Exposição “Descer da nuvem”, Museu Judaico de São Paulo, 2022

#180 | JULHO DE 2023

“Imagens e palavras sempre foram inseparáveis para mim, e se alimentam mutuamente”
Exposição “Descer da nuvem”, Museu Judaico de São Paulo, 2022

Com uma trajetória de mais de 30 anos no campo da arte, a carioca Leila Danziger tem uma obra marcada pelo uso da página impressa. Jornais, livros, agendas e documentos históricos costumam ser ponto de partida e suporte para uma produção poética que se debruça sobre temas como história e memória, abordados tanto por meio de seu caráter coletivo e social quanto por um viés pessoal e familiar. 

Seus trabalhos se desenvolvem em diferentes meios como fotografia, pintura, vídeo e instalação. Muitas vezes, a artista faz uso de técnicas de impressão e apagamento, velando páginas, textos e notícias. Utiliza-se de tintas e carimbos para criar novas camadas de sentido em papéis que guardam o tempo. Ao sobrepor o texto impresso com blocos de cor, ou propor recortes e montagens a partir de páginas diversas, Danziger gera uma nova escrita sensível e seletiva. 

A palavra escrita também se faz presente em sua produção, seja através de frases de poemas que figuram em suas obras, seja em sua própria produção como poeta. Danziger é autora de quatro livros de poesia: Três ensaios de fala (2012), Ano novo (2016), C’est loin Bagdad [fotogramas] (2018) e Cinelândia (2021). Ao longo de sua carreira, tem participado de inúmeras exposições individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. 

Luísa Kiefer – Gostaria de começar recapitulando brevemente o início: tua formação em artes visuais na França, em Orléans, depois o mestrado e o doutorado no Brasil. Como foi esse período? 

Leila Danziger – Quando fui estudar na França não pensava em ser artista propriamente. Vinha de um trabalho com ilustração, para o qual me dirigi por um desejo vago pelo desenho – por gostar de desenhar, como tantos jovens que procuram as escolas de arte. E faço uma grande diferença entre esse desejo vago e uma decisão efetiva pelas artes visuais, o que aconteceu quando entrei em contato com certa reflexão sobre o trabalho de memória. Estava na França quando foi lançado o filme Shoah, de Claude Lanzman, e tanto esse lançamento quanto a descoberta de vários autores ligados à literatura de testemunho tiveram um enorme impacto sobre mim. A Segunda Guerra tinha uma forte presença na atualidade francesa nos anos em que morei lá, e isso foi um poderoso contraponto ao silenciamento das violências da história no Brasil, o que me fez pensar também sobre a história de minha própria família. 

Fui à França pouco depois da morte de Tancredo Neves, e voltei no momento em que Fernando Collor se elegeu. Fiquei fora do país todo o período do governo Sarney, sem vir de férias, e isso antes da existência da internet, claro… Foram quatro anos e meio de um distanciamento poderoso. E a volta foi brutal. Até hoje guardo a sensação de que muita coisa preciosa se perdeu nesse retorno.

Na década de 1990, não havia nenhuma receptividade no Brasil para essas questões da memória, que haviam me mobilizado tanto e que eu tentava enfrentar no trabalho artístico que estava começando. A universidade foi o lugar onde tentei encontrar alguma interlocução, mas naquele momento, no Rio de Janeiro, ainda não havia a pós-graduação para artistas propriamente, só havia pesquisa em história da arte. Então fiz o mestrado sobre Anselm Kiefer e o doutorado sobre os monumentos ao Holocausto em Berlim. 

LK – Tua obra também está ligada a tua história pessoal, filha de pai imigrante judeu que fugiu do nazismo. Poderia contar um pouco dessa história e como ela marca tua produção enquanto artista? 

LD – Sou filha de pai judeu, nascido em Charlottenburg, em Berlim, e mãe católica, nascida em São Cristóvão, na zona norte carioca, bairro especialmente carregado de histórias, onde tive minha casa-ateliê por dez anos. Meu pai e meus avós paternos vieram para o Brasil após a promulgação das leis de Nuremberg, em 1935, que foram limitando e suprimindo a cidadania dos judeus alemães. Mas a transmissão tanto da cultura judaica quanto das histórias familiares – do lado paterno e do materno também – se deram pelo silêncio, pela negação, pela brasilidade perfeita, digamos assim, modelada pelo esquecimento. 

