Crônica

Milano

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Milano

Depois de passar por Venezia, Verona e Bologna, cidades das quais não falarei, por motivos de estou embasbacada até agora, cheguei a Milano. Não que eu quisesse exatamente vir (pronto, agora vai querer esnobar Milão), mas é assim, era de onde tinha a passagem mais barata pra sair da Itália e ir pro meu próximo destino. É que cada vez que eu via algo sobre Milão, lembrava do início da pandemia e aquele slogan do inferno, “Milano non si ferma”, dizendo que a cidade não ia parar por causa do corona, e uma mortança e depois o prefeito indo dizer na TV que tinha errado. Pra mim, um dos episódios mais tristes dos últimos tempos. Também porque já haviam me dito que era uma São Paulona, quem quer sair do Brasil pra ver algo semelhante a São Paulo? Cheguei azedona mesmo, na TPM ainda por cima, ia conhecer por obrigação e na força do ódio, lamentando cada euro gasto aqui. Mas enfim, como diz um amigo meu, “já que lá tá, que lá teje”.


A Parêntese faz uma pausa no texto da Ana Marson para fazer Publicidade para quem? Para a própria Ana Marson.

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Aqui eles brigam, e muito. É a cidade da Itália em que mais vi italiano gritando e gesticulando. E foi assim, logo de cara, no primeiro passeio, vem uma guria ao telefone, aos gritos, e quando vi ela parar bruscamente e gritar “Non me ne frega un cazzo!”, que significa “não me importa um caralho”, tive certeza que devia ir acompanhando os passos dela, pois se tem algo que me faz perder o sono é não saber uma fofoca completa; alterada como ela tava, eu ia pescar pelo menos 90% da história. E assim foi. Depois vi mais gente gritando ao telefone, muita, muita gente, e tudo DR. E tudo por bobagem. Quase interrompi umas quantas pessoas pra dizer “Sério que vocês estão brigando por ISSO?”. Foi por pouco que não fiz. Os relacionamentos estão abalados, podem procurar no Google daqui a uns dois anos, a taxa de divórcio terá aumentado muito em Milão, vai por mim.

É claro que a cidade é bonita, estamos falando da Itália, mas realmente barulhenta, ostentadora, aquele contraste de uma Galeria Vittorio Emanuele II com mendigos ao pé dela, aquela dureza da riqueza diante da miséria, e as peruas bem loucas cheias de sacola. E eu aqui, sofrendo com minhas personalidades, enquanto sentia dó, pensava que não tinha como ficar dando esmola, 1 dinheiro deles é 6 do meu, aí saía comendo um sorvete com culpa de estar turistando enquanto tinha um ser humano ali precisando do mínimo, aquele pensamento de que a família que teve condições de ter aquela galeria faz a galeria fazer mais dinheiro pra si própria, e aí não sobra pra ninguém, bom, já coloquei vocês no sofrimento também? Deu pra visualizar? Então chega de falar disso.

Modéstia à parte e graças ao meu empenho, me saí muito bem no idioma em todas as cidades da Itália. Fui elogiada por todos com quem conversei, não só por falar bem o italiano como por compreender tudo. No hotel de Bologna, por exemplo, o senhorzinho me disse que só percebeu que eu era estrangeira pelo ritmo da fala, que se eu falasse mais rápido, ele jamais desconfiaria. Que era impressionante o quanto eu sabia usar as palavras corretas, que eu não pensava pra falar, e eu amando tudo isso. Só que não em Milão. Aqui eles viam na hora que eu era estrangeira. E vinham no inglês, eu pedia o italiano, aí sabe o que eles faziam? Falavam na velocidade 5 do créu. Mas assim, eu ouvia o pensamento: “Ah, tu quer italiano, sua straniera? Então toma” – e vinha a metralhadora. Só que eles se foderam, sabe por quê? Porque eu compreendia. E respondia. Ou falava o que queria. Chupa. Será que o Roberto Baggio é de Milão? Lembrei dele, aquele chutão definitivo e a bola fora. Foi assim.

