Crônica

Inteligência Artificial

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Inteligência Artificial

Entrei no colégio em 1972. O frescor da conquista da lua e, por aqui, da terceira Copa do Mundo, fazia com que quase invariavelmente meus colegas desejassem ser astronautas ou jogadores de futebol. Quase, porque sempre houve e talvez ainda haja guris que se sentem vocacionados à carreira de bombeiro.

E eu queria ser açougueiro. Guri de cidade, o açougue da volta de casa era o mundo mais próximo das histórias do meu pai sobre seus tempos no matadouro do Instituto de Carnes São Geraldo, anteriores ao meu nascimento.

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Mas por mais que eu me exibisse com minha carneadeira de madeira à cinta e as mantas de carnes bovinas ou de caça representadas por meus travesseiros e brinquedos, havia coisas nas lembranças entusiasmadas do pai que eu não imaginava como eram e o açougueiro, seu Ângelo, não tinha para me mostrar.  

Exemplos eram a farinha de sangue, a farinha de osso e a farinha de carne. 

Esses estranhos produtos apareciam como exemplos do aproveitamento total que se pode dar ao animal abatido – mas também como elementos de um exercício cognitivo e de imaginação a que eu era submetido.

A pergunta de meu pai era: se pudéssemos fazer um animalzinho muito bem feito, utilizando como ingredientes as três farinhas e água… o que faltaria para que ele tivesse vida?

Eu estava acostumado a esse tipo de intrigas ou charadas. Meu pai nos habilitava para compreender grandezas e dimensões, por exemplo, com perguntas do tipo “o que é maior: um elefante médio ou um rinoceronte grande? Um cachorro grande ou uma capivara pequena?”

Mas essa tinha algo de mais fascinante – e era a o insumo que faltava naquele bichinho que eu gostava tanto de imaginar. Uma pequena vaca, ou cavalo, não tinha ali tudo o que precisava para animar-se e caminhar? Nós não somos, todos, afinal, feitos de carne, sangue e osso? Claro: a farinha é algo meio desidratado. Mas aí a água dava o acabamento e listo: surge et ambula!

A pergunta fazia pensar, para quem ainda não poderia entender a sofisticação de um organismo complexo, que a única coisa que faltava era nada menos do que a vida. O sopro, a anima… 

Mais de 50 anos depois, já lembrei algumas vezes dessa parábola caseira e popular. 

Nestes dias, leio que Noam Chomsky se contrapôs ao conceito de inteligência artificial, classificando como plágio o funcionamento do Chat GPT. O leigo se atreve e se arrisca, mas não acho que seja o caso de dizer se concordo. Não importa. Na verdade, vejo por outro lado. Aproveito minha noção absolutamente superficial do assunto, o que, afinal, às vezes é útil, e proponho um exemplo na área da qual estou mais próximo. 

É conhecido, e frequente, o comentário sarcástico sobre a possibilidade de se montar uma poesia ou uma canção apenas com os clichês do seu estilo. No universo gauchesco, por exemplo: armar um texto com o repertório de imagens e conceitos recorrentes não parece difícil a quem o conhecer suficientemente. Pode-se fazer isso como uma brincadeira, um desafio, uma provocação. 

Em geral, será uma forma de questionar a solidez desse estilo, o que pode eventualmente ser injusto. A convergência é natural: a produção artística que busca os ingredientes pulverizados de uma “nuvem” para fazer uma montagem friamente eficaz, convincente, tal como sempre se viu, desde que se usavam, por exemplo, as expressões “música de laboratório” e “filme enlatado”, no que ela difere da lógica da Inteligência Artificial? 

Se não consigo acompanhar com facilidade a crítica que a associa ao plágio – porque se trata de conhecimento esfarinhado e disponível de alguma maneira em um ambiente compartilhado –, não demoro em pensar (e aí vai o atrevimento e o arriscar-se do leigo) que essa forma de composição ou construção de discurso sempre existiu. O que me faz pensar que talvez, para muito além da intervenção do cibernético e das novas tecnologias, há uma forma de inteligência que prescinde de um ingrediente. 

Não todo mundo opinará que se trata de um fator fundamental, inarredável. Não todo mundo terá clareza de que ingrediente é esse, quando, afinal, a carne, os ossos e o sangue estão presentes, devidamente hidratados. 

Eu gosto de pensar que o sopro da vida equivale à chispa geradora da criação e do criador, sem a qual o mais bem arranjado amálgama de subprodutos pulverizados de organismos naturais um dia vivos jamais dará um passo.


Demétrio Xavier é um músico porto-alegrense, especializado na música crioula do Uruguai e da Argentina. Atuando permanentemente no Rio Grande do Sul e nos dois países platinos, enfatiza sua pesquisa na obra do argentino Atahualpa Yupanqui.

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