Crônica

Um livro está no lugar certo

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Um livro está no lugar certo

Dia desses fui ao sebo da minha cidade, garimpar algum livro de poesia. Em geral, as seções dedicadas a essa categoria, tanto em sebos quanto em livrarias, é bem pequena, um provável reflexo da procura. Naquela em que eu estava, não era diferente. Somente uma prateleira.

Comecei tentando ler os títulos nas lombadas enfileiradas, entortando a cabeça para um lado e para outro, me perguntando por que não existe um padrão de impressão para que todos os títulos fiquem na mesma direção na estante (ia ser lindo). Mário Quintana. Nova Antologia Poética. Interessante. Não é livro de bolso. Promissor. Lembrei que ainda não tinha nenhum livro do poeta na minha casa. Retirei-o para ver o estado.

Observei primeiro a contracapa, abri na última página e fui virando algumas. O livro estava todo cheio de anotações e versos sublinhados. Achei o máximo, adoro quando o livro tem anotações de outras pessoas, parece que eu estou lendo um diário secreto. Eu já tinha decidido que compraria o livro enquanto abria na primeira folha e me deparava com uma assinatura. Havia só aquela assinatura, e eu achava bem improvável que fosse um autógrafo do Mário Quintana em um livro sendo vendido por dez reais. Era uma daquelas assinaturas em que não se identifica nenhuma letra, é só um monte de sinais e pontos que não indicam nada sobre o nome da pessoa. Só que eu achei aquilo muito familiar, eu já tinha visto aqueles sinais e pontos antes. E logo tive um clique: era a assinatura de um tio meu, eu tinha quase certeza.

Talvez seja estranho o fato de eu conhecer a assinatura de um tio. Fiquei pensando que eu provavelmente não saberia se fosse qualquer outro tio ou qualquer outra tia, mas daquele tio eu conhecia, e havia um motivo muito especial. Em um daqueles Natais de mesa farta de comida e de família, esse tio distribuiu fotos dele mesmo em viagens que fizera pelo Brasil, através do Projeto Rondon, e pelo mundo, que, creio eu, foram também realizadas com algum tipo de bolsa de estudos do governo. Cada um de nós havia ganhado um punhado de fotos. Achei muito legal na época, um presente bastante original. E, no verso da foto, havia uma dedicatória, com a data e a assinatura dele. Era dezembro de 1987.

Comprei o livro e mandei uma mensagem para o meu pai, perguntando se aquela era a assinatura do irmão dele. Eu estava muito ansiosa e muito empolgada com a coincidência. Eu queria saber todo o percurso que aquele livro tinha feito para sair das mãos dele para, finalmente, chegar às minhas. Queria perguntar quando ele tinha se desfeito do livro e por que. Afinal, eram tantas anotações, o livro devia ter sido muito importante para ele.

Meu pai respondeu dizendo que não sabia ao certo. Eu já havia vasculhado minha gaveta de fotos em busca daquelas que ganhara, mas sem sucesso. Então, pedi o contato do meu tio e enviei uma mensagem com a foto da assinatura e da capa do livro.

Enquanto escrevia a mensagem me dei conta de que eu não falava com esse tio há muito tempo. Há tanto tempo que eu nem conheceria os filhos dele se passassem por mim na mesma calçada. Pensei que a última vez que tinha visto ele havia sido em um encontro de professores, onde ele faria uma palestra. Pura coincidência porque eu estava acompanhando um ex-namorado que faria uma outra apresentação no evento. Pensei também que a última vez que havia visto a família dele, mulher e dois filhos, havia sido, também por acaso, na praça de alimentação de um shopping. Percebi que minha convivência com tios e primos havia passado de encontros marcados em datas festivas ou domingos ao meio-dia para uma sucessão de coincidências.

Agora, eu escrevia para ele com um motivo; para mim, um motivo tão formidável, apesar de ser, novamente, uma coincidência. Quando ele respondeu, foi um pouco evasivo, dizendo que achava que era, não lembrava direito. Percebi que não saberia nada sobre a trajetória do livro. Talvez ele não tivesse sido tão importante assim. Trocamos mais algumas mensagens e ele me convidou para participar de um encontro chamado constelações familiares. Eu não sou muito dada a essas terapias não-convencionais. Disse que talvez aparecesse e eu queria, de fato, ir, mas não pelo evento, e sim para falar com ele, pelas boas lembranças de infância que ele havia me deixado. Ele era um tio brincalhão, daqueles que entendia a gurizada e preferia estar no meio dos jovens do que na mesa dos adultos.

Resolvi procurá-lo nas redes sociais e me dei conta de que talvez tudo esteja no lugar certo. Que a sucessão de coincidências não é um sinal do destino, mas um reflexo muito concreto dos fatos da vida e das escolhas que a gente faz. Que existe um motivo para eu passar meus domingos em uma mesa menorzinha. Pensei que um livro de poemas está nas mãos certas, na hora certa, e que existe um motivo para ele ter trocado de prateleira. E fiquei muito feliz por poder guardar as minhas memórias de infância do jeito que elas estão.  


Caroline Rodrigues é tradutora Juramentada (Inglês-Português), revisora e escritora. E-mail: carolinerodrigues.com.br

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