção de personalidade pra depois chegar os bosta e dizer que isso é problema? Faça-me o favor.

Vocês vão ver se eu não vou começar a fingir a partir de agora. Dizer que moro de aluguel. Comprar vidro de pepino só pra pedir pra vocês abrirem, porém saibam que eu tenho toda uma técnica pra abrir sozinha, há anos, mas vou fingir que não sei, não vou mostrar a facilidade que é abrir uma garrafa de vinho sem força, nãããooo, porque os machos alfa pode ser que se sintam acuados e achem que eu sou uma feminista que não aceita uma gentileza vinda de um homem, meus amores, eu aceito gentileza até do gato da vizinha que traz passarinho morto pra mim, eu aceito toda gentileza, pode abrir a porta do carro pra mim, vou achar de um cavalheirismo sem igual, porque eu sou canceriana e brega, mas agora eu vou começar a mostrar toda uma fragilidade, só pra enrabar vocês como vocês querem fazer comigo.

Vou ouvir todas as explicações, vou deixar pagar todas as contas, não vou mover uma palha quando for pra carregar uma mesa, uma coisa, vou até, eu, que nunca ralei um carro, DETONAR as rodas dos carros de vocês, arrastar sem dó no meio-fio quando for estacionar, vou deixar vocês cheios de orgulho, só pra depois, do nada, olhar bem na cara de vocês e dizer que vocês são foda, mas tem algo, assim, que não bate. E aí quem vai se lamentar sem entender o que houve, pois tava tudo normal, serão vocês, até que aceitem que os tempos são outros.


Ana Marson nasceu em 1978, em Porto Alegre, é mestre em literatura brasileira pela UFRGS, viveu em São Paulo de 2008 a 2016 e atualmente mora em Florianópolis. Trabalha como revisora de textos e designer instrucional. Publicou A cobra da laranjeira – crônicas muito azedas, crônicas, 2017, pela Consultor Editorial.

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