#180 | JULHO DE 2023

Autora reflete sobre o escrever em Elena Ferrante, Maria Gabriela Llansol e Virginia Woolf
Em 1925, Virginia Woolf publica The Common Reader, sua primeira e mais conhecida coletânea de ensaios, na qual foi incluída uma versão editada do texto Ficção moderna, publicado originalmente seis anos antes. Entre 1919 e o ano da eclosão da crise econômica das minas de carvão no Reino Unido, James Joyce publica Ulysses (1922), que moveu as peças do jogo de relações entre autor-narrador, narrador-personagens e personagens-personagens, desvelando uma visão singular sobre a literatura.Em Ficção moderna, Woolf alude à Joyce em sua defesa sobre o escrever: para ela, não existiria um método único de escrita ficcional. Mais do que analisar meios ou artifícios próprios da escrita, Woolf examina a forma como quem escreve percebe a realidade. Suas reflexões se voltam ao exame de uma espécie de disposição necessária ou pertinente à escrita, sem limitar-se ao aspecto mental do ato em si – importa entender o significado de habitar/ser um corpo que escreve.Woolf, que sempre pensou a literatura para além de seus aspectos formais, circunscrevia os atos de ler e escrever como formas de habitar espaços, existir e coexistir. Grande parte de sua produção ensaística e ficcional é fruto do desejo de delinear uma concepção de estar no mundo e escrevê-lo — construção da ordem do subjetivo, dada perante uma realidade cujo acabamento parece, em última instância, inatingível. Se escreve para chegar mais perto da vida, ela diz. Ainda assim, o corpo que empunha a pena, esteja ele ou não sob um teto todo seu, é difícil de ser delimitado em linhas claras. A questão que se desdobra é a de como conciliar o que sabemos (ou pensamos saber) sobre o corpo que escreve e o que se escreve a partir desse corpo, resultado de um processo mental que conjecturamos impalpável.Em O que é um autor? (1994), Foucault analisa o conceito de autor a partir da relação do texto com o sujeito da escrita, isto é, a forma com a qual o texto atesta a existência dessa figura que escreve – e que é exterior e anterior a ele. Para o filósofo, o hiato provocado pela “morte do autor” é suplementado pela ideia de uma função autor, construída em diálogo com aquilo que se escreve. Esse fenômeno, fruto do ato de escrever, assume-se como condição imperiosa, pois o primeiro passo para a escrita situa-se no espaço de compreensão do exercício de uma prática que dá lugar a enunciados novos, segundo os quais pode, enfim, ser modificada.Ao escrever, tudo aquilo que se apresenta como dado e evidente, desvela-se enfim como fabricação particular de um sujeito em determinado momento histórico. Para Blanchot, o “ele” que toma lugar do “eu” no momento da escrita era vetor de um sentimento de profunda solidão: “‘ele’ sou eu convertido em ninguém, outrem que se torna outro”. (BLANCHOT, 2011, p. 19) A ideia da escrita como lugar de abertura para uma exterioridade também é evocado por Deleuze e Guattari na introdução de O Anti-Édipo (1972), sob o argumento de que a prática da escrita só pode se realizar no deslizamento para um “fora” das linhas que delimitam territórios particulares. Assim, escrever daria-se em eterno contrapelo entre exterior e interior, íntimo e coletivo, entre o sujeito que escreve e o sujeito que lê (pois escrever também é a história do que já lemos e do que estamos lendo, da qualidade de nossas leituras).A solidão evocada por Blanchot poderia assumir, ao contrário, uma função conectiva: escrever, sobretudo a partir de nossas histórias pessoais, pode fazer com que percebamos as forças que ligam essas histórias ao mundo que nos transcende. Esse conhecimento não surge com facilidade e rapidez, mas diz respeito ao que Albert Camus chamou de “criar perigosamente”. Para isso, a escrita necessitaria do máximo de ambição, do mínimo possível de preconceitos e de uma desobediência deliberada.Para Foucault, como elemento do treino de si, a escrita também assumiria uma função etopoiética, operando na transformação da verdade em ethos. Em Woolf, a verdade da escrita é nomeada como “momentos do ser”, fulguras que nos permitem perceber em nosso interior maneiras repentinamente novas de estar no mundo. Para Elena Ferrante, a verdade literária estaria ligada à palavra: jamais baseando-se em qualquer pacto autobiográfico, jornalístico ou jurídico, a verdade é a verdade desencadeada exclusivamente pela palavra, e se esgota, em tudo e por tudo, nas palavras que a formulam. Ela é diretamente proporcional à energia que conseguimos imprimir à frase, capaz de “reanimar, ressuscitar, sujeitar todas as coisas às suas necessidades” (FERRANTE, 2017, p. 281). Em Blanchot, a verdade está no vazio que funda a palavra: a cada investida da linguagem, ela rompe-se, uma vez que a palavra não basta para