Ensaio, Parêntese

Demétrio de Freitas Xavier: O que veio para narrar

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Demétrio de Freitas Xavier: O que veio para narrar Atahualpa Yupanqui nasceu há 112 anos e viveu 84. Por poucos desses anos, desde seu nascimento, a 31 de janeiro de 1908, preponderou seu nome civil e de batismo, Hector Roberto Chavero Aramburu. O pseudônimo indígena com que seria mundialmente reconhecido, além de evocar poderosas linhagens incaicas, significa nada menos do que “o filho da Terra que veio para narrar”. O trovador que criaria uma obra que tem o Caminho como eixo quase obsessivo escolheu ainda adolescente aquele que trilharia – e o demonstrou ao rebatizar-se, ao dar-se de forma quase fatalista esse nome americano, que um dia crismaria com afirmações como “a Terra marca seus eleitos, não para sua vaidade, mas para seu sacrifício. ” Filho de ferroviário, origens bascas mescladas ao sangue índio, Atahualpa sofreu na infância um golpe que desenharia seu espírito, talvez em linhas tão duras como as que um dia apresentaria a máscara acobreada de sua face: o suicídio do pai, em seu escritório na pequena estação da via férrea em que era o encarregado de cargas, no interior da província de Buenos Aires. Decisão cujo motivo nunca é inteiramente conhecido, mas que no caso do funcionário austero e orgulhoso parece ter tido relação com dívidas de jogo e antigos conceitos de honra. Don Demetrio Chavero deve ter usado o mesmo Smith&Wesson que um dia retirou da gaveta e entregou a um pasmado passageiro que quis fazer uma reclamação e solicitou o Livro de Queixas: “Tome; queixe-se”, disse, sem olhar o demandante, que se retirou, recusando a radicalidade da tarefa… Quem se dedica à obra musical, poética e narrativa deste que, ademais, foi um livre pensador de instigante alcance filosófico, sabe que sua dor por essa tragédia e mesmo alguma forma de menção a ela estão insinuadas em algumas passagens. A pena, a melancolia que acompanha o cantor, como um dado inescapável, mas também como uma presença querida, é a grande personagem de “La Añera”, bela zamba em parceria com Nabor Córdoba. Mas há muitíssimos outros momentos em que se dá a sugestão. Também não se deixa de notar que na novela Cerro Bayo, de 1953, a descrição de uma noite estupendamente estrelada (e a altitude, combinada à baixa umidade da pré-cordilheira, faz com que a noite realmente impressione) é culminada com uma imagem: é como se Pachamama (a deusa-Terra dos incas e seus descendentes indígenas e mestiços) tivesse pendurado no céu as esporas de todos os gaúchos que desertaram da vida.  Vinte e quatro anos depois, um Atahualpa maduro escreve um agradecido livro sobre o Japão que o acolheu e, sem exageros, o adorou e adora (há intérpretes japoneses da obra de Yupanqui, e um deles fez uma espécie de pequeno templo para sua lembrança): “Del algarrobo al cerezo”. Da árvore típica do Noroeste argentino, fundamental por tudo o que oferece e representa às populações nativas, ao símbolo milenar japonês da cerejeira. Em um dos textos dessa bela obra, Atahualpa encontra e reproduz o conceito honrado, corajoso e belo que o suicídio pode ter […]

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Atahualpa Yupanqui nasceu há 112 anos e viveu 84. Por poucos desses anos, desde seu nascimento, a 31 de janeiro de 1908, preponderou seu nome civil e de batismo, Hector Roberto Chavero Aramburu. O pseudônimo indígena com que seria mundialmente reconhecido, além de evocar poderosas linhagens incaicas, significa nada menos do que “o filho da Terra que veio para narrar”. O trovador que criaria uma obra que tem o Caminho como eixo quase obsessivo escolheu ainda adolescente aquele que trilharia – e o demonstrou ao rebatizar-se, ao dar-se de forma quase fatalista esse nome americano, que um dia crismaria com afirmações como “a Terra marca seus eleitos, não para sua vaidade, mas para seu sacrifício. ” Filho de ferroviário, origens bascas mescladas ao sangue índio, Atahualpa sofreu na infância um golpe que desenharia seu espírito, talvez em linhas tão duras como as que um dia apresentaria a máscara acobreada de sua face: o suicídio do pai, em seu escritório na pequena estação da via férrea em que era o encarregado de cargas, no interior da província de Buenos Aires. Decisão cujo motivo nunca é inteiramente conhecido, mas que no caso do funcionário austero e orgulhoso parece ter tido relação com dívidas de jogo e antigos conceitos de honra. Don Demetrio Chavero deve ter usado o mesmo Smith&Wesson que um dia retirou da gaveta e entregou a um pasmado passageiro que quis fazer uma reclamação e solicitou o Livro de Queixas: “Tome; queixe-se”, disse, sem olhar o demandante, que se retirou, recusando a radicalidade da tarefa… Quem se dedica à obra musical, poética e narrativa deste que, ademais, foi um livre pensador de instigante alcance filosófico, sabe que sua dor por essa tragédia e mesmo alguma forma de menção a ela estão insinuadas em algumas passagens. A pena, a melancolia que acompanha o cantor, como um dado inescapável, mas também como uma presença querida, é a grande personagem de “La Añera”, bela zamba em parceria com Nabor Córdoba. Mas há muitíssimos outros momentos em que se dá a sugestão. Também não se deixa de notar que na novela Cerro Bayo, de 1953, a descrição de uma noite estupendamente estrelada (e a altitude, combinada à baixa umidade da pré-cordilheira, faz com que a noite realmente impressione) é culminada com uma imagem: é como se Pachamama (a deusa-Terra dos incas e seus descendentes indígenas e mestiços) tivesse pendurado no céu as esporas de todos os gaúchos que desertaram da vida.  Vinte e quatro anos depois, um Atahualpa maduro escreve um agradecido livro sobre o Japão que o acolheu e, sem exageros, o adorou e adora (há intérpretes japoneses da obra de Yupanqui, e um deles fez uma espécie de pequeno templo para sua lembrança): “Del algarrobo al cerezo”. Da árvore típica do Noroeste argentino, fundamental por tudo o que oferece e representa às populações nativas, ao símbolo milenar japonês da cerejeira. Em um dos textos dessa bela obra, Atahualpa encontra e reproduz o conceito honrado, corajoso e belo que o suicídio pode ter […]

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