Crônica

Vazios

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Vazios As idas ao banco e à livraria, incomuns nos tempos de vida online, abriram um fosso na perspectiva da volta ao normal, ou de um novo normal. A ideia era somente retirar um livro para não pagar frete e rever a cobrança de uma mensalidade bancária, mas isso ficou secundário pela força da experiência que se impôs.  Explico.  A livraria é uma empresa nacional, que já teve lojas em muitas capitais brasileiras, mas hoje só está presente em Porto Alegre e São Paulo. A parte boa é estar por aqui. A parte difícil é enxergar as metamorfoses que precisou realizar para subsistir até agora. Embora o espaço ainda seja amplo, mesmo que reduzido em área e seções ao longo dos últimos anos, havia somente dois funcionários no atendimento.  Quem me atende inicialmente no caixa pede que o acompanhe até o estoque, setor vizinho das embalagens, ambos anteriormente ocupados por duplas que se revezavam nas retiradas de livros, nos pacotes para presente e emissão de certificados de troca. Não havia ninguém lá. Conferida a minha compra no site, quem me atende passou então ao espaço contíguo para fazer a embalagem, e depois me pede que o siga até o caixa que fica no centro da loja, para terminar a operação. Estoque, embalagem, caixa, e seguíamos os dois.  Ousei comentar o estranhamento com ele, pois apesar de muitas idas à livraria ao longo dos anos, havia um ineditismo nessa vez. Então entendo melhor: ele me diz que já teve uma equipe de 15 funcionários e hoje estão em três no turno. Já trabalhou em filiais de outras capitais, mas que restaram só duas, vai enumerando a ausência em capitais como Brasília e Rio de Janeiro, descrevendo o encolhimento da rede. Penso então que seu trabalho aumentou: além de conferir, embalar e receber pagamento, possivelmente continue respondendo pela gestão da unidade.  Deixei escapar um “Que difícil”, quase uma tentativa de solidariedade diante do testemunho que acabava de ouvir. Ao que ele me responde, “A gente precisa ser resiliente, para ser minimamente irônico, com esse termo tão atual”. E terminando a venda, me pergunta se preciso do comprovante do cartão de crédito. E voltamos ao lugar de vendedor e de consumidor, com uma rápida permissão para alguma cumplicidade.  Para a missão de resolver um SMS indigesto que informava o aumento no custo mensal da conta corrente, o atendimento online do banco me indicou que fosse na agência. A justificativa é de que o gerente da conta poderia conceder descontos que o sistema não permite. A princípio é a senha de que as pessoas ainda fazem diferença, premissa que conflitua com a tirania das centrais de atendimento remoto. Na chegada percebi que o estacionamento terceirizado que fica ao lado do banco está fechado. Procuro um lugar na rua movimentada com vagas quase impossíveis, mas logo em seguida começo a entender o que contribuiu para o fechamento da garagem. Entrando na agência, a visão é de amplitude: são 18 posições de atendimento, muitas filas de cadeiras […]

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As idas ao banco e à livraria, incomuns nos tempos de vida online, abriram um fosso na perspectiva da volta ao normal, ou de um novo normal. A ideia era somente retirar um livro para não pagar frete e rever a cobrança de uma mensalidade bancária, mas isso ficou secundário pela força da experiência que se impôs.  Explico.  A livraria é uma empresa nacional, que já teve lojas em muitas capitais brasileiras, mas hoje só está presente em Porto Alegre e São Paulo. A parte boa é estar por aqui. A parte difícil é enxergar as metamorfoses que precisou realizar para subsistir até agora. Embora o espaço ainda seja amplo, mesmo que reduzido em área e seções ao longo dos últimos anos, havia somente dois funcionários no atendimento.  Quem me atende inicialmente no caixa pede que o acompanhe até o estoque, setor vizinho das embalagens, ambos anteriormente ocupados por duplas que se revezavam nas retiradas de livros, nos pacotes para presente e emissão de certificados de troca. Não havia ninguém lá. Conferida a minha compra no site, quem me atende passou então ao espaço contíguo para fazer a embalagem, e depois me pede que o siga até o caixa que fica no centro da loja, para terminar a operação. Estoque, embalagem, caixa, e seguíamos os dois.  Ousei comentar o estranhamento com ele, pois apesar de muitas idas à livraria ao longo dos anos, havia um ineditismo nessa vez. Então entendo melhor: ele me diz que já teve uma equipe de 15 funcionários e hoje estão em três no turno. Já trabalhou em filiais de outras capitais, mas que restaram só duas, vai enumerando a ausência em capitais como Brasília e Rio de Janeiro, descrevendo o encolhimento da rede. Penso então que seu trabalho aumentou: além de conferir, embalar e receber pagamento, possivelmente continue respondendo pela gestão da unidade.  Deixei escapar um “Que difícil”, quase uma tentativa de solidariedade diante do testemunho que acabava de ouvir. Ao que ele me responde, “A gente precisa ser resiliente, para ser minimamente irônico, com esse termo tão atual”. E terminando a venda, me pergunta se preciso do comprovante do cartão de crédito. E voltamos ao lugar de vendedor e de consumidor, com uma rápida permissão para alguma cumplicidade.  Para a missão de resolver um SMS indigesto que informava o aumento no custo mensal da conta corrente, o atendimento online do banco me indicou que fosse na agência. A justificativa é de que o gerente da conta poderia conceder descontos que o sistema não permite. A princípio é a senha de que as pessoas ainda fazem diferença, premissa que conflitua com a tirania das centrais de atendimento remoto. Na chegada percebi que o estacionamento terceirizado que fica ao lado do banco está fechado. Procuro um lugar na rua movimentada com vagas quase impossíveis, mas logo em seguida começo a entender o que contribuiu para o fechamento da garagem. Entrando na agência, a visão é de amplitude: são 18 posições de atendimento, muitas filas de cadeiras […]

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