Crônica, Parêntese

E sobre os recuperados, ninguém fala?

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E sobre os recuperados, ninguém fala? Entre um e outro gole de café preto, na modorra quente de uma tarde chuvosa deste março tenebroso, me entrego à auto-sabotagem e à procrastinação por alguns instantes, tentando postergar a incontornável tarefa de entregar textos. Gosto muito de trabalhar, sempre quis ganhar a vida escrevendo, mas fica difícil ter ânimo para qualquer coisa sabendo que quase 2 mil brasileiros morreram por Covid-19 em apenas um dia. Meu erro: abrir o Twitter em busca de alguma distração. Vejo um sujeito questionando por que a “mídia” não divulga o número de recuperados da Covid. Seria o alarmismo, a intenção de gerar pânico o verdadeiro objetivo dos meus colegas jornalistas ao dar ênfase aos mortos e não aos recuperados? Fecho o Twitter duplamente frustrada. Minha intenção de me alienar um pouquinho falhou miseravelmente. E agora além de desanimada, sinto aquela incômoda raiva que dificulta inclusive a concentração de que preciso para voltar aos textos atrasados. Em março fecham oito meses desde que minha mãe testou positivo para a Covid. Os primeiros 20 dias foram de grande angústia. Portadora de Alzheimer e Parkinson em estágio avançado, a mãe vive em um residencial geriátrico perto da minha casa, na Zona Sul de Porto Alegre. Em julho, quando recebeu o diagnóstico, os hospitais estavam cheios e decidimos tratá-la no próprio residencial, com suporte de oxigênio, fisioterapia e medicamentos. Parecia impossível, mas ela venceu o coronavírus. Passou por tudo: broncoespasmos, insuficiência respiratória, diarreia, febres altas, convulsões. Mas o cuidado da equipe, a técnica da fisioterapeuta, a genialidade do médico e a minha presença constante operaram um pequeno milagre. Como ela poderia morrer a qualquer momento, fui autorizada a assumir o risco para estar com ela, mesmo durante o auge da infecção. Participei de tudo com o máximo de cuidado, usando todos os EPIs, e não fui contaminada – já gastei o equivalente a alguns frilas pagando testes de PCR, o que comprova a eficiência da minha prevenção. Livrar-se do vírus, porém, não significa ficar bem. Não é a mesma coisa que estar recuperado. Como sequela, a mãe ficou com uma infecção pulmonar por bactéria resistente, que apesar dos constantes tratamentos evoluiu para uma infecção generalizada em outubro. Passamos 16 dias no Hospital Vila Nova, que àquela época tinha leitos disponíveis. Deixamos o hospital com a bactéria combalida, mas não vencida. Logo ela voltou a precisar de antibióticos de uso hospitalar, que tenho conseguido comprar em uma empresa especializada em homecare. Desde então, ela oscila entre dias bons e outros ruins. Não nos vemos mais, a não ser por vídeo, em função das necessárias restrições impostas devido ao avanço da pandemia. Em janeiro, a infecção voltou a ficar muito intensa. Cogitamos interná-la novamente, mas o médico apostou na medicação e no cuidado no residencial. No final de fevereiro, um dia antes do Rio Grande do Sul entrar em bandeira preta, fomos ao setor de endoscopia da Santa Casa para um procedimento de gastrostomia, que retirou a sonda de alimentação nasogástrica, aquela do nariz, para a colocação de […]

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Entre um e outro gole de café preto, na modorra quente de uma tarde chuvosa deste março tenebroso, me entrego à auto-sabotagem e à procrastinação por alguns instantes, tentando postergar a incontornável tarefa de entregar textos. Gosto muito de trabalhar, sempre quis ganhar a vida escrevendo, mas fica difícil ter ânimo para qualquer coisa sabendo que quase 2 mil brasileiros morreram por Covid-19 em apenas um dia. Meu erro: abrir o Twitter em busca de alguma distração. Vejo um sujeito questionando por que a “mídia” não divulga o número de recuperados da Covid. Seria o alarmismo, a intenção de gerar pânico o verdadeiro objetivo dos meus colegas jornalistas ao dar ênfase aos mortos e não aos recuperados? Fecho o Twitter duplamente frustrada. Minha intenção de me alienar um pouquinho falhou miseravelmente. E agora além de desanimada, sinto aquela incômoda raiva que dificulta inclusive a concentração de que preciso para voltar aos textos atrasados. Em março fecham oito meses desde que minha mãe testou positivo para a Covid. Os primeiros 20 dias foram de grande angústia. Portadora de Alzheimer e Parkinson em estágio avançado, a mãe vive em um residencial geriátrico perto da minha casa, na Zona Sul de Porto Alegre. Em julho, quando recebeu o diagnóstico, os hospitais estavam cheios e decidimos tratá-la no próprio residencial, com suporte de oxigênio, fisioterapia e medicamentos. Parecia impossível, mas ela venceu o coronavírus. Passou por tudo: broncoespasmos, insuficiência respiratória, diarreia, febres altas, convulsões. Mas o cuidado da equipe, a técnica da fisioterapeuta, a genialidade do médico e a minha presença constante operaram um pequeno milagre. Como ela poderia morrer a qualquer momento, fui autorizada a assumir o risco para estar com ela, mesmo durante o auge da infecção. Participei de tudo com o máximo de cuidado, usando todos os EPIs, e não fui contaminada – já gastei o equivalente a alguns frilas pagando testes de PCR, o que comprova a eficiência da minha prevenção. Livrar-se do vírus, porém, não significa ficar bem. Não é a mesma coisa que estar recuperado. Como sequela, a mãe ficou com uma infecção pulmonar por bactéria resistente, que apesar dos constantes tratamentos evoluiu para uma infecção generalizada em outubro. Passamos 16 dias no Hospital Vila Nova, que àquela época tinha leitos disponíveis. Deixamos o hospital com a bactéria combalida, mas não vencida. Logo ela voltou a precisar de antibióticos de uso hospitalar, que tenho conseguido comprar em uma empresa especializada em homecare. Desde então, ela oscila entre dias bons e outros ruins. Não nos vemos mais, a não ser por vídeo, em função das necessárias restrições impostas devido ao avanço da pandemia. Em janeiro, a infecção voltou a ficar muito intensa. Cogitamos interná-la novamente, mas o médico apostou na medicação e no cuidado no residencial. No final de fevereiro, um dia antes do Rio Grande do Sul entrar em bandeira preta, fomos ao setor de endoscopia da Santa Casa para um procedimento de gastrostomia, que retirou a sonda de alimentação nasogástrica, aquela do nariz, para a colocação de […]

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