Crônica

Já me diverte

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Já me diverte

Eu sou o rei dos hipocondríacos. Quando eu morrer, vai tá escrito assim na minha lápide: “será que agora vocês acreditam?”

Brincadeiras à parte, olha, não tá fácil. Eu, que nunca precisei de mais do que uma dor de barriga pra supor a iminência da morte, agora me vejo num contexto histórico de pandemia global, batalhando pra não imaginar o pior a cada instante, a cada fungada, a cada espirro, a cada coceira na garganta, a cada tossida. O curioso é que os meus esforços conscientes não podem me tranquilizar. Ao contrário: quanto mais energia eu gasto tentando pensar que vai ficar tudo bem, tanto maior é a clareza com que percebo a minha dificuldade em acreditar que vai ficar tudo bem. O que me salva são as horinhas de descuido, como me diz todos os dias o Guimarães Rosa, por intermédio da minha namorada. É só quando eu esqueço de cogitar o porvir que consigo encontrar alguma paz.

Logo que todo esse inferno começou, eu não saía de casa nem por decreto. A única coisa que me empurrou pra rua foi a necessidade de pagar os boletos. Uma odisseia. Com medo de pegar ônibus cheio, decidi ir de uber. Na época, eu ainda não tinha o aplicativo instalado no celular, nem fazia ideia de como se mexia naquilo. Pra falar a verdade, não sou muito fã de uber. Normalmente, uso só quando não tem outro jeito. Apesar de toda a precariedade do transporte público, gosto de andar de ônibus. Gosto de estar em contato com as pessoas, gosto de existir junto com elas, gosto de me estressar com o que as estressa, gosto de me alegrar com o que as alegra, gosto de me sentir pertencente ao povo, gosto de passar os perrengues que todo o mundo passa. Não me sinto confortável com o conforto. Preciso tomar cuidado pra não romantizar as coisas, é claro, e também preciso evitar de me acostumar com a tragédia da injustiça. Mas, puta merda, eu gosto da rua, gosto de experimentar o frio, o calor, a chuva; gosto de caminhar, gosto de cansar de caminhar, gosto de reclamar de caminhar, gosto de dar graças a Deus quando finalmente chego e não preciso mais caminhar. Nem sei explicar o prazer que isso tudo me dá. Eu me sinto uma pessoa de verdade. O uber, Deus que me perdoe, é uma bolha de aço. Um troço deliberadamente projetado pra impossibilitar que o indivíduo experimente o vento gelado, o sol escaldante, o spam evangélico, o “bom dia” inesperado de um completo desconhecido, o “eba!” de uma criança cuja mãe decidiu comprar uma pipoquinha doce, o ar fresco das ruas arborizadas, a nuvem de fumaça preta que sai do cano de escape de um caminhão, o tropeço na calçada, o atraso pra um compromisso, a pulsação do mundo, a irregularidade da vida.

[Continua...]

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Eu sou o rei dos hipocondríacos. Quando eu morrer, vai tá escrito assim na minha lápide: “será que agora vocês acreditam?”

Brincadeiras à parte, olha, não tá fácil. Eu, que nunca precisei de mais do que uma dor de barriga pra supor a iminência da morte, agora me vejo num contexto histórico de pandemia global, batalhando pra não imaginar o pior a cada instante, a cada fungada, a cada espirro, a cada coceira na garganta, a cada tossida. O curioso é que os meus esforços conscientes não podem me tranquilizar. Ao contrário: quanto mais energia eu gasto tentando pensar que vai ficar tudo bem, tanto maior é a clareza com que percebo a minha dificuldade em acreditar que vai ficar tudo bem. O que me salva são as horinhas de descuido, como me diz todos os dias o Guimarães Rosa, por intermédio da minha namorada. É só quando eu esqueço de cogitar o porvir que consigo encontrar alguma paz.

