Crônica

O preço do frango

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O preço do frango Esse ano cada vez que eu entro no Zaffari o café tá dois reais mais caro. Na verdade tudo fica dois reais mais caro. Em agosto eu fiz um teste, passei três semanas sem ir no mercado, só pra ver se a diminuição da frequência mudava a lógica do aumento. Não deu muito certo, da última vez o café tinha aumentado cinco reais. ‘‘O preço do frango tá pela hora da morte!’’ A frase não é minha, mas podia ser. Quem falou foi uma das personagens do grande ator, vítima fatal da covid-19, Paulo Gustavo. Falar do preço das coisas era uma forma da Dona Hermínia dar voz a toda uma classe de donas de casa malabaristas. Vestida de saia e blusa de estampa, bobes no cabelo, maquiagem e unhas pintadas com a mesma graça com que cuidava de sua casa e família, Dona Hermínia era uma versão moderna da famosa Amélia do Ataulpho Alves e do Mario Lago. Uma versão que falava. A pobre da Amélia só abria a boca pra dizer ‘‘Meu filho, o que se há de fazer?’’. Dona Hermínia não, ela falava em alto e estridente tom pra quem quisesse ouvir que não tá dando. A gente entra no mercado e sai sem um rim. A gasolina já ultrapassou o limite de comentários. O aluguel parece que tá sendo renegociado a dólar. Ainda tem o preço da passagem, do gás, do arroz, da cebola, do ovo. Sim, porque este 20 de setembro passado eu não vi uma foto de churrasco circulando na minha rede social. E não era por causa da covid, que em Porto Alegre a pandemia acabou faz tempo, é pelo preço da carne mesmo. A galera se reúne e faz no máximo um choripán que é pra dar uma variada do frango. Até porque o preço em que vai o frango é de chorar. Sem esquecer que eu sou farmacêutica, na fila do proletariado eu tô lá na frente, com conselho de Classe protegendo meu piso salarial. Além disso, sou solteira, não tenho filhos (luxo da escolha), não tenho carro (luxo de andar a pé), nem pet (luxo da solidão). Num mundo onde a gente tem que escolher entre o amaciante ou o feijão, ter um pet é cilada na certa. Primeiro que o bicho come afu, e segundo que pode ficar doente. Pronto. Cilada. E não é que eu não tenha um coração, não, muito pelo contrário. É tanto coração que, por amor ao pet que não tenho, prefiro continuar sem. Assim evito aquele momento que você olha para alguém que ama e só enxerga uma conta pra pagar. Cilada. Eu sei como é estar neste lugar, nasci em 90, no ápice da crise. Meu pai não foi pastor por vocação, era necessidade. Quando a gente tem fome, a coerência de nossos atos acontece em outra dimensão, faz parte da esfera das urgências. E todo mundo aprendeu ano passado o que é um plano de contingência. O negócio é que a gente […]

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Esse ano cada vez que eu entro no Zaffari o café tá dois reais mais caro. Na verdade tudo fica dois reais mais caro. Em agosto eu fiz um teste, passei três semanas sem ir no mercado, só pra ver se a diminuição da frequência mudava a lógica do aumento. Não deu muito certo, da última vez o café tinha aumentado cinco reais. ‘‘O preço do frango tá pela hora da morte!’’ A frase não é minha, mas podia ser. Quem falou foi uma das personagens do grande ator, vítima fatal da covid-19, Paulo Gustavo. Falar do preço das coisas era uma forma da Dona Hermínia dar voz a toda uma classe de donas de casa malabaristas. Vestida de saia e blusa de estampa, bobes no cabelo, maquiagem e unhas pintadas com a mesma graça com que cuidava de sua casa e família, Dona Hermínia era uma versão moderna da famosa Amélia do Ataulpho Alves e do Mario Lago. Uma versão que falava. A pobre da Amélia só abria a boca pra dizer ‘‘Meu filho, o que se há de fazer?’’. Dona Hermínia não, ela falava em alto e estridente tom pra quem quisesse ouvir que não tá dando. A gente entra no mercado e sai sem um rim. A gasolina já ultrapassou o limite de comentários. O aluguel parece que tá sendo renegociado a dólar. Ainda tem o preço da passagem, do gás, do arroz, da cebola, do ovo. Sim, porque este 20 de setembro passado eu não vi uma foto de churrasco circulando na minha rede social. E não era por causa da covid, que em Porto Alegre a pandemia acabou faz tempo, é pelo preço da carne mesmo. A galera se reúne e faz no máximo um choripán que é pra dar uma variada do frango. Até porque o preço em que vai o frango é de chorar. Sem esquecer que eu sou farmacêutica, na fila do proletariado eu tô lá na frente, com conselho de Classe protegendo meu piso salarial. Além disso, sou solteira, não tenho filhos (luxo da escolha), não tenho carro (luxo de andar a pé), nem pet (luxo da solidão). Num mundo onde a gente tem que escolher entre o amaciante ou o feijão, ter um pet é cilada na certa. Primeiro que o bicho come afu, e segundo que pode ficar doente. Pronto. Cilada. E não é que eu não tenha um coração, não, muito pelo contrário. É tanto coração que, por amor ao pet que não tenho, prefiro continuar sem. Assim evito aquele momento que você olha para alguém que ama e só enxerga uma conta pra pagar. Cilada. Eu sei como é estar neste lugar, nasci em 90, no ápice da crise. Meu pai não foi pastor por vocação, era necessidade. Quando a gente tem fome, a coerência de nossos atos acontece em outra dimensão, faz parte da esfera das urgências. E todo mundo aprendeu ano passado o que é um plano de contingência. O negócio é que a gente […]

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