Crônica

Positivo

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Positivo

Negativei. Duas vezes. Isso mesmo, tive que fazer o teste com aquele maldito cotonete no nariz dois dias depois de enfrentar meus medos negacionistas no exame de sangue. Por quê? Oras, por quê? Simples. A escolha do teste estava errada. O exame sorológico só faz sentido se no mínimo dez dias após a exposição suspeita. Tínhamos apenas quatro. E quando o serviço privado erra e teus colegas de trabalho começam a cair como peças de dominó, o que você faz? Isso mesmo, recorremos ao SUS.

Sexta-feira à tarde, dois dias depois de ter recebido meu resultado negativo para IgG e IgM contra COVID-19, assim como toda a equipe, o diagnóstico de um colega explode ao meu lado como uma bomba. Em meio aos escombros e meus nervos abalados eu ligo no 156. O portal de informações sobre o novo coronavírus da Prefeitura de Porto Alegre é intuitivo e eficiente, menos de três minutos eu já estou com as orientações completas. Cada cidadão deve procurar seu posto de saúde de referência. Fui até o Santa Marta.

Lá o vazio e o silêncio reinavam. Lembrei que era sexta-feira à tarde. Ah! Já devem estar de fim de semana, pensei. Será que vão me atender? Me apresentei, a recepcionista pediu para eu esperar, como toda recepcionista. Algumas cadeiras com faixa isolante indicavam como guardar o distanciamento físico naquele local. Preferi ficar de pé. Alguns minutos eternos e a dúvida crescendo dentro de mim junto com a sensação de estar extremamente suja. Como eu poderia continuar trabalhando sem saber se eu era também uma bomba-relógio?

Dali a pouco um médico me chama. Nathallia Vilela? Ai, segunda vez na mesma semana, aquilo não podia ser um bom sinal. Entrei, sem encostar em nada, abraçando minha bolsa de fazer feira onde se encontrava um jaleco usado, com certeza contaminado, uma carteira, um pedaço de papel, um celular sem bateria, uma caneta, o crachá do trabalho e as chaves. Àquela altura o vírus já devia ter pulado do jaleco e infectado tudo, devia tá devorando o metal gasto da chave de casa, o celular então! Nunca mais álcool nenhum daria jeito. Eu encontrava-me sem esperanças quando vi dois olhos sorrindo pra mim e me dizendo “Pode sentar”.

Desisti. Sentei na cadeira de plástico desconfortável e comecei a contar todo o meu drama. Eu não queria, mas sou uma péssima paciente. Não sei que horas uma enfermeira-assistente veio medir minha temperatura e me deu um lenço pras lágrimas que molhavam minhas máscaras. Sim. As duas que estava usando pra proteger o mundo do vetor que com certeza eu tinha virado. Os dois gastaram tanta energia para me acalmar quanto para fazer a notificação. Ainda bem que eles eram ótimos funcionários, o caso foi reportado nos pormenores. Aquilo me tranquilizou. O DATASUS está sendo alimentado com informações produzidas por profissionais altamente competentes.

Saí de lá uns quinze quilos mais leve com a requisição do exame PCR-nasofaríngeo, que foi realizado no mesmo dia. Enquanto esperava o resultado em casa a miséria de reflexão voltou. Será que é melhor dar positivo e ser uma assintomática ou será melhor dar negativo e não ter sido vetor? Eu tinha certeza que ia dar positivo, pela proximidade com que eu trabalhava para com as pessoas que apareciam com diagnóstico. Mas ainda esperava o milagre do negativo. Só assim para manter a fé. A fé nas máscaras. A fé no álcool gel. A fé numa possível sobrevivência. A fé que uma hora dessas tudo vai acabar bem.

Sabe quando alguém tá te contando uma história trágica e parece fazer questão de enfatizar os pontos negativos só pra te dar uma sensação de náusea? Ou quando um desconhecido aparece no grupinho onde você está durante uma festa que tem vários amigos de amigos e traz detalhes inúteis sobre a história de outra pessoa só para deixar bem claro o quão íntimo era ele? Eu queria fazer isso ao contrário. Porque depois de dias o meu resultado negativo veio recuperar minha fé nas práticas da rotina 2020, quase com a mesma eficiência que o SUS vive recuperando minha fé no serviço público. Sentiu?   


Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou “Aqui dentro” pela editora Venas Abiertas. Disponível em pré-venda pelo Instagram da própria autora: @nathalliaprotazio.escritora

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