Crônica

Pereba Eterno

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Pereba Eterno

Quando cheguei, meu primo Jorge Rodrigo Falero Cordeiro, o Pereba, já estava aqui, caçando um jeito de burlar a depressão que se abate sobre os da nossa estirpe. É inútil, portanto, que eu tente me recordar do mundo sem ele. Desenterrando as memórias mais antigas, o máximo que consigo é evocar um certo barraco amarelo que ficava bem ao lado do meu, lá no finalzinho dos anos oitenta. Um barraco de pau, como o meu. Minúsculo, como o meu. E mesmo nessa lembrança embaçada, quase indistinguível de mera imaginação, mesmo nela já posso encontrar o Pereba, mãos às costas, observando com atenção a fritada das famosas rosquinhas da tia Ângela, sua mãe, até que o óleo quente salpique em seu rosto.

Eis aí uma das poucas vezes em que vi o Pereba chorar. Não que lhe tenham faltado motivos para o pranto ao longo da vida — acho que isso não falta a quase ninguém —, mas quem o conheceu de perto sabe muito bem que, apesar dos pesares, ele sempre preferiu exercitar a alegria, decerto orgulhoso das covinhas que o sorriso lhe ocasionava nas faces. Impossível imaginá-lo sem aquelas covinhas. Era ostentando-as que ele enfrentava o mundo. Era sem conseguir disfarçá-las que se fingia de zangado e corria atrás de mim e dos outros mais novos quando o chamávamos pelo recém-inventado apelido de Pereba. E foi também com elas que, anos mais tarde, já morando do outro lado da rua, me ofereceu permissão vitalícia para jogar à vontade em seu Mega Drive 3, desde que eu não contasse à tia Ângela que o tinha flagrado fumando escondido.

Mais ou menos por aquela altura, meu pai, minha mãe, minha irmã e eu nos mudamos para a insuportável Cidade Baixa, de modo que não me foi possível acompanhar os desdobramentos que levaram o Pereba a fortalecer os laços de amizade com o outro Rodrigo da vila, o Bomba. Certo é que a parceria rendeu não apenas os mais rápidos carrinhos de lomba de que se tinha notícia, mas também uma porção de boas histórias, contadas às gargalhadas até hoje nas rodas de malandros da antiga. De minha parte, quando voltei a morar na vila com minha mãe, o que pude testemunhar foi uma outra fase do Pereba. Se antes o primo andara unha e carne com o Bomba, agora integrava de modo igualmente inseparável um quinteto que entraria para os anais da Lomba do Pinheiro: ele, o Badaga, o Carioca, a Zá e a Chã. Era a época de ouro dos bailes da Lomba, e pode-se afirmar com segurança que ninguém poderia tê-la aproveitado melhor do que os cinco aproveitaram, especialmente o Pereba, cujas covinhas passaram de frequentes a quase permanentes durante aquele período.

[Continua...]

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Quando cheguei, meu primo Jorge Rodrigo Falero Cordeiro, o Pereba, já estava aqui, caçando um jeito de burlar a depressão que se abate sobre os da nossa estirpe. É inútil, portanto, que eu tente me recordar do mundo sem ele. Desenterrando as memórias mais antigas, o máximo que consigo é evocar um certo barraco amarelo que ficava bem ao lado do meu, lá no finalzinho dos anos oitenta. Um barraco de pau, como o meu. Minúsculo, como o meu. E mesmo nessa lembrança embaçada, quase indistinguível de mera imaginação, mesmo nela já posso encontrar o Pereba, mãos às costas, observando com atenção a fritada das famosas rosquinhas da tia Ângela, sua mãe, até que o óleo quente salpique em seu rosto.

Eis aí uma das poucas vezes em que vi o Pereba chorar. Não que lhe tenham faltado motivos para o pranto ao longo da vida — acho que isso não falta a quase ninguém —, mas quem o conheceu de perto sabe muito bem que, apesar dos pesares, ele sempre preferiu exercitar a alegria, decerto orgulhoso das covinhas que o sorriso lhe ocasionava nas faces. Impossível imaginá-lo sem aquelas covinhas. Era ostentando-as que ele enfrentava o mundo. Era sem conseguir disfarçá-las que se fingia de zangado e corria atrás de mim e dos outros mais novos quando o chamávamos pelo recém-inventado apelido de Pereba. E foi também com elas que, anos mais tarde, já morando do outro lado da rua, me ofereceu permissão vitalícia para jogar à vontade em seu Mega Drive 3, desde que eu não contasse à tia Ângela que o tinha flagrado fumando escondido.

Mais ou menos por aquela altura, meu pai, minha mãe, minha irmã e eu nos mudamos para a insuportável Cidade Baixa, de modo que não me foi possível acompanhar os desdobramentos que levaram o Pereba a fortalecer os laços de amizade com o outro Rodrigo da vila, o Bomba. Certo é que a parceria rendeu não apenas os mais rápidos carrinhos de lomba de que se tinha notícia, mas também uma porção de boas histórias, contadas às gargalhadas até hoje nas rodas de malandros da antiga. De minha parte, quando voltei a morar na vila com minha mãe, o que pude testemunhar foi uma outra fase do Pereba. Se antes o primo andara unha e carne com o Bomba, agora integrava de modo igualmente inseparável um quinteto que entraria para os anais da Lomba do Pinheiro: ele, o Badaga, o Carioca, a Zá e a Chã. Era a época de ouro dos bailes da Lomba, e pode-se afirmar com segurança que ninguém poderia tê-la aproveitado melhor do que os cinco aproveitaram, especialmente o Pereba, cujas covinhas passaram de frequentes a quase permanentes durante aquele período.

No entanto, não se confunda com resignação ou alienação a tendência ao riso do primo. O Pereba era justamente o oposto de resignado e alienado. A amargura que o atormentou nos anos seguintes provinha, não tenho dúvida alguma, da insatisfação, da falta de perspectiva, da consciência de que merecemos muito mais do que está ao nosso alcance neste país de merda, do grau exemplar em que abominava as injustiças praticadas contra nós todos os dias em todas as esferas sociais. Apaixonado por RAP, foi ouvindo RZO, Facção Central e Racionais que ele desenvolveu consciência de classe e de raça para, depois, em nossas jogatinas de canastra que varavam as madrugadas, travar comigo longas conversas, vindo a ser, assim, o primeiro a me fazer pensar sobre esses assuntos.

E, agora, algo aconteceu com o Pereba. Algo aconteceu. A existência dele mudou de aspecto. Não sei se é correto chamar isso de “morte”. Afinal, da mesma forma que não consigo recordar do mundo sem o primo, também não posso imaginá-lo sem ele daqui por diante. O Pereba está presente na própria forma como vejo o mundo, uma vez que contribuiu grandemente para que eu pudesse ver o mundo como vejo. O Pereba vive. Vive não só em mim, mas em todo aquele que riu com ele, que bebeu com ele, que jogou canastra com ele, que problematizou a sociedade com ele.

Fica na paz, sangue bom. E deixa eu te brindar com aquele verso que eu tô ligado que tu curte horrores:

Porque o guerreiro de fé nunca gela

Não agrada o injusto e não amarela

O Rei dos reis foi traído e sangrou nesta terra

Mas morrer como um homem é o prêmio da guerra

Mas, ó, conforme for, se precisar afogar no próprio sangue, assim será

Nosso espírito é imortal, sangue do meu sangue

Entre o corte da espada e o perfume da rosa

Sem menção honrosa, sem massagem

A vida é loka, nego

Tamo aqui de passagem


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza.

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