Crônica

Uma aula com Awadia

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Uma aula com Awadia
Setembro de 2021 (Argentan-FR)

A minha tentativa de ajudar a Awadia a ler e escrever algumas palavras em francês é um exercício de muita paciência. Não sei como me comunicar com ela de maneira clara, não conheço praticamente nada do Sudão e, como colega, meu esforço é que ela possa entender as quatro estações do ano no idioma que estamos aprendendo juntos. Feito isso, o próximo passo é desvendar as frutas de cada período para que a Awadia, e eu também, possamos ir ao supermercado com a lista reforçada de vitaminas e de vocabulário.

Na sala estão juntos a Jihad, do Marrocos, e o Mohamad, da Síria. Quando a noção de entendimento da Awadia fica muito difícil, os dois me ajudam com a língua árabe para formular as explicações que não dou conta de contribuir com meu francês. Descobri, no meio desse contexto, que o árabe dos sírios pode ser entendido pelos marroquinos e sudaneses. Mas que no sentido inverso nem sempre a compreensão se dá com a mesma facilidade. 

Quando penso no exercício que meus colegas fazem, tento sempre inverter o ponto de vista. Pego uma folhinha que a Jihad elaborou e onde consta o alfabeto e a pronúncia das letras árabes. É uma folha, no meu caso, pouco possível de decifrar. E mesmo com a grafia das pronúncias redigidas em alfabeto latino, eu ainda assim não me saio muito bem. Fora o alfabeto diferente, vem junto à escrita árabe toda uma leitura que se desenvolve da direita pra esquerda, o que faz com que cadernos, apostilas e livros tenham uma organização bem diferente. 

Pois essa reversão de sentidos anuncia um caminho longo pela frente. Não sei o quanto a Awadia imagina a respeito dessa perspectiva que acompanha o jeito francês de fazer as coisas, mas eu acredito que muita água ainda passa pela terra do Moulin Rouge até que ela possa se dar conta. No campo das ideias eu fico inventando como seria interessante explicar sobre a formação pela qual ela vai passar. Mas, na prática, é outra coisa: os idiomas incompatíveis não nos permitem a interação. 

No momento eu estou terminando o curso nessa escola de onde escrevo. É minha última semana. E ela, a Awadia, chegou faz poucos dias e está apenas ensaiando as primeiras palavras. Se eu pudesse, contaria uma história para minha colega sudanesa. Seria algo assim:

– Awadia, uma ideia aqui é que nos façam entender como funciona um país republicano como a França. Existem costumes e tradições que se desenvolveram com a noção de democracia. São os cidadãos franceses que escolhem o que é melhor para o país. São eles também que pagam os impostos. 

Faço uma pausa. 

– Não, só um pouquinho, não é bem assim. Na verdade nós, os estrangeiros, somos considerados cidadãos porque também pagamos os impostos. Mas nem por isso temos o direito de votar. Eu, por exemplo, voto lá no Brasil, que também é uma democracia. Se bem que a democracia por lá anda sofrendo ataques constantes. O nosso medo, dos brasileiros democratas, é que percamos a liberdade, tantas são as ameaças constantes que vem acontecendo nesse sentido com o governo que anda por lá. 

Vejo uma revoada de corvos através da janela. 

– Desculpa, Awadia, eu desviei um pouco o assunto, tinha que estar te contando sobre o curso de francês. Como eu ia dizendo, não é apenas pela língua que essa escola funciona. É para que nós possamos compreender como se sustenta o estado, como temos direito a saúde pública, transporte e segurança, como as crianças têm direito à escola pública. Tu tem filhos? Então, eles certamente poderão votar no presidente lá adiante. Serão cidadãos republicanos que poderão ir às urnas. Terão mais direitos do que nós no momento temos aqui. Esse direito de escolha política, entende? Awadia, é importante opinar, escolher, decidir. E mesmo que possamos parecer menos decisivos, existem aqueles que entendem que os direitos de todos precisam ser respeitados. Políticos que olham para as minorias e entendem que elas precisam ser contempladas e que merecem políticas que favoreçam sua condição de vida. Essa escola onde estamos, por exemplo, é uma ideia posta em prática para quem chega de fora como nós. Daqui a gente sai com algumas possibilidades melhores. Podemos estudar aqui e vamos melhor preparados para o teste realizado pelo governo. Não sabia dessa prova? Sim, nós só recebemos nossos vistos de permanência depois de passar pelo escritório de imigração e integração. Sem falar a língua não adianta, precisamos entender bem como são os processos por aqui. O nome é república democrática, mas ela tem também um tanto de burocrática. 

Awadia me olha e acho que ela sorri. 

Quando falarem em direitos iguais, minha colega, igualdade entre homens e mulheres, igualdade étnica, quando tratarem de questões de gênero e sobre defesa do meio ambiente, eu te recomendo: fique atenta. Isso nos interessa. Isso interessa a nós que somos humanos.

É, Awadia, tem isso e mais um tanto. Mas antes precisamos do que é básico: a lista de supermercado. 


Ângelo Chemello Pereira estuda literatura e participa na revista Parêntese.

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