Logo que todo esse inferno começou, eu não saía de casa nem por decreto. A única coisa que me empurrou pra rua foi a necessidade de pagar os boletos. Uma odisseia. Com medo de pegar ônibus cheio, decidi ir de uber. Na época, eu ainda não tinha o aplicativo instalado no celular, nem fazia ideia de como se mexia naquilo. Pra falar a verdade, não sou muito fã de uber. Normalmente, uso só quando não tem outro jeito. Apesar de toda a precariedade do transporte público, gosto de andar de ônibus. Gosto de estar em contato com as pessoas, gosto de existir junto com elas, gosto de me estressar com o que as estressa, gosto de me alegrar com o que as alegra, gosto de me sentir pertencente ao povo, gosto de passar os perrengues que todo o mundo passa. Não me sinto confortável com o conforto. Preciso tomar cuidado pra não romantizar as coisas, é claro, e também preciso evitar de me acostumar com a tragédia da injustiça. Mas, puta merda, eu gosto da rua, gosto de experimentar o frio, o calor, a chuva; gosto de caminhar, gosto de cansar de caminhar, gosto de reclamar de caminhar, gosto de dar graças a Deus quando finalmente chego e não preciso mais caminhar. Nem sei explicar o prazer que isso tudo me dá. Eu me sinto uma pessoa de verdade. O uber, Deus que me perdoe, é uma bolha de aço. Um troço deliberadamente projetado pra impossibilitar que o indivíduo experimente o vento gelado, o sol escaldante, o spam evangélico, o “bom dia” inesperado de um completo desconhecido, o “eba!” de uma criança cuja mãe decidiu comprar uma pipoquinha doce, o ar fresco das ruas arborizadas, a nuvem de fumaça preta que sai do cano de escape de um caminhão, o tropeço na calçada, o atraso pra um compromisso, a pulsação do mundo, a irregularidade da vida.

Mas decidi ir de uber. Pedi que a minha tia chamasse um pra mim.

— Ui! Que chique! Vai até o Centro de uber!

A zoação dela não era sem motivo. Seria uma viagem praticamente intermunicipal. Lembrei do meu mano Duan, que costuma dizer que o Pinheiro não faz parte de Porto Alegre. Ele tem toda a razão. Enfim. A corrida ficou em quase quarenta reais. Uma facada. Uma fortuna. Em época de vacas magras, sei como fazer pra me alimentar durante uma semana inteira com esse dinheiro.

Não sei o que andaram dizendo sobre o vírus pro cara que me levou, mas ele passava álcool em gel nas mãos o tempo todo. Cada sinaleira fechada era uma passada de álcool em gel.

— Não dá pra bobear, né.

— Ô! Nem me fala. Tô desde o início dessa porra pensando que vou morrer. Não saio da baia por nada. Só tô saindo hoje por causa dos boleto.

— Sim, sim. É incrível: tudo para, mas os boleto não para de chegar.

— Pois é. Mas olha só: tu sabe que eu até gosto de pagar os boleto?

Ele riu.

— Sério! Eu vejo um monte de gente reclamando no Facebook que os boleto isso, que os boleto aquilo. E durante a maior parte da minha vida tudo o que eu queria era poder pagar a porra dum boleto. Saca? Tipo assim: eu ter internet, ou eu ter Netflix, ou eu ter um bagulho que eu busquei na prestação, e aí me chegar o bendito boleto, e eu poder ir lá e pagar. Tá ligado? Mas não. Minha água sempre foi clandestina, minha luz sempre foi clandestina, a Netflix sempre foi uma conta emprestada, a internet sempre foi o Wi-Fi de alguém. Isso é uma bosta, na real. É uma bosta o cara ter que se virar com tão pouco dinheiro. É uma bosta que o cara nem sequer entrar no contexto dos boleto. É uma bosta a grana do cara ir toda em comida. Quem paga boleto tinha mais era que dar graças a Deus, na real. Eu gosto de finalmente poder pagar uns boleto. Eu me sinto gente.

— Ah, sim, sim, com certeza.

