Editorial, Revista Parêntese

Parêntese 59: Dá pra rir, dá pra chorar

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Parêntese 59: Dá pra rir, dá pra chorar Tragédia de Brumadinho - busca dos bombeiros por corpos de desaparecidos. Foto: Gabi Di Bella /Direitos Reservados

Tem um samba parente de filosofia zen, acho que de autoria do Billy Blanco, chamado “Samba chorado”, que diz que o que dá pra rir dá pra chorar. Vivo me lembrando desse refrão, ao olhar as coisas dessa estranha vida. Mas não é bem isso que interessa agora. Eu queria dizer que a gente chora e ri muito. Nessa semana, então…

Dia 17: notícia do começo da vacinação no Brasil. Incerto e problemático, mas já dá pra rir intimamente.

Dia 18: um email carinhoso me avisa que faleceu, por causa da Covid, uma excelente pessoa, Enoi Salete Riegel, que conheci apenas virtualmente. E por esse etéreo caminho armamos uma linda, sensível, amorosa matéria, feita pela Lolita Beretta, porque a Enoi tinha consigo diários manuscritos que começou a fazer ainda adolescente. E agora, já avó, deu a conhecer “Uma vida escrita à mão“, por nosso meio, aqui na revista. Chorei, por dentro e por fora, como cabia. 

(Se eu for chamado a algum juízo para defender a existência da Parêntese, posso levar apenas este exemplo: a revista existiu para fazer Enoi Salete Riegel mostrar seu tesouro.)

Dia 20: Joe Biden toma posse como presidente dos Estados Unidos. Sucedendo o truculento dono daquele toldo ridículo, aquele topete engana-ninguém, que rima perfeitamente com o conjunto da pessoa e sua ideologia, tudo falso e ridículo. Alegria discreta. 

Mesmo dia 20: o Fórum Nacional de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro, seção gaúcha, envia carta ao novo prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo. Trata-se de uma crítica forte a ele, como cabe, pela transferência da Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre, órgão instituído por lei e responsável por muitas das edificações antigas que hoje orgulham a parte não-bárbara da cidade, que sempre funcionou legalmente ligada à Secretaria de Cultura, para a Secretaria de Meio-Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade. Esta secretaria se liga diretamente aos interesses da economia da construção civil, ao passo que a outra, a da Cultura, se liga muito mais aos valores de preservação cultural. O que vem por aí? O que alguns tubarões imobiliários querem devorar agora? Dá pra chorar por antecipação. 

Os dois choros, de diversa origem, se somam na nossa combalida alma, sufocada (não como em Manaus, onde irmãos nossos morrem por falta de ar, ou melhor, e antes, por falta de gerência correta da pandemia pelas autoridades federais da área, ou antes ainda, por falta de empatia civilizada), nossa alma sufocada por tanta mixórdia que temos sido obrigados a testemunhar. 

O que alivia é ouvir gente como o Roger Machado, entrevistado pelo competente parceiro Roberto Jardim, com fotos de Carlos Edler. Cidadão do mundo da inteligência e da sensibilidade, Roger é um exemplo excelente de como no meio do futebol, essa vitrine tão sedutora e tão propícia a futilidades, pode brotar o melhor humanismo.

Pablito Aguiar tem também outra de suas sempre vibrantes entrevistas com pessoas anônimas que fazem a roda da vida girar melhor. Nas fotos, Gabriella Di Bella nos mostra a triste beleza da tragédia de Brumadinho com o título Intraduzível.

Dois ensaios avançam na descrição da vida como ela se apresenta, para rir e chorar, conforme o caso. Paulo Coimbra Guedes segue sua conversa sobre as distâncias entre a língua escrita pernosticamente e a outra, aquela em que o Brasil se ensinou a expressar as coisas. Para gáudio dos leitores, Fernando Seffner volta à revista para um passeio, literal e metafórico, pelos nomes dos prédios de Porto Alegre.

Guto Leite organiza sua raiva numa crônica aguda contra o mal que faz a gestão federal a todo mundo, especificamente aos jovens que fazem este ENEM. Já Ana Marson nos brinda com mais uma de suas divertidas, amargas e profundas crônicas.

Nossas seções regulares trazem mais Arthur de Faria, com a história de um gênio musical, ou melhor dois, nascidos no estado. Eduardo Vicentini de Medeiros dá uma fina fatia da humanidade ao estudar o modo como Carolina Maria de Jesus via o casamento. E José Falero encerra uma história linda de sua juventude, no tempo em que, veja só, a Secretaria de Cultura de Porto Alegre, essa mesma, oferecia oficinas de músicas em regiões periféricas da cidade e dava assim caminho para talentos que estão, como sempre, por aí – a gente precisa é aprender a ouvi-los. 

Falando nisso, como é que diz o gênio aquele? “As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”. Sim, gênios também falam na língua do samba.

– Luís Augusto Fischer


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