Crônica, José Falero

Sweet Child O’ Mine: primeira parte

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Sweet Child O’ Mine: primeira parte

Achei estranho quando a minha irmã veio me contar sobre a oficina de música que passaria a ser ministrada no falecido Centro Cultura da Lomba do Pinheiro. Diferentemente de hoje em dia, naquela época ela não tinha o hábito de me participar de coisa nenhuma, muito menos de trazer tantos detalhes a uma conversa. “Blá-blá-blá, porque o Lula é presidente, blá-blá-blá, porque o PT tá na prefeitura também, blá-blá-blá, porque a descentralização da cultura, blá-blá-blá, porque uma oficina de música aqui no nosso bairro, blá-blá-blá, porque imagina que legal.”

Respondi de acordo com as capacidades do tipo de adolescente que eu era:

— E eu com isso?

[Continua...]

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Achei estranho quando a minha irmã veio me contar sobre a oficina de música que passaria a ser ministrada no falecido Centro Cultura da Lomba do Pinheiro. Diferentemente de hoje em dia, naquela época ela não tinha o hábito de me participar de coisa nenhuma, muito menos de trazer tantos detalhes a uma conversa. “Blá-blá-blá, porque o Lula é presidente, blá-blá-blá, porque o PT tá na prefeitura também, blá-blá-blá, porque a descentralização da cultura, blá-blá-blá, porque uma oficina de música aqui no nosso bairro, blá-blá-blá, porque imagina que legal.”

Respondi de acordo com as capacidades do tipo de adolescente que eu era:

— E eu com isso?

— É que eu quero fazer essa oficina, mas não queria ir sozinha — ela desembuchou afinal. — Tu vai comigo?

Com severos problemas de autoestima na bagagem, suspeitando de que não havia muito o que fazer neste mundo além de empurrar a existência com a barriga, eu me encontrava, então, em progressiva antissocialidade. Esse processo, inclusive, culminaria em cerca de dois anos de reclusão absoluta (e, acredite se quiser, voluntária) dentro da minha própria casa, dali a algum tempo. Já à época do convite, porém, eu tinha desenvolvido fobia aguda a ambientes com mais de três ou quatro pessoas, e me considerava incapaz de interagir com desconhecidos; verdade seja dita, mesmo manter os laços e o convívio com os amigos de sempre e com os parentes já era uma dura batalha, que eu vinha travando secretamente todo santo dia desde sabia-se lá quando. Não seria fácil para a minha irmã, portanto, convencer-me a fazer a oficina com ela. Na verdade, seria impossível. Não havia nada que ela pudesse dizer que me convencesse a acompanhá-la. Nada.

Agora tomemos impulso e saltemos para a noite de terça-feira da semana seguinte, quando começou a bendita oficina. Lá estava eu com a minha irmã, evidentemente. Contrariado — faço questão de registrar —, mas lá estava eu com ela. Com ela e mais meia dúzia de gatos pingados, cada qual vindo de uma região do bairro continental que é a Lomba do Pinheiro. O professor não parecia muito preocupado em causar uma boa primeira impressão, de modo que se atrasou bastante. Quando chegou, já estávamos cansados de aguardá-lo naquele terreno enorme e mal iluminado do centro cultural, cujo capim erguia-se atrevido quase até a altura da cintura. Nunca vou me esquecer: sob as estrelas, no bucho da noite escura, ele desceu do Ford Escort olhando ao redor com incredulidade e assombro, como se não fizesse a menor ideia de como tinha ido parar ali, como se tivesse sido teletransportado involuntariamente da sala de casa direto para aquele lugar.

— Olha, eu moro em Porto Alegre desde que eu nasci, e nunca tinha ouvido falar neste bairro, bicho — foi a primeira coisa que ele disse (e juro que falou mesmo “bicho”). — Morro do Pinheiro… Quem diria?

— É Lomba do Pinheiro — alguém corrigiu.

Chamava-se Fausto e tinha vindo do Bom Fim. Como agravante, gostava de bossa nova.

Àquela altura, eu já estava aprendendo a tocar cavaquinho nas rodas de samba do Julinho. Rodas de samba, essas, que os próprios alunos promoviam, à revelia da escola, e que inclusive competiam com os conteúdos ministrados pelos professores em sala de aula. Na verdade, a oportunidade de aprender a tocar cavaquinho era a única razão pela qual eu continuava frequentando aquele colégio: como um monte de gente levava seus instrumentos para as rodas de samba de lá, não era raro sobrarem cavaquinhos em desuso pela volta, e eu, que não tinha instrumento próprio, aproveitava e pegava um deles para praticar, mendigando dicas aqui e ali, me aconselhando com quem já tocava.

Era esse aprendiz de cavaquinista sem cavaquinho próprio que tinha sido arrastado para aquela oficina de música pela irmã. Era esse aprendiz de cavaquinista que tinha nutrido a esperança de que pelo menos fosse possível praticar com cavaquinho alheio naquela oficina, a exemplo do que acontecia no Julinho, já que era um projeto bancado com dinheiro público e portanto devia inclusive oferecer instrumentos emprestados para quem não tivesse, ainda que fossem para ser usados apenas durante os dois encontros semanais de três horas cada um. Era esse aprendiz que quebrava a cara. Era esse aprendiz que percebia que não haveria instrumentos emprestados, nem mesmo um chocalhinho. Era esse aprendiz que amargava a compreensão de que a oficina consistia única e exclusivamente na presença daquele professor despenteado vindo do Bom Fim com bossa nova na ponta da língua e violão debaixo do braço.

“Que bosta”, eu pensei.

Leia aqui as outras partes da série.


José Carlos da Silva Junior nasceu e vive na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Adotou o pseudônimo “José Falero” em homenagem à mãe, de quem herdou a veia artística, mas não o sobrenome. É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e participante das antologias À margem da sanidade (J. Vellucy, 2018) e Ancestralidades: Escritores Negros (Venas Abiertas, 2019). Trabalha como auxiliar de gesseiro para não morrer de fome, e toca cavaquinho para não morrer de tristeza. 

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