Crônica, Parêntese

Drops de uma mesária

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Drops de uma mesária

Desde meus 4 anos acompanhei a mãe nos dias de eleições. Quando fiz meu primeiro título eleitoral aos 16, escolhi o mesmo local de votação. Relutei em transferir de São Gabriel para Porto Alegre: por um lado manter um ritual familiar, por outro não poder escolher o executivo e legislativo da cidade que escolhi viver. O meu primeiro voto porto-alegrense me marcou pelo vazio: não havia o ritual de acompanhar a apuração. Foi assim que decidi ser mesária voluntária. Só que ao receber a convocação este ano, vacilei: será que toparia? 

Compartilho com vocês as sensações de ser mesária em tempos pandêmicos.

– Um dos momentos mais difíceis que passei foi no período entre 15h e 17h: crise de rinite alérgica de máscara, em um lugar com circulação de pessoas – umas centenas. Eu sigo em distanciamento social desde março. Tenho trabalhado alguns dias presenciais, mas uma jornada menor do que o dia de eleição e com um fluxo de pessoas bem menor (três pessoas por turno).

– Uma hora o desespero foi tanto que eu não sabia o que incomodava mais: a máscara encharcada, os espirros, a incerteza de ter passado álcool em gel, a coceira. Talvez, tivesse pedido um intervalo, mas não havia muito o que fazer. Comecei a fazer tratamento para a rinite este ano e ela está bem mais controlada. No domingo, talvez tenha sido uma árvore, talvez tenha sido meu limite. Freelas, final de semestre na faculdade (trabalhos atrasados), estar numa exposição ao vírus que evitei em meses, os números crescendo, sonhar com a cidade que quero viver, saudade de mãe, a inexistência de um cronograma de vacinação…

– Dois dias antes também já estava com o pescoço travado (um pouco melhor agora). Hoje meu olho direito começou a tremer.

– Eu fui embora exausta. Mais que isso, raivosa. Com dois colegas mesários que baixavam a máscara direto, com o senhor de mais de 70 anos que foi sem máscara votar (colocou a que fornecemos e agradeceu), com o cara que foi com máscara de furinhos votar e mais: neste ano a instrução era perguntar se a pessoa queria seu comprovante ou não, ele tava ali impresso, mas muitos nem gostam de levar, outros colecionam, outros até gostam de levar, mas seria um objeto a menos para tocar – Ele: “Por que isso agora?” Eu: “Pandemia, senhor!?” Ele: “ah!”. Foi ali que percebi a máscara de furinhos. Não sou uma pessoa de raiva, quando sinto, geralmente, é porque já estou no meu limite. Parte da minha raiva no domingo foi de não poder falar, foi de querer estar ali (gosto do trabalho de mesária) ao mesmo tempo que não (insegurança, cansaço).

– Triste por saber que uma eleitora, com certeza, faleceu (está nos títulos bloqueados). Lembro de um dia cruzar com ela em um mercadinho da região. Provavelmente, nunca escolhemos as mesmas pessoas para votar. No entanto, era uma senhora elegante. Pensava que queria envelhecer tão elegante assim. Além de votar ali e morar pela região, não sei mais nada sobre ela (acho que não vai rolar, com certeza ela não usaria tanto chinelo de dedo como eu e nem tomaria café frio, envelhecer já é um super processo).

– O seu Barney não apareceu. Talvez esteja cuidando da sua saúde, talvez nunca mais o veja.

– No segundo turno, mais canetas foram esquecidas, mais crianças foram “votar”. Assim que reconheci uma eleitora que sempre ia acompanhada da sua filha, uma moça, agora, já crescida. Adesivos de Manuela. Uma avó também foi acompanhada da neta para votar em Manu.

– Havia um senhor não alfabetizado na minha seção. Confesso que não tenho certeza de seu nome, mas lembro um pouco de sua fisionomia. Uma carteira de identidade de 2019 e uma assinatura vacilante, não sei se é o meu lado otimista ou se realmente era ele. Talvez, eu tenha visto um sorriso escondido por máscara falado por olhos ao conferir aquele RG com assinatura. O fato é que a almofada para o dedo não foi utilizada neste ano.

– Não há sentido lógico, entretanto, assinalei que sim, podem seguir me convocando (eu não recebo folga remunerada).

Suzana Pohia é jornalista e futura museóloga. Caminhante, que recolhe cartas de baralho encontradas pelo caminho. Sonha com um Cais do Porto para as pessoas. Voa através do projeto Passarinho Vivências Urbanas.

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