Percebi que ele ficou ressabiado. Foi visível. Me arrependi de ter me deixado levar pela empolgação e ter feito aquele discurso. Sei o que tava passando pela cabeça dele. Sei qual era a equação que ele tentava solucionar mentalmente. Era esta: “a probabilidade de esse passageiro ser um ladrão querendo me assaltar é igual à raiz quadrada da honestidade possível na Lomba do Pinheiro mais o fato de ele estar indo pro Centro de bermuda e chinelo elevado a toda uma vida de privações dividida pela sua condição atual de poder pagar alguns boletos”. Conta difícil. Chegamos no Centro e ele ainda não tinha conseguido resolver. Só quando eu paguei a corrida e lhe desejei bom trabalho é que o rosto dele desanuviou, como se um matemático invisível tivesse sussurrado a resposta em seu ouvido.

Além de pagar os boletos, eu também tinha que transferir uma grana pra a Editora Venas Abiertas, que tinha colocado uma nova tiragem do meu livro de contos no forno. Não consegui fazer TED. Por alguma razão, não tava funcionando.

O banco, na verdade, já tinha fechado; só a área dos caixas eletrônicos, onde eu tava, permanecia liberada. Mas vi que tinha dois guardas da agência por ali, do outro lado do vidro, e resolvi tentar me informar.

— Ei!

— A agência tá fechada, senhor.

— Sim, eu sei, mas tem alguém pra eu pedir uma informação?

— A agência tá fechada, senhor.

— Sim, eu tô vendo, mas eu só queria perguntar uma coisa simples, pode ser pelo vidro mesmo.

— A agência tá fechada, senhor.

Fiquei olhando pra ele um instante. Uma porta teria sido capaz de interlocução parecida. Deus que me perdoe. A única coisa pior do que um policial é alguém que queria ser policial e não conseguiu. Transferi o dinheiro por DOC mesmo e fui-me embora dali.

Vale lembrar que a pandemia recém tinha chegado por aqui, a nossa quarentena recém tinha começado, o povo todo ainda tinha medo de morrer. As ruas tavam muito menos movimentadas do que o normal, e isso me causava uma sensação agridoce, um misto contraditório de apreensão e alívio. Com menos gente circulando, era mais difícil ser contaminado pelo vírus, mas era mais fácil ser contaminado pela tristeza. Pra ajudar, tava nublado e ventando: tudo me inspirava a ideia de uma civilização em seus últimos dias. E desejei, com todas as forças, estar de volta em casa o mais rápido possível.

A maior prova que posso dar do quanto eu tava com medo, é que perambulei de cá para lá e de lá para cá, passei na farmácia, enfrentei fila na lotérica, imprimi documento, enfim, fiz tudo o que eu tinha que fazer no Centro sem tomar um único latão. Mas eu tava sem almoçar, sem comida pronta em casa, sem vontade nenhuma de cozinhar, e assim não consegui resistir ao pastel da dona Lola.

A dona Lola, inclusive, é uma senhorinha interessante. Abriu o negócio dela ali na Salgado Filho, bem no meio da muvuca, cobrando R$ 2,50 o pastel. Se isso não é tino comercial, então não sei o que é. O que sai de pastel ali é um absurdo. Na contramão da maioria dos pequenos comerciantes, ela vende o seu produto na boa, sem meter a mão no bolso de ninguém. Preço justo. E deve estar ganhando um bom dinheiro, porque logo abriu outra loja, ali na Salgado mesmo. Não vou me surpreender se um dia ela dominar todo o Centro de Porto Alegre, e depois o mundo, vendendo pastel a R$ 2,50. Aliás, a R$ 3,00, porque o preço deu uma subidinha. Enfim.

Mas a dona Lola não tem tanto tino assim quando o assunto é pandemia. Ainda antes de o vírus ter se espalhado por aqui, quando os casos de Covid no país inteiro se contavam nos dedos, eu tava lá, comendo um pastel de carne e tomando um suco de cevada, e ouvi ela dizendo aos clientes o que achava das notícias.

— Bobagem! Tudo bobagem! Tu liga a TV, e é só disso que falam. Foi a mesma coisa na época daquela outra gripe, lembra? E aí? O que aconteceu naquela vez? Nada! Fizeram um escarcéu à-toa. Eu é que não vou ficar em casa. Eles pensam que a gente não tem mais o que fazer. Vou seguir com a minha rotina normalmente, preciso trabalhar. Basta eu fazer o que já faço aqui sempre, desde que eu abri a loja: lavar bem as mãos. Pronto. Não tem isso de ficar em casa.

