Crônica

Ler

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Ler Foto: Polina Zimmerman

Semana passada recebemos em Porto Alegre, no Fronteiras do Pensamento, a romancista francesa Muriel Barbery. A palestra foi fantástica e dentre as ideias que a autora explorou, uma delas repercutiu bastante em mim, por dialogar com um tema constante em minhas pesquisas: a importância da humanidade.

Durante a palestra, a romancista diz que o estado de espírito que a leitura requer está cada vez mais difícil de acontecer.

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Essa frase coloca em pauta diferentes nuances do mesmo problema: a constante aceleração tecnológica e propagação infinita das telas e dos cliques em nossa vida.

Por um lado, essa distração toda nos tira o foco e faz com que seja bastante difícil pararmos e dedicarmos um tempo longo e vazio para a leitura. Temos medo do vazio em nossa rotina, da hora que não tem reunião. Do espaço vago que potencializa o nosso encontro com nós mesmos. Esse lugar parece não ser um lugar de direito. Parece que estamos traindo uma dinâmica social imposta de aceleração contínua. Eu, particularmente, tento reservar um período de tempo na minha semana para ler, mas esse tempo é sobreposto e acaba sendo ocupado por múltiplas camadas de problemas, de atenção, de conexão. Impossível passar 5 minutos sem pensar no celular, em algum email, em algum problema que preciso resolver. O tempo se esvai, se despedaça, se fragmenta nas diferentes necessidades que temos.

Essa linearização do tempo, definida por Ailton Krenak como o tempo flecha, se soma à segunda questão que repousa no centro da frase dita por Muriel Barbery: nossa contínua e incessante busca por mais e pelo que vem pronto. A facilidade que sentimos quando recebemos algo já embalado, já pronto para o consumo, é reconfortante e esconde o nosso medo de ter que produzir, de errar, de gastar mais tempo do que temos, para chegar na mesma solução.

Quando recebemos pronto, temos um caminho mais fácil, mas perdemos as possibilidades que se constroem na diversidade humana. Se consumimos a mesma coisa, acabamos iguais.

Em um contexto como esse, gastar um tempo incerto, na busca profunda de ler algo sem aplicação direta, algo em certa medida inútil, torna-se uma heresia.

Esses dois movimentos – por um lado a multitarefa e falta de foco, por outro a busca por facilidade e instantaneidade –, nos colocam mais próximos da padronização humana. E a padronização é o caminho mais curto para a nossa potencial transformação em máquinas pseudo inteligentes. Abrimos mão do que somos em busca do que achamos que precisamos.

Fiquei pensando no impacto de tudo isso em uma das competências que nos distingue das máquinas: nossa potencial para imaginar e criar. 

O ser humano é criativo à medida que consegue explorar novos contextos, ressignificar modelos, e aprender continuamente com o outro. Imaginamos, sentimos, somos afetuosos. Essas características não são copiáveis, mas podem se tornar obsoletas em um mundo que busca avançar a partir do que já existe, em uma dita evolução incremental em direção a um contínuo abismo conceitual.

Ler é um ato de amor a si mesmo e ao outro. 

Quando lemos, imaginamos. Criamos em nossa mente possibilidades, incertezas. Fugimos de um mundo predefinido, que já nos é entregue pronto em imagens e desenvolvemos a nossa construção. 

Quando dialogamos, aprendemos, refletimos na ação. Sempre lembro de uma das autoras mais influentes para mim, a Alice Kolb, quando ela fala em conversas de aprendizagem (conversational learning). Esse processo potencializa as conexões sociais e a troca de conhecimento, o giro do nosso conhecimento tácito, a reflexão na ação à medida em que tornamos explícito, através do diálogo, aquilo que estamos pensando. 

Ler é o alimento para que esse processo ocorra. 

Em um mundo intenso em tecnologia, com novas versões a cada dia das ferramentas que nos deslumbram, como o GPT-4o, pode parecer naif dizer que o caminho para um mundo melhor é a leitura. 

Mas se não acreditássemos nisso, não estaríamos aqui. 


Gustavo Severo de Borba é Doutor em Engenharia de Produção, professor e escritor. Diretor do Instituto para Inovação em Educação da Unisinos, é autor dos livros A Escola do Futuro (Penso Editora,2019), com Marcos Piangers, Transformando a Sala de Aula (Penso Editora,2023), com Melissa Lesnovski, entre outras obras. Nascido em Santa Maria-RS, vive em Porto Alegre desde 1996.

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