a verdade que contém. Como se obtém essa verdade é assunto para outra hora. Ainda sobre a noção foucaultiana da escrita como <> em correlação com o escrever enquanto ato de criação de um lugar a partir de onde falar (o que é ser escritor? como é o processo da escrita? quem diz eu?), convém sublinhar algumas das principais aparições desse eu que escreve: crônicas, memórias, confissões, cartas e diários aludem a um jogo entre eu-autor e eu-personagem muitas vezes situados em um entrelugar na escrita literária. Os diários, sobretudo, uma vez calcados na ideia de continuidade, funcionariam como processo transversal de toda a ação de escrita de si, intervindo por releituras e reescritas, fruto de uma série de reflexões e reações que mutuamente se estimulam. A essa prática, a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol referiu-se como “escrever diário”, gesto duplo referente à forma e ao método: escrever para apreender no texto a experiência do tempo; colocar-se a escrever diariamente no interior do cotidiano. No diário, o sujeito poderia encontrar uma espécie de refúgio para a exploração da escrita, compreendendo com acuidade a passagem entre a esfera cotidiana e o texto.Llansol, que elevou a correlação entre escrita, verdade e ethos a outro patamar – a escritora, além de empreender o desafio de abandonar paradigmas literários e renovar a estética do romance, também implicou-se na construção de outra proposta ética: como continuar humano? –, fez do diário seu laboratório de escrita, menos pela perspectiva da descrição autobiográfica e mais pelo exercício de tentar compreender (e escrever) a passagem ou os efeitos do viver sobre a escrita e da escrita sobre o viver.“Noto que eu não espero para escrever, nem deixo de escrever para passar pela experiência que produz a escrita; tudo é simultâneo e tem as mesmas raízes, escrever é o duplo de viver; poderia dar, como explicação, que é da mesma natureza que abrir a porta da rua, dar de comer aos animais, ou encontrar alguém que tem o lugar de sopro no meu destino.” (LLANSOL, 2001, p. 40)Llansol sabia que nos diários conseguimos perceber, talvez com maior resplandecência do que em outros gêneros literários, o entrelaçamento, sempre marcado por tensões, entre sujeito, espaço e história, estabelecendo contradições entre corpo, pensamento e escrita. Seus diários são uma espécie de provocação à figura do escritor que encontra, em seu quarto fechado, asséptico e burguês, o conhecimento capaz de engrenar a criatividade literária. Ela reorganiza a ideia do diário como literatura resultante de uma figura patriarcal e individualista, questionando-o a partir de seu universo — “corpo de mulher em exílio, apátrida e ferida pelos ouriços do poder”. (CAMPOS, 2019, p.1)Resultado disso é uma escrita que se apresenta como <>, à medida em que se situa em oposição ao escrever masculino, engessado e fixo às regras clássicas do escrever bem. Llansol escreve não a partir da função ou da profissão escritora, mas sim de um <>, de um <>, intensificados, sobretudo, pela experiência do exílio. Escrever, em Llansol, é exercício contínuo, aprendizagem e, portanto, incerteza. Repetição e dispersão.Marguerite Duras, em seu tocante ensaio Escrever, alude a esse sentimento intempestivo e impalpável da escrita: “No momento em que se está perdido e que, portanto, não se tem mais nada a escrever, a perder, escreve-se”. Escrever como escolha e necessidade, um fluxo, uma água que escorre e que é, ao mesmo tempo, a continuação de um fio dourado a partir do qual se narra: a língua que falamos onde nascemos e crescemos, as histórias que ouvimos, a ética que adquirimos, a voz literária que no texto conseguimos imprimir, todos esses fragmentos de uma longa história. Para esse fenômeno, Ferrante elabora uma belíssima imagem: a da escritora que, mesmo quando para, mesmo quando se ocupa do cotidiano, mesmo no sono, escreve.Para ela, não há escapatória. A única possibilidade é aprender a redimensionar o próprio eu, despejá-lo na obra e ir embora. Considerar a escrita aquilo que se separa de nós assim que se completa: um dos muitos efeitos colaterais da “vida ativa”.Sofia Perseu é pesquisadora e museóloga em formação pela UFRGS, desenvolvendo projetos interdisciplinares em literatura e arte educação, como o Orelha, plataforma de pesquisa e produção de conteúdo sobre livros e literatura, e o livro Viagem para dentro de mim – Experiências poéticas em arte educação (2020). Além de ter passado pela Livraria Baleia como livreira e produtora cultural, coordenou o Educativo da Associação Cultural Vila Flores (2019 – 2021) e integrou o Projeto Educativo da 13ª Bienal do Mercosul. Atualmente, faz parte da equipe de coordenação do Educativo da Casa de Cultura Mario Quintana.
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