Crônica

Virar o tempo

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Virar o tempo Foto: Ricardo Stuckert

Passei a contar o tempo em centímetros. A cada medida do rio que abraça a cidade, hoje de forma sufocante, penso nos que restam, entre a água subir de novo e voltar a baixar para que Porto Alegre e as demais cidades da região metropolitana possam, talvez, respirar. E sei que esse tempo, como todos os outros, é elástico e depende da nossa percepção, não só dos regimes de chuva e de vento. Parece que faz uns dois meses que isso tudo começou e sei também que, como numa ampulheta, o lodo que vai ficar exposto aqui tem que primeiro ser levado mais ao sul, perto de onde trabalho e onde termina, ou começa, o Brasil.

Como entrega a série que escrevi aqui em outra vida, gosto muito de mapas. E quando não consigo dormir, me meto a analisar no celular os vasos comunicantes dessa coisa que chamaram Rio Grande do Sul, que borra os limites entre o que o senso comum considera Brasil de um lado, e a região do Prata de outro, e que faz de mim um bicho meio engraçado tanto lá quanto cá. Meu companheiro, argentino, me chama carinhosamente de “Brasilera” e quando explico o lugar de onde venho, como são as paisagens, entre as praias, as vacas, o truco e o mate, ele me pergunta, brincando, por que raios não somos parte de lá.

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Minha bússola interna também se complica quando vejo a forma com que os portenhos como ele (embora ele me discutiria o gentílico), se relacionam eles mesmos com seu rio, que tampouco é rio, e que pôr do sol bonito só oferece de revesgueio em lugares como o Parque de la Memoria, onde aviões também pousam perto d’água. Recém dia 14 saiu a primeira matéria sobre como eventos assim poderiam ocorrer em Buenos Aires, que carece de um prefeito tanto quanto nós.  

Quando olho o mapa do Conesul e os erros cartográficos que batizam Rio Grande, o Rio da Prata e outros entes d’água, deixando evidente uma incompreensão dessa paisagem e desse tempo, lembro dos esforços das professoras de Estudos Sociais que tive na escola montessoriana de primeiro grau que frequentei na década de 90. Explicavam, aos trancos e barrancos, que o rio Guaíba era um estuário (sic) ligado à Lagoa dos Patos, que na verdade é uma laguna. O nome Viamão, à época, tinha uma explicação bonitinha que se remetia aos rios que aqui desaguam, sobre os quais não consigo pensar sem ser com a mão espalmada, um rio para cada dedo. Só adulta me dei conta de que são tão somente convenções, as fronteiras e as formas tradicionais e titubeantes com que pensamos sobre rios, estuários e lagos, porque estamos todos mais ou menos no mesmo pampa, presos entre os Andes, a Patagônia e a floresta tropical.

Quem ocupou esse monte de pedras, plantas e água antes de nós não tinha tanto apego a essas categorias estanques, que hoje informam códigos de leis do que se pode ou não fazer ao redor de uma coisa ou de outra, rio, mar ou lago. E não falo isso por um respeito vago e clichê, como uma mensagem de cartão de Natal ou de aniversário, à chamada “sabedoria indígena”, mas sim em reconhecimento de que há uma epistemologia e uma história que nós brancos desconhecemos profundamente, de só ver esses sujeitos na beira da estrada, nos olhos de uma bisavó que já faleceu, ou uma vez por semana na feira do Bom Fim. Falo também da nossa desconexão com o chão em que pisamos, com os bairros para os quais nos mudamos, muitas vezes nos aproveitando da especulação imobiliária. Falo também e principalmente disso de querermos deixar de ser bicho.

O ser humano talvez seja o único animal que anda por aí sem saber onde está se metendo, catalogando as coisas que desconhece tendo por base analogias muitas vezes estapafúrdias, e que desconhece a si próprio a ponto de estranhar o que lhe ocorre com o passar do tempo, tentar freá-lo, domá-lo como um potro chucro.

