Crônica

O gato comeu seu medo?

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O gato comeu seu medo? Julho de 2021. Dois anos e quatro meses depois que o primeiro caso foi detectado no Brasil. Um longo tempo de pandemia, de restrições e de mudança na nossa rotina diária. Logo no começo, nos primeiros três meses, eu só saía para ir ao mercado e à farmácia, como muitos de nós. Lembro que fiquei muito nervosa quando fui ao mercado pela primeira vez, com as faixas de separação, a detecção de temperatura, os dispensers de álcool em gel. Eu queria fazer tudo correndo, meu coração palpitava. Fiquei três meses sem me encontrar com meus pais e só decidi ir vê-los após muita reflexão sobre a possibilidade de acontecer algo a qualquer um de nós e de não termos aproveitado os últimos momentos. Hoje eles estão bem, imunizados, mas foi algo que passou pela minha cabeça, sim, e acredito que na de muitas pessoas. Esse pequeno pensamento, da possibilidade de perder alguém, me dava muita aflição. Quando eu comecei a sair um pouco mais, eu ficava estarrecida com o número de pessoas se expondo. Elas passeavam, faziam compras não urgentes, algumas não usavam máscaras. No início, eu acessava as notícias sobre número de mortes, casos, tretas governamentais, etc., e depois de um tempo eu passei a ler só as manchetes. Achei que precisava preservar o pouco da sanidade mental, principalmente pela forma como o desgoverno vinha conduzindo as questões sanitárias.  Lembro também da primeira vez em que entrei em um restaurante. Quando meu marido cogitou a possibilidade, eu tentei me visualizar dentro de um salão, com muitas pessoas ao redor, mesmo com as distâncias mínimas, sem máscara. Eu achava que não conseguiria, mas topei. Entramos e nos sentamos. Fizemos o pedido e eu ficava olhando em volta, pensando, como que eu vou tirar a máscara? Senti uma angústia e meus olhos marejaram. Afastei alguns pensamentos, respirei fundo, almocei e fomos embora. Depois dessa experiência, as outras idas a restaurantes foram cada vez mais fáceis. Só que isso tudo parece uma outra vida porque eu não sinto mais medo. Isso não é estranho? Eu deveria continuar tendo medo, afinal, só fiz a primeira dose da vacina. Eu já fui a shopping e restaurantes de buffet ou rodízio. Onde foi parar aquele medo todo que eu sentia?  Quando trouxe esse assunto em terapia, minha psicóloga falou sobre a nossa capacidade de adaptação e dos nossos mecanismos de defesa. Trocando em miúdos, se a gente se expõe por tanto tempo a um medo, ele tende a arrefecer. Ela comentou sobre os tratamentos de fobia, por exemplo, que fazem com que o paciente seja exposto gradualmente ao que ele tem medo até que esse medo acaba. A pessoa acaba se acostumando e vendo que nem era assim tão temeroso. Tenho a impressão de que o Brasil foi um grande laboratório de tratamento da fobia a vírus. Metade da população foi forçada a perder o medo pelo tempo de exposição ao perigo. É preciso continuar vivendo, mas viver com tantas restrições por tanto tempo é […]

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Julho de 2021. Dois anos e quatro meses depois que o primeiro caso foi detectado no Brasil. Um longo tempo de pandemia, de restrições e de mudança na nossa rotina diária. Logo no começo, nos primeiros três meses, eu só saía para ir ao mercado e à farmácia, como muitos de nós. Lembro que fiquei muito nervosa quando fui ao mercado pela primeira vez, com as faixas de separação, a detecção de temperatura, os dispensers de álcool em gel. Eu queria fazer tudo correndo, meu coração palpitava. Fiquei três meses sem me encontrar com meus pais e só decidi ir vê-los após muita reflexão sobre a possibilidade de acontecer algo a qualquer um de nós e de não termos aproveitado os últimos momentos. Hoje eles estão bem, imunizados, mas foi algo que passou pela minha cabeça, sim, e acredito que na de muitas pessoas. Esse pequeno pensamento, da possibilidade de perder alguém, me dava muita aflição. Quando eu comecei a sair um pouco mais, eu ficava estarrecida com o número de pessoas se expondo. Elas passeavam, faziam compras não urgentes, algumas não usavam máscaras. No início, eu acessava as notícias sobre número de mortes, casos, tretas governamentais, etc., e depois de um tempo eu passei a ler só as manchetes. Achei que precisava preservar o pouco da sanidade mental, principalmente pela forma como o desgoverno vinha conduzindo as questões sanitárias.  Lembro também da primeira vez em que entrei em um restaurante. Quando meu marido cogitou a possibilidade, eu tentei me visualizar dentro de um salão, com muitas pessoas ao redor, mesmo com as distâncias mínimas, sem máscara. Eu achava que não conseguiria, mas topei. Entramos e nos sentamos. Fizemos o pedido e eu ficava olhando em volta, pensando, como que eu vou tirar a máscara? Senti uma angústia e meus olhos marejaram. Afastei alguns pensamentos, respirei fundo, almocei e fomos embora. Depois dessa experiência, as outras idas a restaurantes foram cada vez mais fáceis. Só que isso tudo parece uma outra vida porque eu não sinto mais medo. Isso não é estranho? Eu deveria continuar tendo medo, afinal, só fiz a primeira dose da vacina. Eu já fui a shopping e restaurantes de buffet ou rodízio. Onde foi parar aquele medo todo que eu sentia?  Quando trouxe esse assunto em terapia, minha psicóloga falou sobre a nossa capacidade de adaptação e dos nossos mecanismos de defesa. Trocando em miúdos, se a gente se expõe por tanto tempo a um medo, ele tende a arrefecer. Ela comentou sobre os tratamentos de fobia, por exemplo, que fazem com que o paciente seja exposto gradualmente ao que ele tem medo até que esse medo acaba. A pessoa acaba se acostumando e vendo que nem era assim tão temeroso. Tenho a impressão de que o Brasil foi um grande laboratório de tratamento da fobia a vírus. Metade da população foi forçada a perder o medo pelo tempo de exposição ao perigo. É preciso continuar vivendo, mas viver com tantas restrições por tanto tempo é […]

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