Crônica

Todo dia ela faz tudo sempre igual

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Todo dia ela faz tudo sempre igual

Assim tem sido meus dias há quase dois anos, tudo sempre igual. Tudo bem, sou exagerado por natureza, mas isso não muda o fato da gente viver um ciclo interminável de bestialidade. Às vezes me vejo num filme B de terror mal escrito, mal dirigido e mal interpretado. Atores, bicões, uma equipe que está só pelo fim da diária e sem direção.

Por sorte, uma das minhas maiores virtudes é a paciência, mas, como bom geminiano, meu maior defeito é a ansiedade. Sendo assim, durante o meu inferno astral, quase surto de dez em dez minutos. Me transformo em uma bomba-relógio dentro de um circo lotado esperando o show dos palhaços enquanto aguardo na fila quem amo sair do banheiro, mas ela nunca sai. Imaginou agora o tamanho da minha agonia nesse período?

Não bastasse meu inferno astral, ainda dou atenção a pessoas que, volta e meia, me questionam se o que escrevo é verdade. Ora, a verdade não é absoluta, né. Não sou escrivão de polícia ou jornalista pra escrever verdades. Sou um escritor, ficcionista e um contador de histórias. 

Fora tudo isso, nossa realidade é tão cruel e desgastante que às vezes o que me sobra é contar histórias que vivi ou imaginei durante um delírio provocado por substâncias ilegais, mas que me fazem sorrir, chorar ou, quem sabe, até refletir sobre algum assunto. Agora, se é verdade ou não, não cabe a mim decidir, deixo esse juízo de valor pra quem consome meus escritos.

Não escrevo para dar explicações de alguma coisa, escrevo para que a minha vida não fique tão chata. Já que as verdades que se apresentam diariamente são tão duras e cruéis. A cada dia que passa sinto a necessidade de me aventurar mais um pouco no meu subconsciente, mas se houver a necessidade de me perguntar se estou escrevendo a verdade é melhor não ler, pois acredito no lúdico e não tenho as respostas pra nada, só escrevo não profetizo.

Minha mãe sempre me disse que quem fala a verdade não merece castigo. Com o passar do tempo descobri que a única verdade que não merece castigo é a que pode salvar nossa pele. Já menti muitas vezes pra salvar minha. 

Um exemplo disso tudo: 

Esses dias passei pelo colégio Rosário e havia pessoas em situação de rua morando embaixo da ponte que liga a escola ao anexo. Uma vez caminhando por ali com um amigo, comentei: “Nossa, os caras mantêm bem limpinho o lugar que dormem”. Lembro de alguns carros parando e deixando roupas de cama, roupas e comida. Um gesto de cristãos de solidariedade e amor ao próximo. Hoje, enquanto caminhava com o Chico percebi que todos foram corridos dali.

Não sobrou nada, nem marcas no chão, uma higienização perfeita. Mas pra onde eles foram? Será que os padres sabem, será que querem saber? Duvido, por isso não acredito em culpa ou coisas do gênero católico, nada contra religiões, nem contra os padres, apesar de desconfiar deles. 

Pra mim é complicado confiar numa religião que mentiu sobre os limites da terra, que queimou mulheres que não seguiam seus dogmas e que entravam em guerras em nome de Deus. Não vou nem entrar no mérito dos crimes sexuais pra não esticar demais essa conversa. 

Conheço fiéis em todas as religiões e não quero generalizar nada, mas os dias têm sido estranhos, e só ter fé não está adiantando muito. Espero que as pessoas que foram retiradas de baixo da ponte do colégio estejam em um lugar parecido com o céu cristão e não em um canto qualquer a céu aberto.

Percebo as maldades cotidianas cada vez mais aceitas pela sociedade, a banalização da vida, a polarização da política em alta que fazem as seitas ganharem força. Um perigo aos desavisados, aos banidos e aos sem-valor. Possivelmente serei cancelado depois deste texto, mas como minha mãe disse, quem fala a verdade não merece castigo. Nesse momento só estou tentando salvar minha pele, pois minha alma ainda é livre. 


Antonio Padeiro – Oriundo da Vila Cerne, Antonio Padeiro ganhou o apelido nos tempos em que vendia pão na vila que morava. Por gostar de contar histórias se envolveu com a literatura. Formado em Letras, hoje divide seu tempo entre suas duas paixões: a escrita e os documentários, duas belas formas de contar histórias.

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