Crônica

Troca da guarda

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Troca da guarda

Cada um tem sua casa, mas só um frequenta as duas casas. Já estiveram muitos anos na mesma casa, depois um saiu, teve a sua. Trinta e cinco anos de vida juntam e separam os dois, que um dia foram pai e filho, hoje filho e pai, pai e pai, filho e filho. As posições se embaralharam nos últimos anos, entre internações, esquecimentos, algumas quedas e silenciamentos instransponíveis. 

As perguntas deixaram de ser recíprocas, naquele cuidado às vezes protocolar, às vezes genuíno, para acompanhar os dias que não são mais compartilhados pela presença. E o que se diz é mais pensado, as palavras pesam mais, até porque são escolhidas. Mas uma tevê ligada pode ajudar resolvendo os hiatos, algo que passa ou algo que pousa também. Tem uma busca por bons e leves acontecimentos.

O pai viúvo, o filho separado. O tempo passou e desacostumou do calor da pele. Ficam meio sem jeito quando esbarram um no outro ou quando as mãos se tocam sem querer. Nunca foram muito próximos para se dizerem, falando ou não. Mais comum era o essencial da convivência, aquele que usa o relato ordinário e cotidiano para não cair em qualquer profundeza. Favorecia o temperamento reservado do patriarca, seguido pela esposa, depois tomado como uma concessão pelos filhos. Não havia espera, expectativa. O consentimento mútuo deixava desobrigada qualquer angústia diante das ausências.

Há momentos duros, longos. O tempo de não conseguir mais andar sem auxílio, a definição de não sair desacompanhado, a combinação de seguir a lista das medicações fixada na geladeira. Mudanças que vêm para ficar, que não vêm de possibilidades, mas de limites. Se a organização da vida foi a aposta por décadas, agora a aprendizagem é encarar a desorganização como inevitável, aquela sensação de que nenhum planejamento é verdadeiro. Desconcertos mútuos ou não, desconhece o neto, a cama fica molhada na noite, o banho é assistido, surge a conversa sobre o sepultamento.   

No último final de semana, durante uma longa batalha entre a falta de fome e a necessidade de comer, mediada por garfadas desatentas, trajetos errantes entre o prato e a boca, surgiu um desabafo. Estou cansado, não vale mais a pena. Volta o silêncio. Ainda havia muitos grãos de arroz e lascas de frango para dar sequência ao que acontecia. Um guardanapo foi alcançado para limpar o casaco e a água foi reposta no copo.  Como seguir adiante? O interfone tocou, anunciando a entrega da farmácia. Algo se recompõe, pois descer para buscar a compra é um interlúdio. Há segundos, minutos e horas que precisam ser vividos, mas que insistem em se demorar demais. 

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