Tudo que chamamos de histórico e científico — que nada mais são do que formas de controle sobre a realidade — quando tomado de uma forma simplista, muitas vezes transforma o “natural” em outra coisa, em um devir ou voltar a ser, igualmente melindrado, a tal “mãe natureza”. Tem pipocado pelas redes sociais argumentos históricos contra a forma que Porto Alegre foi ocupada e aterrada, com ideias naturalistas vagas e rasas, como se por termos ganhado terreno ao rio — e não a forma com a qual fazemos isso  — fosse o problema. O que mais acho estranho disso tudo é ter nascido uns dez anos depois que o sistema de diques e casas de bomba de Porto Alegre foi feito e, por uma falta de memória, ter crescido vendo esse muro tratado com escárnio, uma coisa feia e inútil que jamais conteria uma enchente “de verdade” que era “impossível” acontecer tão cedo. O muro que divide a cidade do seu porto, como disse o governador num vídeo que hoje é parodiado num reels de Instagram.

Pois então.

Essa nossa falta de noção histórica e de memória das cidades em que vivemos já derivou em outros delírios ansiosos, quase infantis. Teve gente o suficiente sugerindo abrir canais na Lagoa dos Patos para ajudar com a vazão do Guaíba de modo que o Instituto de Pesquisas Hidráulicas e o Instituto de Biociências da UFRGS tiveram de emitir notas explicando que não, abrir um canal de uma laguna ao mar não é a mesma coisa que colocar um Bombril numa antena para pegar sinal UHF e que isso aqui não é a Holanda ou mesmo o Panamá. Nosso senso de insignificância, talvez causado por ser esse lugar discreto, pequeno, cheio de vacas, um posto de gasolina entre o Rio de Janeiro e o Rio da Prata, nos faz desconhecer o fato de que nosso complexo lagunar é uma entidade assombrosa e única. Usando o jargão local, mexer nele seria uma bagaceirice com efeitos irreversíveis para todos os envolvidos, maior ainda do que se vender como capital da inovação e prometer encher de prédios lugares que hoje estão debaixo d’água.

Tenho me sentido, nesses dias, virando eu mesma tempo, seja lá o que isso queira dizer. Encurtei o espaço da experiência, um passado passado, entre meus bisavós paternos que sobreviveram à gripe espanhola e passaram a enchente de 41 em Rio Pardo, e a minha de viver isso tudo depois de uma pandemia, num bairro que foi afetado tão somente com falta de água e de um pouco de humanidade. O fato de Porto Alegre ser esse lugar onde as pessoas não costumam parar quietas, essa cidade onde quase ninguém é totalmente daqui (como a maioria das grandes cidades é), faz com que meus pais, ambos criados nas ruas agora alagadas do Menino Deus, não tivessem nenhuma memória alheia compartilhada daquele primeiro evento, a vinte anos de ser centenário. Como escrevi em outro lugar, para mim a enchente de 41 sequer tinha mês e daí descobri que é esse mês exato: esse mês entre abril e maio, quando deveríamos estar comentando as primeiras frentes frias, os ocasionais veranicos e esperando as primeiras bergamotas decentes.

Me sinto virando tempo e virando as pedras do bairro onde cresci e moro hoje, do qual de orelhada sei algumas histórias e onde ficam riachos e bicas, um bairro que como a maioria dos bairros de Porto Alegre, tem tido suas casas demolidas e aos poucos se transformando em torres forasteiras, estrangeiras e que sequer tenham, talvez, lido aquele saudoso guia de ruas do Sérgio da Costa Franco.  

Jamais uma cidade teve de se deparar com tamanho desconhecimento de si mesma e de suas vizinhas, dos rios que aqui desaguam e do rio que não serve só a um pôr do sol bonito, instagramável, enquanto se faz fila num restaurante à beira de algo que de “embarcadero” não tem nada.

A palavra cidade também está na origem na nossa concepção moderna de política, por essa raiz etimológica que essa última tem na pólis grega. Os defensores do ocidente de extrema-direita devem saber disso e por isso negam até mesmo esse caráter das cidades e do que fazemos com elas. Sem política, cidades não existiriam. Uma coisa a mais que muitos de nós vão ter de reaprender.


Renata Dal Sasso é docente do Curso de Licenciatura em História da Universidade Federal do Pampa e publica uma newsletter semanal chamada Correio do Sul do Sul.

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