Crônica

Um porto de muitas cidades

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Um porto de muitas cidades "Gostar de Porto Alegre é, antes de tudo, simplesmente amar suas árvores frondosas, suas avenidas e seu lago-rio" Foto: Alex Rocha/PMPA

A uma primeira vista, não se percebe o mosaico que é Porto Alegre, mesmo de cima, da janela do avião, quando somos recepcionados por grandes lâmpadas a ladear uma maciça ponte sobre o Guaíba. É rio? É lago? Vai-se saber… A única certeza, de início, é a visão de uma alta torre de tijolos indicando a vocação industrial do passado do lugar, apontando para o alto como uma Babel de Lilipute criada para que os meios de produção alcancem o céu e vençam Deus, duplicação (ou tripartição, dependendo do ponto de vista) da temerosa figura paterna. 

Se a construção da torre da antiga empresa de companhia elétrica tiver trazido consigo algum castigo divino para a cidade, o mais provável é que ele esteja ligado ao fato de que todos os que ali chegam se tornam, de imediato, estrangeiros. Residentes no começo ou no fim do Brasil, ao sabor do freguês, os gaúchos têm uma forma de falar que vai surpreender a todo recém-chegado, não ao ponto de levar a uma confusão linguística como a causada pelo referido evento bíblico, mas por conta de um curioso e agradável estranhamento, a começar pelo uso de um inofensivo tratamento pronominal. – Tu, ti, a ti: só não é alemão nem tupi. 

Uma vez em solo, e ante uma aproximação pouco a pouco com a cidade, o mosaico aéreo se dilui, ao mesmo tempo que multiplica as diversidades da linguagem. E de tudo o que a constrói: aqui há o bairro judeu, o bairro rico como todos os bairros ricos, o bairro pobre como todos os bairros pobres, os alemães, os afrobrasileiros, os eslavos, os portugueses, a comunidade vinda do interior, a população a que chamam orgulhosamente “pelo duro” (o tipo característico dos pampas, na lida viril com os revezes do campo)… 

E aí ficamos em apenas alguns biombos de exemplos, pois atrás de todos eles basta vestirmos o manto da invisibilidade que o germânico Siegfried, o herói do Rio Reno, roubou de um anão na Canção dos nibelungos para termos o prazer de conseguir ver e ouvir tudo isso sem ser visto.

Afinal, Porto Alegre é uma cidade antiturística, recomendável sobretudo para quem sofrer de hipersensibilidade a árvores, que parecem nos reconhecer pelo caminho. Poderia até haver algo de sinistro nisso, como a história do casal que produzia linguiça a partir de carne humana ou a infeliz donzela que teve um destino de Rapunzel em pleno centro urbano; de todo modo, o fato é que os jacarandás centenários parecem filtrar a tua presença, saber que ali há um intruso, um “estrangeiro” caminhando pela silenciosa rua que conduz à padaria da esquina… – Não, não é preciso imaginar coisas: aqui, ninguém te observa; os gaúchos prezam a discrição como um monumento à honra e à paz individual (para alguns, é seu modo de praticar o adágio “viva e deixe viver”, porquanto também seja entendido para outros mais severos como um “viva e deixe morrer”). 

Independentemente de que lado o visitante esteja (“És Grêmio ou Internacional?”, espécie de atualização futebolística da indagação histórica: “Tu és Chimango ou Maragato?”), o que importa, entretanto, é não ter dúvidas: entre galhos retorcidos, plantas hospedeiras se alastrando em postes de eletricidade, bromélias suspensas e frondes abundantes, elas, as árvores, sentem, filtram de revesgueio a tua presença, te acompanham e te observam. E talvez seja por isso que, aqui, mesmo no inverno que retira desavergonhadamente dos bares as cadeiras das calçadas, você vai ter a impressão de não estar sozinho.  