Por outro lado, entendo também que o silêncio foi uma forma de impedir a transmissão do sofrimento, e qualquer ideia de ter sido vítima da história. O esquecimento seria uma forma de proteção, acreditavam. Só que há também formas de transmissão muito potentes que se fazem justamente pela negação e pelo silêncio.

Foi na França em que descobri não apenas as tantas histórias em que a minha família se inscreve, mas a própria necessidade de espessura histórica para conseguir trabalhar, e o gesto escavador, arqueológico, de buscar e reunir os restos. 

Acho que meu trabalho guarda essa marca de uma responsabilidade diante do que foi silenciado, esquecido, abandonado, extraviado. Meu trabalho se desenvolve sempre a partir de certa responsabilidade diante dos vestígios. 

LK – A memória, a ideia de pátria, as línguas (sobretudo o alemão e o ídiche), a história, são temas que atravessam tua poética de uma forma anacrônica. Não aparecem para falar apenas de um passado, falam também do presente. Como você vê essa relação entre passado e presente? 

LD – Minha formação na escola de belas artes na França foi num ateliê de gravura, e a gravura é essa arte das inscrições, dos vestígios, das marcas. Creio que a escrita poética e a produção artística surgem para mim de um mesmo centro – a necessidade de responder ao que se perde, ao que não tem lugar. 

Sobre o ídiche, que você menciona, é uma língua que teima em sobreviver, composta por vários idiomas, “percorrida por levas migrantes”, como disse Kafka em algum lugar.

Curiosamente, meu pai e meus avós não gostavam do ídiche. De uma forma muito paradoxal, que só fui entendendo aos poucos, eles se orgulhavam de falar Hochdeutsch, o alemão culto de uma certa burguesia, que se acreditava alemã, até serem expulsos da Heimat, a suposta pátria.

Nos últimos anos, a partir de uma série de convites, entrei em contato com muitos livros em ídiche, provenientes de bibliotecas desfeitas. São livros que perderam seus leitores e ninguém sabe o que fazer com eles. É preciso encontrar uma inscrição para eses livros no presente, criar uma biblioteca de línguas sobreviventes, talvez… Ou, quem sabe, repetir regularmente o alfabeto hebraico, o alef-beit, diante deles, como uma espécie de oração, de encantamento. 

Me lembro de várias versões de uma história chassídica em que os personagens estão perdidos em algum lugar e esqueceram tudo, menos o alfabeto hebraico, e quando um deles fala em voz alta o alfabeto, a memória é recuperada e surge um caminho possível, uma saída da ilha deserta em que se encontram.

Essa é uma história que adoro, recolhida por Martin Buber, em Histórias do Rabi. E talvez fale muito sobre o que procuro em meu próprio trabalho: construir esse fio de palavras, murmúrios, de restos e vestígios, com diversos materiais, inclusive as ruínas já produzidas pela internet, que me interessaram muito nos últimos anos.

Por outro lado, há também transmissões preciosas, e involuntárias, feitas pelas mulheres: minha avó materna e minha tia avó eram professoras em escolas primárias no Rio de Janeiro. E há todo um material desse universo que vem me interessando: os cadernos, os livros didáticos, em que surge uma ideia de pátria modelada na Era Vargas, com todas as suas contradições.

LK – Além de artista visual, você também escreve poesia e usa poemas em muitas obras. Qual a tua relação com a escrita e a literatura? 

LD – Nunca acreditei na pureza da visualidade, defendida por um certo modernismo. Imagens e palavras sempre foram inseparáveis para mim, e se alimentam mutuamente. Meus primeiros trabalhos em gravura eram textos apagados e reescritos sobre a matriz de metal. E eu sabia de cor os poemas que gravava no metal, sobretudo os do Edmond Jabès, um poeta judeu, de língua francesa, nascido no Cairo, que esteve no centro das minhas primeiras produções em artes visuais. 

