Crônica, José Falero

Sweet Child O’ Mine: terceira parte

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Sweet Child O’ Mine: terceira parte

Corro a esclarecer que o tom de suspense com que encerrei o texto na semana passada não foi proposital. Quando falei sobre a minha emoção ao ser elogiado pelo Fausto, bem, eu estava apenas  falando sobre a minha emoção ao ser elogiado pelo Fausto; não era a minha intenção dar a entender que aquele sentimento talvez fosse o prenúncio de uma reviravolta. Não era. Assim sendo, peço mil perdões caso o leitor tenha passado sete dias nutrindo a esperança de, nesta terceira parte da crônica, ver-me arrebentando no Teatro de Câmara Túlio Piva ao lado dos meus colegas de oficina. Eu realmente não fui tocar na apresentação.

Pelo menos não naquela.

[Continua...]

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Corro a esclarecer que o tom de suspense com que encerrei o texto na semana passada não foi proposital. Quando falei sobre a minha emoção ao ser elogiado pelo Fausto, bem, eu estava apenas  falando sobre a minha emoção ao ser elogiado pelo Fausto; não era a minha intenção dar a entender que aquele sentimento talvez fosse o prenúncio de uma reviravolta. Não era. Assim sendo, peço mil perdões caso o leitor tenha passado sete dias nutrindo a esperança de, nesta terceira parte da crônica, ver-me arrebentando no Teatro de Câmara Túlio Piva ao lado dos meus colegas de oficina. Eu realmente não fui tocar na apresentação.

Pelo menos não naquela.

(Agora o tom de suspense é proposital.)

Mas, antes de prosseguir, quero refletir ligeiramente sobre a eterna presença do samba ao redor da minha existência.

Uma das memórias mais antigas que tenho de mim mesmo chorando, se não a mais antiga, é de uma noite em que me senti abandonado, porque o meu pai e a minha mãe tinham ido ao Samba Sul: festival de samba e pagode promovido pela rádio Princesa de 1985 a 1996 que trazia atrações de todo o país e costumava lotar o Gigantinho. E uma das memórias mais antigas que tenho de outrem chorando, se não a mais antiga, também passa pelo Samba Sul: mangueirense fanática, minha vó tinha ido ao evento prestigiar a apresentação do Jamelão, com quem conseguiu até trocar breves e emocionadas palavras depois do show, no camarim; meses mais tarde, presenciei o seu choro ao abrir uma singela correspondência: era um cartão postal do Rio de Janeiro autografado por ninguém mais, ninguém menos que o próprio Jamelão!

Depois dessa época, minha infância seguiu a desenrolar-se por entre os sambas que o meu pai punha para tocar no rádio e as histórias que a minha mãe contava de quando tinha sido Rainha da Unidos de São Francisco no carnaval de Pelotas. Ainda pequeno, assisti aos desfiles das escolas de samba de Porto Alegre na avenida Augusto de Carvalho; testemunhei toda a potência daquele espetáculo majoritariamente negro, frequentado majoritariamente por pessoas negras, protagonizado majoritariamente por pessoas negras; vi-o tornar o centro da capital gaúcha menos triste, menos entojado, menos branco. Em seguida, já no princípio da minha adolescência, empolguei-me com um evento que, naquela época de samba fortalecido em Porto Alegre, não chegou a causar tanto espanto, mas que seria absolutamente impensável nos dias de hoje: Leci Brandão na quadra da Mocidade Independente da Lomba do Pinheiro! Acabei não indo ao show, porque na mesma noite saía da Rua Guaíba uma excursão para Cidreira, na qual eu e toda a minha família já tínhamos marcado presença. E adivinha só o que aconteceu, lá em Cidreira? Isso mesmo: samba. O litoral gaúcho daquele tempo era um amontoado de gente fazendo pagode para tudo que é lado, dia e noite, noite e dia.

Tudo isso para dizer que não era à-toa o meu fascínio pelas rodas de samba do Julinho, assim como não era sem razão todo o amor e toda a dedicação que eu dispensava ao aprendizado do cavaquinho, o qual intensificou-se e desenvolveu-se ao longo de todo aquele ano na oficina de música ministrada pelo Fausto. O que eu não podia imaginar (e acredito que naquele momento ninguém pudesse), era que desfrutávamos dos últimos momentos de uma época que deixaria saudade. Salvo engano, já no ano seguinte não haveria mais os desfiles das escolas de samba no centro de Porto Alegre, porque o racismo, e não outra coisa, os empurraria para as bordas da cidade, como já tinha sido feito no passado com a população negra da Ilhota. E, coincidência ou não, a partir daquele momento as rodas de samba até então abundantes por toda a capital gaúcha começariam a minguar até praticamente desaparecerem.

Mas, conforme dei a entender com o tom de suspense proposital do início deste texto, se por um lado não participei da apresentação no Túlio Piva em novembro, por outro tive a oportunidade de fazer a minha estreia em dezembro. Foi na entrada da Vilinha, debaixo da figueira, na frente da casa da vó do Gabuh, onde acontecia uma das tantas rodas de samba tradicionais da minha vizinhança que logo, logo viriam a desaparecer. Na verdade, fui lá só para beber e ouvir o pessoal tocando, mas alguém me denunciou:

— Passa o cavaquinho pra ele, que ele sabe alguma coisa!

Eu tinha uma resposta na ponta da língua: “sei porra nenhuma!”. Mas pensei melhor, e não demorei a concluir que aquele era o ensejo perfeito para tocar em público pela primeira vez na vida: estava todo o mundo bêbado, e provavelmente ninguém ia perceber ou dar importância se eu tocasse mal.

Não só peguei o cavaco, como toquei o samba mais difícil que eu tinha aprendido a tocar até aquele momento: Doce Refúgio. E a imagem daquele povo sorridente, que tocou comigo naquela minha primeira vez, que cantou comigo naquela minha primeira vez, que bateu na palma da mão comigo naquela minha primeira vez, a imagem daquele povo é eterna na minha memória, e brilha com força sempre inédita no meu coração, toda vez que eu pego um cavaquinho para tocar.

Leia aqui as outras partes da série.


José Falero é escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas, 2019) e Os Supridores (Todavia, 2020).

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