Filtradas pela população arbórea da cidade, espalhada em muitos bairros, a luz natural torna os jacarandás um pouco menos misteriosos, oferecendo uma generosidade difusa e macia, sobretudo em épocas amenas, convidativas a caminhadas pelas largas avenidas da urbe, como a Osvaldo Aranha, diante do democrático Parque Redenção, e que tem o poder de nos inspirar versos como este, em um domingo apático:

Vislumbrei o pescoço branco
Que nunca procurei
Dourando ao fim de tarde
Na multidão de altas palmeiras

Afeto

Para quem quiser ir mais longe, seja nas palavras ou na geografia, faz-se necessário um passeio pela orla para observar de perto o ambíguo Guaíba, onde – reza outra lenda – para ali fugiu o monstro do Lago Ness, a fim de adensar seus segredos ante uma nova dúvida, desta vez situada entre o fluvial e o lacustre. 

No final das contas, entre suspeições arbóreas, avenidas ladeadas de palmas e a vastidão do espelho d’água, o enigma se desvenda da forma mais prosaica possível, com um novo amigo gaudério te estendendo uma cuia de mate adornada com o ícone de seu time local: “Pra ti ver como é o meu Rio Grande”! 

E assim o visitante se dá conta de que o mistério, aqui, é exatamente não haver mistério algum: gostar de Porto Alegre é, antes de tudo, simplesmente amar suas árvores frondosas, suas avenidas e seu lago-rio, mas com a diferença de que você, por uma primeira ou segunda vista, provavelmente não consiga supor que, na verdade, tratando-se de afeto, a cidade é que te tem afeição, antes mesmo de você começar a ter por ela, como aqueles que mantêm o afeto em segredo, entre caixas e papéis dobrados: Porto Alegre mora em você, diz um anúncio às margens do Ipiranga, onde tudo pode acontecer, de engarrafamentos a furtos – e entre ambas opções, até mesmo nada. 

E esse nada, a propósito, que nunca esteve na moda, é um dos elementos mais recomendáveis para os visitantes desta cidade tão discreta, que permite sorver a paisagem tranquila como em mais um domingo sem pressa. Se deixamos o hotel como intrusos que somos, muito em breve nos damos conta de sermos estrangeiros – o sotaque tudo revela, causando o choque recorrente, te trazendo a lembrança que você não pertence ao lugar: Mas tu não és daqui

Não, pois, de alguma forma, todos os lugares já são nossos, sobretudo se o que sentimos em cada um deles seja nossa forma particular de possuí-los, e tanto quanto aqueles que já os têm. Ter a liberdade de tê-los, aliás, como quem convive com eles e sabe-lhes a alma. E entende o seu vazio, o dentro e o fora, o terrestre e o sideral: com os objetos e as coisas, em todas as cidades, é preciso descobrir o que há em si de inanimado, de cognitivo desperdiçado, de abobalhada sabedoria para reverenciar o grande nada, o espaço gravitacional que nos escapa no mais trivial dia a dia: nem nos damos conta, pisamos nas crateras da lua, ou nos buracos da cidade, aqui embaixo.

E é por essas e outras que Porto Alegre – assim como você – pode ser discreta como um herói invisível de capuz lendário, mas não para quem tiver olhos para ver: quando os lilases dos jacarandás florirem e a luz natural do fim de tarde incidir sobre pétalas derrubadas pelo frescor do vento, essa metrópole se revelará, do chão, com uma luminescência que irá irradiar para sempre – como os postes guardiães avistados flutuando sobre o Guaíba, lá do alto – o rastro da tua bem-vinda presença em seu espaço. 


Renato Barros de Castro é jornalista, escritor e pesquisador. Mestre em Letras e doutorando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde desenvolve tese sobre narrativas de viagem sob supervisão do prof. Dr. Gerson Roberto Neumann. Autor dos livros Geografia afetiva (Prêmio Milton Dias, 2011) e Viagem a um Brasil insólito (Prêmio SECULT, 2015). Publicou, no campo da ficção, O mistério de Frida Zeiden (contos), obra finalista do Prêmio SESC de Literatura 2016, e Inventário das sombras (romance), além do ensaio José de Alencar: entre o jornalismo e a ficção (ediPUCRS, 2020), dentre outros. Desenvolve atualmente o projeto Mundo na Janela, sobre viagem e narrativa. 

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