Crônica

Lições ancestrais

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Lições ancestrais

Minha avó Irene era uma espécie de entidade e, pensava eu, morava na Alemanha. Era muito longe da nossa cidade e, quando íamos visitá-la, e ao avô, todos falavam em alemão. Em vovó fui descobrindo – e a admirei por isso – o ideal de Frau: a moral, os deveres e os sacrifícios esperados de uma mulher. E ela lembrava a si mesma e às filhas dessas virtudes através de bordados nas cortinas engomadas da cozinha, em especial nas que disfarçavam as achas de lenha para o fogão. Trocadas uma vez por semana, podiam formar um código ético e um penal:

A hora matinal tem ouro na boca.
Quem, diligente, trabalha, durante o dia, sente-se bem à noite.
Esforço traz pão, preguiça, necessidade.
Uma consciência tranquila é um travesseiro suave.
Uma mãe cuida de dez filhos, mas dez filhos não cuidam de uma mãe.
Nem arte, nem diligência e trabalho serão úteis se o Senhor Deus não proteger a casa. (Socorro!)

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Bordadas em ponto atrás ou de cruz, as sentenças eram também ilustradas. Cada semana, uma lição. 

Outra virtude básica é cozinhar, com variedade e economia, a comida preferida do marido. E, enquanto os alimentos cozinham, ao invés de ficar com a cabeça vagando, ela pode muito bem apoiar a perna varicosa num banquinho e finalizar a barra de crochê de um cueiro para o neto que está por nascer. Todos sabemos que quem muito descansa, enferruja.

A verdadeira Frau mantém o senso prático em qualquer situação: mesmo se sua própria mãe acabe de morrer, ela não perderá o controle. Tratará de avisar os parentes, organizar o funeral, deixar marcada a missa de sétimo dia, e providenciar comida para os que vierem de longe. Ela mesma vai banhar e vestir a falecida, sem esquecer as roupas de baixo novas, antes reservadas para as consultas médicas. E, daí em diante, levará, todos os sábados, flores frescas de seu jardim para a querida defunta. Aproveitará, também, para visitar os demais mortos da família, e, ao menos, trocar-lhes a água dos vasos. 

O teste definitivo para uma Frau, é preparar o Natal para sua família, tal e qual imaginava que faziam suas antepassadas, na Europa. Começará um mês antes, com os biscoitinhos, a escolha e reserva de um pinheiro natural, a limpeza dos enfeites, os cânticos ensaiados com as crianças, mais biscoitos no forno a lenha, e, por fim, encrespará os cabelos –  tipo ovelha – para durar bastante. E não vou contar mais nada, porque estou cansada, exausta mesmo, e um dos bordados mais lindos da vovó ensinava: nunca te queixes do dia que traz trabalho e fadiga; é tão bonito cuidar da gente que se ama!


Nascida em Santa Cruz do Sul, Valesca de Assis descende de gente germânica. Formada em Filosofia, é escritora, autora de vários romances, entre os quais A colheita dos dias e A harmonia das esferas, e de livros para infância e juventude. Foi patrona da Feira do Livro de Porto Alegre em 2017.

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