Crônica

Paris

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Paris

Parecia que este dia nunca ia chegar, o meu direito de sofrer em Paris, como se diz por aí. Mas chegou. Eu já tinha sido avisada, ao longo dos anos, por gente que já havia conhecido a cidade, que os franceses são meio xaropes com a língua, que não se esforçam no inglês, que não gostam de quem não fala francês, essas coisas. Aí eu me preparei. Sim, porque parece que sou boazinha, mas se tu reparar bem vai descobrir que eu sou, na verdade, uma manipuladora profissional, e pelo vitimismo, o que, descobri na chegada a Paris, funciona aqui com eles, viu? #ficaadica

Era pra chegar no tal aeroporto Orly. Olhei no mapa, era como chegar em São Leopoldo e ter que ir a Porto Alegre. De modo que, é óbvio, eu não quis pedir informação, eu ia saber fazer tudo sozinha. E fiz, achei o trem, cheguei ao meu hotel sem me dirigir a nenhuma pessoa. Sim, porque imagina tu lá em São Leopoldo perguntar numa língua estrangeira pra uma gente de má vontade onde fica a rua X de Porto Alegre. Não. Levei horas, não é força de expressão, mas me achei. Não foi culpa do aeroporto, foi culpa do meu cérebro, que não se concentrava no mapa nem nas placas, porque não saía da minha cabeça “non, rien de rien” cada vez que caía minha ficha de que estava em Paris. Era só ver o “bienvenue” cada vez que eu fechava um círculo completo sem chegar a lugar algum que vinha a música. Me atrasou um pouco.

Aí começou minha manipulação. Eu já tinha tudo treinado, tudinho, uma perfeita sociopata conquistadora. Entrei no hotel, o senhor me disse bonjour, eu disse o mesmo, e já mandei um “Je suis Ana Marson”. Aí ele disse “ah, uí, je que ques que”, e eu, em inglês: “Me desculpa, eu não falo francês. E me sinto muito envergonhada por isso, pois detesto inglês, eu não quero falar essa língua, eu quero falar francês, pode me ajudar?” Pronto. Esse velhinho ouviu tudo que ele queria. Aí me disse que estava me esperando, na verdade dois hóspedes, eu era uma, mas era um prazer conhecer alguém do Brasil, aí ele falava uma frase em inglês e a mesma frase em francês, que eu contasse com ele, que eu ia aprender francês sim, e assim tem sido desde que cheguei. Desço pro café, ele fala inglês e depois francês. Vou sair, a mesma coisa. Chego de volta, e lá vamos nós. Eu tive que dizer em francês como tinha sido meu dia anterior, ele me faz repetir as frases em francês, me corrigindo. Eu repito, no automático, depois esqueço, mas isso ele não precisa saber. 

[Continua...]

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