Crônica

Livros: livres

Change Size Text
Livros: livres Foto: Ângelo Chemello Pereira

O título desse texto foi escolhido porque livros, em francês, se escreve livres. E essa ideia de liberdade, que associo só porque tenho a sorte de falar português, tem a ver com livros dentro de caixas. Uma contradição, já que as caixas fecham, escondem, guardam. Mas, calma lá!, não as caixas que vão registradas neste material da Parêntese. 

Nas fotos aqui apresentadas estão umas poucas, das tantas, minibibliotecas comunitárias que se espalham nessa localidade onde moro: o departamento de Orne, noroeste da França. Tais bibliotecas são chamadas de boîtes à livres – o que seriam caixas de liberdade se eu subverter a tradução. 

Publicidade

Não fotografei essas caixas porque o modelo de troca de livros surpreenda como ideia, mas ele me convence a compartilhar porque na prática a ideia funciona relativamente bem por aqui. Aprecio nesse procedimento a inter-relação comunitária que as caixas desempenham em prol do livro: primeiro na conexão fundamental entre quem escreve e quem lê; depois pelo enlace entre leitores do meio urbano e do meio rural (Orne é bastante agrícola); e por fim pelo movimento de sair de uma casa e de entrar em outra, passando por um ponto de contato que está ali do lado de fora, dentro da caixa. 

É o livro que liga uma certa quantidade de gente que não se vê. 

Eu conheço um voluntário, e ele eu já vi pessoalmente, que se encarrega de ajudar essas obras a deambular, caso elas estejam um pouco estagnadas no mesmo local. Ele mexe com o conteúdo de um ponto a outro e de tempos em tempos. Até porque, dependendo dos períodos — nos dias frios, por exemplo — o material pode circular bem menos. 

Não dá pra esquecer de mencionar a necessidade da renovação, um movimento que precisa ocorrer com certa frequência. Para isso há sedes associativas ou órgãos administrativos das cidades que podem servir de centro de distribuição desses livros. Sem obras mutantes nessa circulação, a proposta perde a força.

Algumas dessas fotos eu registrei num mesmo dia, coisa de uma hora de carro entre vilarejos vizinhos. Antes de sair de casa, peguei três livros numa prateleira e, quando voltei, tinha quatro novos títulos em minha sacola. A ideia, em geral, é trocar um por outro. Mas, tudo bem, não tem necessidade de tanta precisão assim. Um dia levo dois, no outro devolvo três. E por aí vai. 

Essas pequenas caixas no exterior, verdadeiras bibliotecas-de-livros-livres, estão instaladas geralmente em pontos estratégicos. Umas ficam em parques, que são espaços mais frequentados nos finais de semana. Outras estão próximas aos prédios públicos (como as prefeituras), lugares de maior circulação durante os dias úteis. Outras ainda se situam ao lado de quadras esportivas ou perto de lojas comerciais. Tudo para estar bem à vista da população. 

Sorte de quem tem curiosidade e vê nas prateleiras desse projeto de cooperação a prazerosa liberdade de combinar os verbos abrir, procurar, achar, pegar e ler.

(Escrevi este texto no momento em que o Rio Grande do Sul sofreu e sofre as consequências trágicas das chuvas e inundações. Quando o professor Luís Augusto Fischer, editor da Parêntese, me convidou para contribuir na revista, nada disso estava acontecendo com os gaúchos. Eu tinha outras fotos, outro tema para abordar, mas tudo me pareceu bastante sem sentido. Então fui atrás dos livros, eles sempre me sugerem pertinência. Na pequena escala dessa rede de minibibliotecas que selecionei, enxerguei uma relação com a rede de solidariedade na recuperação do que foi destruído no Sul do Brasil.)

A saber:
Essas caixas de livros nasceram nos Estados Unidos em 2001, inspiradas pelo movimento Book Crossing e pelo coletivo Little Free Library.



Ângelo Chemello Pereira é um brasileiro que vive na França, mestre em literatura. De 2022 a 2024 deu aulas de francês para refugiados em uma associação na região da Normandia.

RELACIONADAS
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHEUM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHEUM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.