Crônica

Flanar e farejar pelo Morro da Praia

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Flanar e farejar pelo Morro da Praia

Do alto da escadaria da João Manoel, tu olha entre os prédios e encontra o Anfiteatro Pôr do Sol ao longe, o Beira-Rio atrás, umas centenas de metros que já dão uma neblina pra vista ser mais interessante, tipo filtro do Instagram, só que uma dramatizada natural.

Estamos praticamente no topo do Morro da Praia, chamado assim porque, depois da Washington Luiz, era tudo água. É aqui no alto que meu cachorro gosta de fazer cocô, ele tem uma relação boa com as tipuanas que racham o asfalto da rua. Sempre quer entrar naquele pátio-estacionamento do palácio na esquina da João Manoel com a Duque, o bicho tem isso de apreciar a umidade, o limo, farejar a ruína. A gente gosta quase da mesma coisa, de tudo isso que aparenta estar há tempo num lugar. Mas ele fareja, eu contemplo. Dizem que cachorro gosta de passear pra sentir cheiros diferentes, é a contemplação deles, novas sinapses pelo fuço. 

Juremir Machado da Silva tem um livro muito bom sobre esses arredores: A noite dos cabarés, lançado em 1991. Nos conta sobre a belle époque da Porto Alegre dos anos 40 e 50, nos leva prum passeio entre pensões e cabarés do antigo Alto da Bronze. É impressionante como um ar boêmio porteño – assim, forçosamente hispanófono – ainda vaga por aqui. Talvez porque a península era mais península antes de aterrarem o Guaíba, e, alguém já deve ter falado disso, essa ponta de Porto Alegre se parece muito com o desenho peninsular da Ciudad Vieja em Montevidéu. Meu cachorro fareja os portões da Fernando Machado e da Demétrio Ribeiro, dessas fachadas antigas que podem muito bem ter sido cabarés, o que essas janelas têm de simpáticas também têm de maliciosas, uma casca de crime. O bicho estende o fuço pra dentro das casas, querendo briga com o mini-cachorro que aparece do nada, e eu vou farejando junto, buscando mais detalhes daquela escada em espiral que consigo ver da janela, daquele sofá que tá ali desde os anos 1920 certamente, dos puxadores da estante, nós dois nos empolgamos pelo mormaço de lar amadeirado que vem das salas.

Pra tentar entender tudo isso que respiro nessa colina de caminhos estreitos, penso naquela boemia com marinheiros, os pés que se firmam na terra por pouco tempo antes de zarpar, uma melodia no violão, uma cheirada no cangote suado, salgado, mas de perfume açucarado, a música e as gargalhadas, marinheiro conhece disso, essa cidade sabe dar uma festa, ela é falada, lembrada em alto-mar em várias línguas, isso tudo vagueia pelo ar dessas ruas e casas, velhas cosmopolitas e boêmias. Talvez esteja aqui a Porto Alegre que jamais deu as costas pro rio, não por uma sensibilidade ecológica ou patrimonial, mas pela pura incapacidade de ser de outro jeito, porque nada mexe em memória de península que conheceu pouca coisa além do vento que traz e leva embora, cada sala, cada mini-cachorro, cada chinelo balançando na frente do sofá de couro não esquece.

Chegamos em casa, desato a coleira do cachorro, ele toma uns goles d’água, belisca a ração, deita estralando os ossos. Na janela acima dele, uma fresta entre os prédios me dá uns poucos segundos de cada barco que passa.

(07.05.2022)


Augusto Darde é doutorando no PPG-Letras UFRGS. Contato: [email protected]

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