Editorial, Parêntese

Editorial 28: Respirando bem?

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Editorial 28: Respirando bem? Não vai mais ser possível respirar do mesmo jeito. Não por causa da Covid-19, que complica a respiração, mas pelo joelho assassino daquele policial no pescoço do George Floyd.  Oito minutos, alguém contou: oito minutos, o tempo de duas canções, dois cigarros, um começo de passeio a pé, as preliminares do amor, umas páginas de romance, a abertura de uma sinfonia ou de um filme. Tempo suficiente para esganar um sujeito indefeso, imobilizado, sob a custódia do Estado mediante quatro de seus agentes credenciados e treinados, e assassinado por um joelho indiferente ao seu aviso, “Não consigo respirar”.  Oito minutos que gastaram o que sobrava da vida do George Floyd, que (diz a Wikipedia) jogou basquete amador, praticou hip-hop, foi sentenciado por assalto a mão armada, saiu da cadeia e mudou de cidade para reiniciar a vida; dirigiu caminhão e foi segurança de restaurante, por cinco anos, num emprego que dançou agora, com a quarentena. Deixa duas filhas, a viúva e um rastro de legítimo ódio contra o racismo. Publicidade George Floyd era negro. Aqui na redondeza, não esqueçamos, o angolano radicado em Goiás Gilberto Almeida, de passagem para uma visita ao Rio Grande do Sul, foi baleado e depois preso (doze dias), porque estava num carro de aplicativo dirigido por um fugitivo. (A outra passageira, amiga dele, morreu, também das balas.) Gilberto nada tinha que ver com nada e pedia para ser ouvido, porque era inocente, mas os policiais, treinados e credenciados como seus pares americanos, o ameaçaram de morte, quando já o tinham algemado e ferido: “Tu vai sangrar até morrer”.  Gilberto também é negro.  Como era o menino João Pedro Mattos, 14 anos, morto em sua casa. Como era o guri Miguel Otávio, 5 anos, pernambucano. Ar para respirar, horizonte para ver: coisas de que nós aqui dispomos, coisas que a Parêntese traz em abundância.  Para o sentido literal da coisa, convido os leitores a mergulhar nas imagens do LOPERE e na conversa com o Maurício Cruz, que inventou uma maravilhosa plataforma para melhor olhar e respirar os ares do pensamento livre. Aposto que vai ser uma leitura comovente, que um artigo da Renata Requião ajuda a configurar. A reportagem da semana também ajuda a olhar para o futuro: como será a mobilidade urbana depois da pandemia? Faz umas semanas falamos do futuro da orla do Guaíba, e agora falamos da trama das ruas por onde a vida escorre, tem que escorrer. As fotos da Tânia Meinerz fazem um sensível par com a reportagem, dando a ver uma série de cenas urbanas, quase sempre com gente destacada. Cidade, mas em sua face misteriosa e tantas vezes apagada, é o que nos oferece o material de Frederico Bartz, que pesquisa, como historiador, a memória da vida do trabalho (talvez devesse escrever Trabalho) – os lugares, as construções, os prédios, as ruínas onde gente se reuniu para lutar pela vida. Com ele, inauguramos uma nova seção, “Mistérios parciais de Porto Alegre”. Esse mesmo passado que Arthur de Faria vem […]

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Não vai mais ser possível respirar do mesmo jeito. Não por causa da Covid-19, que complica a respiração, mas pelo joelho assassino daquele policial no pescoço do George Floyd.  Oito minutos, alguém contou: oito minutos, o tempo de duas canções, dois cigarros, um começo de passeio a pé, as preliminares do amor, umas páginas de romance, a abertura de uma sinfonia ou de um filme. Tempo suficiente para esganar um sujeito indefeso, imobilizado, sob a custódia do Estado mediante quatro de seus agentes credenciados e treinados, e assassinado por um joelho indiferente ao seu aviso, “Não consigo respirar”.  Oito minutos que gastaram o que sobrava da vida do George Floyd, que (diz a Wikipedia) jogou basquete amador, praticou hip-hop, foi sentenciado por assalto a mão armada, saiu da cadeia e mudou de cidade para reiniciar a vida; dirigiu caminhão e foi segurança de restaurante, por cinco anos, num emprego que dançou agora, com a quarentena. Deixa duas filhas, a viúva e um rastro de legítimo ódio contra o racismo. Publicidade George Floyd era negro. Aqui na redondeza, não esqueçamos, o angolano radicado em Goiás Gilberto Almeida, de passagem para uma visita ao Rio Grande do Sul, foi baleado e depois preso (doze dias), porque estava num carro de aplicativo dirigido por um fugitivo. (A outra passageira, amiga dele, morreu, também das balas.) Gilberto nada tinha que ver com nada e pedia para ser ouvido, porque era inocente, mas os policiais, treinados e credenciados como seus pares americanos, o ameaçaram de morte, quando já o tinham algemado e ferido: “Tu vai sangrar até morrer”.  Gilberto também é negro.  Como era o menino João Pedro Mattos, 14 anos, morto em sua casa. Como era o guri Miguel Otávio, 5 anos, pernambucano. Ar para respirar, horizonte para ver: coisas de que nós aqui dispomos, coisas que a Parêntese traz em abundância.  Para o sentido literal da coisa, convido os leitores a mergulhar nas imagens do LOPERE e na conversa com o Maurício Cruz, que inventou uma maravilhosa plataforma para melhor olhar e respirar os ares do pensamento livre. Aposto que vai ser uma leitura comovente, que um artigo da Renata Requião ajuda a configurar. A reportagem da semana também ajuda a olhar para o futuro: como será a mobilidade urbana depois da pandemia? Faz umas semanas falamos do futuro da orla do Guaíba, e agora falamos da trama das ruas por onde a vida escorre, tem que escorrer. As fotos da Tânia Meinerz fazem um sensível par com a reportagem, dando a ver uma série de cenas urbanas, quase sempre com gente destacada. Cidade, mas em sua face misteriosa e tantas vezes apagada, é o que nos oferece o material de Frederico Bartz, que pesquisa, como historiador, a memória da vida do trabalho (talvez devesse escrever Trabalho) – os lugares, as construções, os prédios, as ruínas onde gente se reuniu para lutar pela vida. Com ele, inauguramos uma nova seção, “Mistérios parciais de Porto Alegre”. Esse mesmo passado que Arthur de Faria vem […]

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