Mas eu era uma leitora muito feliz, não tinha nenhuma produção poética na gaveta, sequer sonhava em escrever poesia. O desejo de escrever, a aventura da escrita propriamente dita, como fala Marguerite Duras – aquela atividade que nos leva não se sabe bem em que direção –, começou quando eu era professora na Universidade Federal de Juiz de Fora. Eu passava seis horas por semana no ônibus entre o Rio de Janeiro e Juiz de Fora. Para suportar o tempo vazio desses trajetos, criei um exercício para mim mesma, que era escrever a cada viagem, a partir de um disparador, que poderia ser o ruído feito por alguém comendo biscoito, ou as disputas silenciosas por espaço com o vizinho da poltrona ao lado. Dali surgiu uma série de crônicas, devidamente engavetadas, mas que me fizeram entender que havia surgido um desejo de escrita, que era autônomo em relação às artes visuais.

LK – Como é teu processo de criação e o teu local de trabalho? 

LD – O espaço do ateliê é fundamental para mim. Quando meu filho era criança, eu o ouvi apresentando nossa casa aos amigos, e ele dizia assim: “Eu moro num ateliê… com quartos”. Acho a imagem perfeita. O ateliê é todo o espaço da casa, algo expansivo, que vai modelando a vida. Reunir casa e ateliê é também uma forma de não deixar que o tempo dedicado à minha atividade como professora na universidade impeça o trabalho artístico. Trabalhar todo dia, ou, pelo menos, não me afastar do espaço onde os processos são vividos, é uma decisão cotidiana. 

LK – Além de artista, você também é pesquisadora e professora da UERJ. 

LD – Em relação à universidade, experimento um esforço constante para não deixar que a forma como o conhecimento é produzido em outras áreas, mesmo o das ciências humanas, modele os processos artísticos. É importante estar em diálogo com outras áreas, mas não se deixar formatar por elas, não produzir a partir de conceitos e conhecimentos pré-existentes, que assujeitam a experiência artística, transformando a arte em comentário ou ilustração de conhecimentos já existentes. É importante que a arte ocupe espaço na universidade, sempre de forma crítica, afirmando sua forma específica de existir, que para mim é ligada justamente a um “não saber”. 

Por outro lado, a sala de aula é um espaço extremamente político, um lugar incrível, exigente, generoso, de trocas, e alguns alunos se tornaram interlocutores preciosos do meu trabalho. 

LK – Quais são os projetos futuros? Logo mais, ainda em outubro, você participa de uma exposição coletiva. 

LD – Em outubro, participo da 22ª Bienal Sesc_Videobrasil, que esse ano tem como proposta uma frase do poeta Wally Salomão: “A memória é uma ilha de edição”. 

Meu trabalho é uma banca de jornal, que retoma uma instalação que fiz no campus da UERJ, em 2011, quando aluguei uma banca de um jornaleiro que foi desalojado do espaço que ocupava, há mais de 20 anos, por um processo de gentrificação ocorrido na própria universidade. 

A banca para o Videobrasil, produzida especialmente para a exposição e que estará no térreo do SESC 24 de maio, em São Paulo, vai apresentar três vídeos e várias séries, feitas com jornais apagados, uma série muito extensa que chamo Diários públicos

É uma série iniciada há 20 anos, que segue em processo, e que entendo como uma forma de leitura por extração, em que apago seletivamente os textos dos jornais, deixando apenas uma foto, uma frase ou um resto de cor. Sobre essas páginas seletivamente apagadas, é carimbado um verso ou frases de vários autores – Paul Celan, Primo Levi, João Cabral, Drummond, Ana Cristina César, Cecília Meireles. 

Para esse trabalho no Videobrasil, há uma série feita em diálogo com um poema do Wally Salomão, em que ele anuncia: “Vem vindo que vem vindo um vento/ Que vem vindo um vento sem pé nem cabeça/ Que nem antena de louva a deus detecta/ Vem vindo que vem vindo um vento”.

Nessa instalação, que se chama O que desaparece/o que resiste, há também uma série de jornais organizados a partir de uma frase minha – “Para alguém que nasce hoje” –, que endereça o trabalho ao futuro e anuncia um tempo sempre a vir. 

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