E isso me fez lembrar de Paris. Há semelhanças, o nariz empinado, a peruagem, a cidade famosa, grande, o centro de moda, as grifes (coisa que nunca vou entender)… Só que em Paris eles não te humilham por maldade. Eles te humilham na correção do idioma como se fosse uma terapia, eles te conduzem a te dar conta de que tu jamais vai falar como uma parisiense, porque não és, e tu quase pede desculpa. Em Milão não, eles queriam era ver o circo pegar fogo, digo o pessoal que trabalha em restaurante e tal e já deve tá de saco cheio de turista.

Até que um garçom não se aguentou e me perguntou como eu sabia falar italiano. Disse que estudei. Perguntou quantas vezes tinha vindo pra cá. Falei que era a primeira. E ele: “Mas te bastou estudar no Brasil?”. Eu disse “Sim” e virei pro meu prato de comida na maior indiferença do mundo. Ele pensou um pouco e me deu parabéns. Respondi que o italiano era uma língua muito simples, com aquele ar de “imagina, nem tem que dar parabéns só por isso”.

E meu coração se corroía do pecado que eu tava cometendo, a blasfêmia sobre o idioma mais lindo do mundo, e minha culpa tomava conta, por ter escondido dele que passei toda a infância com minha nonna falando italiano nas minhas orelhas, que ME ACABEI OUVINDO EROS RAMAZZOTTI na adolescência, que me caguei lendo livros em italiano com dicionário do lado uma vida toda, que entrava em chats da internet só pra falar com italianos, e que muitas vezes tive que acionar o Google tradutor nesta viagem pra saber como pedir, por exemplo, GELO! GELO! Eu não sabia como era “gelo” em italiano depois de anos estudando, mas bem, foram eles que começaram. Pra que acelerar desse jeito só porque eu empinei um pouquinhozinho meu nariz de faladora de italiano? Assim como jamais deixei barato paulista falar mal do sotaque gaúcho, não ia ser agora que eu ia abaixar a cabeça, ainda mais pra uma gente que se chama MILANESA, né?

Dito isso, quero contar, agora que não tem nada milanês comigo, uma coisa: a cidade é maravilhosa. Ela tem bonde, de uso cotidiano. Ela tem gente linda, tem comida espetacular. O bonde é de um charme que até eu que não sou da época dele tive nostalgia. Tem ônibus, carro, bicicleta, patinete, mas tu coloca o pé na faixa de segurança e eles param e te acenam com a mão na maior educação pra que tu passe. Milano tem a catedral mais linda que já vi até agora. Hoje a lua nasceu em cima dela, foi uma das visões mais perfeitas que tive até o momento. Tô falando na vida.

Tem artistas de rua talentosíssimos, eles cantam, pintam, dançam, e parece que é pelo simples prazer da alma deles, e é assim que tu acaba te sentindo também, um prazer de alma de estar andando por aqui. E mora gente do mundo todo, é uma cidade agregadora. Sim, aqui finalmente encontrei aquilo que me diziam que acontecia na Itália: homens lindos, do nada, dando aquele grito de “BELLA!” quando passam por ti e virando tudo atrapalhado na bicicleta pra sorrir, repetir, BELLA!, e seguir a vida, parecia um filme, não me senti assediada, me senti uma personagem de comédia romântica, simples assim. Menos o Leonardo da Vinci. Esse não quer me ver nem pintada de ouro. Assim como não consegui chegar à casa natal dele quando tava em Firenze, não consegui ingresso pro museu onde está a Santa Ceia. Era um sonho ver ao vivo o original daqueles tapetes de parede bagaceiros que tem numas casas por aí. Mas enfim.

Aqui entre nós, igual quando eu falo, bem baixinho, às vezes, só pros mais íntimos, que tô com saudade de São Paulo: tô triste de ir embora de Milão, sei que teria muito mais pra conhecer e queria poder fazer isso, eu, que há 2 dias tava putaça de vir pra cá e só procurando os defeitos, como queria mais tempo aqui. Recomendo muitíssimo Milão. Mas não conta pra ninguém, se não, vou ter que apagar esse texto.


Ana Marson nasceu em Porto Alegre, em 1978. Mestre em literatura brasileira pela UFRGS, com dois livros de crônicas publicados, A cobra da laranjeira, crônicas muito azedas (2017) e O ano do cu (2020), lançando o terceiro, Dois anos sem tirar (2022), em breve.

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