Crônica | José Falero

Perseguição

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Perseguição Antes de mais nada, preciso explicar que tive essa infância meio dividida: parte no Pinheiro, parte na Cidade Baixa. Aconteceu que, em algum momento desse turbilhão louco que é a vida, meu finado pai foi assumir o cargo de zelador do edifício Francisco Lambert, onde até então trabalhava como porteiro. Sei o endereço de cor até hoje: Rua Lima e Silva, 130. Era o mesmo prédio onde morou o jogador de futebol Arílson durante o período que atuou pelo Grêmio, o que naturalmente não tem importância nenhuma. O novo emprego exigia a presença constante do meu pai no edifício, e por isso fomos nós quatro morar lá: ele, minha mãe, minha irmã e eu. Habitamos o número 135 do décimo terceiro andar, que era o apartamento reservado ao zelador e sua família. Só tinha esse apartamento naquele andar, além, é claro, do terraço, onde os moradores às vezes iam tomar chimarrão ou olhar o Guaíba. Uma noite, já bem tarde, interfonaram lá pra casa. Este, inclusive, é um detalhe que meu pai percebeu tarde demais naquele emprego, não sei se com desgosto, mas acredito que sim: a moradia lá no prédio não era pra facilitar a vida dele, não era pra livrar ele de atravessar a cidade duas vezes todos os dias em ônibus precários lotados de outros trabalhadores, mas sim pra garantir que ele estivesse à disposição dos condôminos 24 horas por dia, quando precisassem de algo. Qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Lembro que meu pai tinha atribuições fixas, como recolher o lixo em todos os apartamentos, por exemplo, mas de vez em quando alguém tinha a cara de pau de interfonar pra pedir que ele fosse trocar um chuveiro ou fazer algo desse tipo em algum apartamento. Interfonaram, então, tarde da noite. O meu pai costumava morder a língua no canto da boca, quando zangado, e era sempre assim que ele atendia o interfone, especialmente as ligações muito fora do horário de trabalho formalizado no contrato. — Alô! Depois que alguém explicou a situação do outro lado da linha, meu pai pareceu ficar meio apressado, com ares de urgência: — Tá bom, tá bom, eu vou ver isso agora! Desligou o interfone, jogou o chambre por cima do pijama, abriu a porta do apartamento e saiu correndo. Na verdade, pra ser sincero, eu não vi nada disso. Absolutamente nada. Tô apenas imaginando que tenha sido mais ou menos assim. O que eu sei é que a minha mãe ficou preocupada. Algo ruim parecia ter acontecido, algo que fez o meu pai sair do apartamento daquele jeito, e era razoável imaginar alguma possibilidade de perigo. Assim, minha mãe também saiu porta afora, chamando pelo meu pai, e minha irmã e eu fomos juntos, nos calcanhares dela. Aqui, minha memória começa a ficar mais confiável: lembro, sim, da gente saindo do apartamento, e lembro, também, que não foi difícil concluir mais ou menos o que tava acontecendo. A porta do terraço tinha sido deixada aberta, como se tivessem saído dali […]

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Antes de mais nada, preciso explicar que tive essa infância meio dividida: parte no Pinheiro, parte na Cidade Baixa. Aconteceu que, em algum momento desse turbilhão louco que é a vida, meu finado pai foi assumir o cargo de zelador do edifício Francisco Lambert, onde até então trabalhava como porteiro. Sei o endereço de cor até hoje: Rua Lima e Silva, 130. Era o mesmo prédio onde morou o jogador de futebol Arílson durante o período que atuou pelo Grêmio, o que naturalmente não tem importância nenhuma. O novo emprego exigia a presença constante do meu pai no edifício, e por isso fomos nós quatro morar lá: ele, minha mãe, minha irmã e eu. Habitamos o número 135 do décimo terceiro andar, que era o apartamento reservado ao zelador e sua família. Só tinha esse apartamento naquele andar, além, é claro, do terraço, onde os moradores às vezes iam tomar chimarrão ou olhar o Guaíba. Uma noite, já bem tarde, interfonaram lá pra casa. Este, inclusive, é um detalhe que meu pai percebeu tarde demais naquele emprego, não sei se com desgosto, mas acredito que sim: a moradia lá no prédio não era pra facilitar a vida dele, não era pra livrar ele de atravessar a cidade duas vezes todos os dias em ônibus precários lotados de outros trabalhadores, mas sim pra garantir que ele estivesse à disposição dos condôminos 24 horas por dia, quando precisassem de algo. Qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Lembro que meu pai tinha atribuições fixas, como recolher o lixo em todos os apartamentos, por exemplo, mas de vez em quando alguém tinha a cara de pau de interfonar pra pedir que ele fosse trocar um chuveiro ou fazer algo desse tipo em algum apartamento. Interfonaram, então, tarde da noite. O meu pai costumava morder a língua no canto da boca, quando zangado, e era sempre assim que ele atendia o interfone, especialmente as ligações muito fora do horário de trabalho formalizado no contrato. — Alô! Depois que alguém explicou a situação do outro lado da linha, meu pai pareceu ficar meio apressado, com ares de urgência: — Tá bom, tá bom, eu vou ver isso agora! Desligou o interfone, jogou o chambre por cima do pijama, abriu a porta do apartamento e saiu correndo. Na verdade, pra ser sincero, eu não vi nada disso. Absolutamente nada. Tô apenas imaginando que tenha sido mais ou menos assim. O que eu sei é que a minha mãe ficou preocupada. Algo ruim parecia ter acontecido, algo que fez o meu pai sair do apartamento daquele jeito, e era razoável imaginar alguma possibilidade de perigo. Assim, minha mãe também saiu porta afora, chamando pelo meu pai, e minha irmã e eu fomos juntos, nos calcanhares dela. Aqui, minha memória começa a ficar mais confiável: lembro, sim, da gente saindo do apartamento, e lembro, também, que não foi difícil concluir mais ou menos o que tava acontecendo. A porta do terraço tinha sido deixada aberta, como se tivessem saído dali […]

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