Parêntese, Revista Parêntese

Editorial: Parêntese 11

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Editorial: Parêntese 11 É preciso muito cuidado com o que se lê na internet, disse Machado de Assis. Não, Machado de Assis não disse isso, porque em seu tempo (1839-1908) a internet não era nem uma hipótese. Machado tem boas frases, muitas das quais ele pôs na boca de personagens seus. “Antes cair das nuvens que de um terceiro andar”, disse aquele cínico Brás Cubas. O mesmo que disse, com sabedoria e sangue frio: “Suporta-se com paciência a cólica do próximo”. Grande Machado. Semana passada, este editorialista cometeu um erro ao dar como de Millôr Fernandes, um frasista profissional, a sentença “Jornalismo é reportagem – o resto é armazém de secos e molhados”. Quem deu o toque foi a Marlise Brenol, com olho atento ao lance. A frase do grande filósofo do Méier é “Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.  O tiro caiu longe do alvo. Mais ou menos, na verdade. Reportagem é aquilo que mostra, narrando, algo que de algum modo se opõe ao que sabemos, ou não sabemos, e muitas vezes se opõe diretamente ao poder, seja ele qual for. Hoje, por exemplo, Parêntese reporta um desses lances que, se a gente não se cuida, passa por verdade, de tanta beleza que a manchete continha. A prefeitura de Porto Alegre ia reformar, repaginar, refazer nada menos que 600 praças da cidade – assim se anunciou. Fernanda Wenzel conta o que acontece de fato, acima e abaixo dessa tão simpática ideia. Entrevistamos hoje um sociolinguista, Carlos Alberto Faraco, autor de uma excelente História sociopolítica da língua portuguesa. Um guia para entender o mapa atual do tema. O ensaio fotográfico hoje retrata uma performance: arte que degela, arte que se desfaz, concebida por Patrick Tedesco, também fotógrafo.  Nos textos, a qualidade de sempre, modéstia posta de lado. Estão aí José Falero e Nathallia Protazio, nossos cronistas da semana, ao lado de uma lembrança do papel e da obra de Roger Scruton, por José Francisco Botelho, e de um passeio pela arte do autógrafo, ciceroneado por Antônio Carlos Secchin. As seções mais ou menos fixas da semana são “A palavra é”, com a Cláudia Laitano esclarecendo o termo “caucus”, em voga pelas primárias estadunidenses, “Porto Alegre, uma biografia musical”, com Arthur de Faria oferecendo o capítulo 4 da história do rock sulino, e “Retrato escrito”, com Katia Suman visitando a singularíssima obra de Cardoso. Falando em “mais ou menos fixas”, volta Machado de Assis à lembrança: o mesmo Brás Cubas, no capítulo IV de suas Memórias póstumas, fala de uma ideia fixa, que o levou à morte. Quão fixa era a ideia? O filósofo Cubas compara: “Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica”. E fica o leitor tentando entender esse padrão de fixidez, que mistura a lua, que muda a cada semana, as pirâmides, que de fato parecem sólidas como… uma pirâmide egípcia, e uma certa dieta germânica, que não há mais.  Não […]

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É preciso muito cuidado com o que se lê na internet, disse Machado de Assis. Não, Machado de Assis não disse isso, porque em seu tempo (1839-1908) a internet não era nem uma hipótese. Machado tem boas frases, muitas das quais ele pôs na boca de personagens seus. “Antes cair das nuvens que de um terceiro andar”, disse aquele cínico Brás Cubas. O mesmo que disse, com sabedoria e sangue frio: “Suporta-se com paciência a cólica do próximo”. Grande Machado. Semana passada, este editorialista cometeu um erro ao dar como de Millôr Fernandes, um frasista profissional, a sentença “Jornalismo é reportagem – o resto é armazém de secos e molhados”. Quem deu o toque foi a Marlise Brenol, com olho atento ao lance. A frase do grande filósofo do Méier é “Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.  O tiro caiu longe do alvo. Mais ou menos, na verdade. Reportagem é aquilo que mostra, narrando, algo que de algum modo se opõe ao que sabemos, ou não sabemos, e muitas vezes se opõe diretamente ao poder, seja ele qual for. Hoje, por exemplo, Parêntese reporta um desses lances que, se a gente não se cuida, passa por verdade, de tanta beleza que a manchete continha. A prefeitura de Porto Alegre ia reformar, repaginar, refazer nada menos que 600 praças da cidade – assim se anunciou. Fernanda Wenzel conta o que acontece de fato, acima e abaixo dessa tão simpática ideia. Entrevistamos hoje um sociolinguista, Carlos Alberto Faraco, autor de uma excelente História sociopolítica da língua portuguesa. Um guia para entender o mapa atual do tema. O ensaio fotográfico hoje retrata uma performance: arte que degela, arte que se desfaz, concebida por Patrick Tedesco, também fotógrafo.  Nos textos, a qualidade de sempre, modéstia posta de lado. Estão aí José Falero e Nathallia Protazio, nossos cronistas da semana, ao lado de uma lembrança do papel e da obra de Roger Scruton, por José Francisco Botelho, e de um passeio pela arte do autógrafo, ciceroneado por Antônio Carlos Secchin. As seções mais ou menos fixas da semana são “A palavra é”, com a Cláudia Laitano esclarecendo o termo “caucus”, em voga pelas primárias estadunidenses, “Porto Alegre, uma biografia musical”, com Arthur de Faria oferecendo o capítulo 4 da história do rock sulino, e “Retrato escrito”, com Katia Suman visitando a singularíssima obra de Cardoso. Falando em “mais ou menos fixas”, volta Machado de Assis à lembrança: o mesmo Brás Cubas, no capítulo IV de suas Memórias póstumas, fala de uma ideia fixa, que o levou à morte. Quão fixa era a ideia? O filósofo Cubas compara: “Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez a lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica”. E fica o leitor tentando entender esse padrão de fixidez, que mistura a lua, que muda a cada semana, as pirâmides, que de fato parecem sólidas como… uma pirâmide egípcia, e uma certa dieta germânica, que não há mais.  Não […]

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