Só que ela ficou, sim, em casa. Depois que o bicho começou a pegar e a quarentena foi decretada, acho que ela mudou de opinião. Ou não. Talvez tenha ficado em casa a contragosto. O fato é que, quando cheguei na loja, era outra mulher, muito mais jovem, quem atendia. Talvez uma filha ou uma sobrinha da dona Lola. Além disso, havia uma fita de isolamento, impedindo que os clientes entrassem: só era possível fazer o pedido à porta, pra levar; não se podia comer ali. Peguei quatro pasteis de carne e fui embora, torcendo pra que a dona Lola tivesse bem.

A fome pareceu triplicar com o cheiro dos pastéis. Pensei em me sentar na escadaria da Borges pra comer, como é do meu costume, antes de embarcar na viagem de volta pra casa. Mas logo percebi que essa não era a melhor coisa a fazer. E o motivo de eu ter chegado a essa conclusão foi um exercício mental estratégico que, claro, nem todos estão acostumados a fazer. Acompanha o meu raciocínio, leitor: eu tava com medo de pegar ônibus cheio; eu não podia chamar um uber, porque não tinha o aplicativo instalado no celular; eu não tinha a quem pedir pra chamar um uber pra mim; eu precisaria pegar um táxi; de cada dez táxis livres pros quais eu faço sinal, apenas três ou quatro param, enquanto os outros seis ou sete preferem seguir procurando um passageiro um pouco mais branco, um pouco mais com cara de Cidade Baixa, com sapatênis em vez de chinelo, com camisa polo em vez de camisa de clube de futebol; dos três ou quatro táxis que param pra mim, se eu tiver sorte, pode ser que pelo menos um não desista da corrida quando eu disser que vou pra Lomba do Pinheiro. Bem, o que eu tô querendo dizer é que eu preciso sempre parecer o menos suspeito possível. E imagino que um assaltante que se preze não deve andar com uma sacola cheia de pasteis. Assim, decidi comer só em casa.

A estratégia pareceu funcionar. Só um taxista me ignorou quando fiz sinal. Depois dele, dois taxistas resolveram parar pra mim: o primeiro desistiu da corrida quando eu disse que ia pra Lomba do Pinheiro, mas o segundo já topou, depois de me olhar de cima a baixo, de baixo a cima, com uma breve estacionada de olhos na sacola com os pasteis.

O assunto na viagem não poderia ser outro.

— Tá difícil. Antes eu conseguia fazer um monte de corrida, todo santo dia. Agora, se eu faço uma ou duas, tenho que dar graças a Deus. E ainda por cima é aquilo: tem que dividir tudo com o dono do carro. Mas tô dando o meu jeito. Tem uma mulher, uma conhecida minha, que vende doce. Mas, tipo, ela vende os doce dela é pros rico. Trezentos, quatrocentos conto cada encomenda.

— Bah, que loucura! Doce pra festa?

— Não, não. Doce pra ter em casa, mesmo. É caro assim, mas não é um montão de coisa. Trezentos, quatrocentos conto por meia dúzia de doce. Uns troço fino. Enfim. Daí eu faço as entrega pra essa mulher. As entrega tu sabe onde é: Moinhos, Bela Vista. Mas é claro que essa minha conhecida me chama pra fazer as entrega muito mais pra me dar uma força. Pra ela era muito mais vantagem chamar um motoboy. Enfim. Tá difícil. Mas tu sabe como é, não sabe? Do jeito que a coisa tá, se eu não passar fome, já tô bem feliz. Do jeito que a coisa tá, feijão e arroz já me diverte.

— É. Sim. Eu sei como é.

Eu não disse pra ele, mas imaginei algo mais divertido do que feijão e arroz. Eu imaginei alguém amarrado e amordaçado num apartamento do Moinhos, enquanto eu ia embora de lá com a mochila cheia, levando todos os seus doces pra distribuir pra molecada da minha vila.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

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