Crônica, Parêntese

Eleições municipais

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Eleições municipais

A pior parte da Marcela ir passar o fim de semana na vó dela é eu ter de limpar a caixa de areia das gatas. Claro, eu poderia dizer que estar sem sua companhia nos únicos dois dias que tenho pra realmente ficar em casa é uma coisa ruim. Porém, às vezes eu gosto de ficar sozinha. Sem a presença de nenhum outro ser humano além de mim mesma pra dar conta. Ficar sem fazer nada é uma coisa, mas fazer nada com outra pessoa já se torna fazer algo. E neste ponto esta sexta eu estava muito cansada. Saudade. Solidão. Comer miojo. A tudo isso a gente sobrevive. Não traumatiza. Mas limpar uma caixa de areia é como eleições municipais, uma experiência sem volta.

Ela deve ser inclinada a 45 graus para que a areia seca se desvincule da areia úmida de urina. Com o auxílio de uma pazinha, retira-se a areia usada pelo felino e coloca-se num saco de lixo adequado para o descarte de material orgânico. Logo após é a vez dos excrementos sólidos. Para tanto, deve-se lançar mão do uso de uma pazinha com furos, dedicada para esta tarefa. Imita-se o ato de peneirar, assim a areia seca, pela diferença de granulação, irá passar através dos orifícios, ficando na pazinha apenas as fezes felinas. Estas devem ser descartadas no saco já mencionado para tal. Ao final da operação é importante adicionar areia limpa sobre a seca que restou na caixa e higienizar o local e os utensílios, descartar o material orgânico e lavar as mãos – beirando a neurose. Estima-se uma frequência diária ou sempre que necessário.

Caixas de areia me irritam tanto quanto samambaias em xaxins, água criando lodo em caixas de amianto, cachorros em coleira, palmeiras em vasos de cimento. Quer dizer. Caixas de areia me irritam tanto quanto jardins, a única diferença é o cheiro. O ser humano se acha muito esperto, resolve que vai fazer uns muros usando pedras pra separar o que ele quer cultivar daquilo que não lhe interessa. Então tem a divina ideia de domesticar animais. Só os fofinhos, óbvio. O problema é que a natureza é sagaz, e, como já sabemos – para evitar repetições recomendo a leitura do Gênesis 1 – tudo gira ao redor do cu. Neste caso o cu das gatas e o meu.

O cu das gatas porque elas moram aqui neste apartamento antes de minha chegada, então encontram-se no direito de usar a caixa de areia como já era de costume. Comem, dormem, dão três pulinhos por dia e me acordam pra colocar ração às 6h da manhã. Depois que elas têm absoluta convicção de que eu não vou mais conseguir voltar pra cama, voltam a dormir, enquanto eu me esforço pra entender como algumas pessoas mantêm este tipo de relação de forma deliberada. Tá, tudo bem. Concordo que são meigas e às vezes o que elas me transmitem beira uma paz por afeto. Porém, ainda não tenho 100% de certeza de que seja saudável. Aprisionar algo esperando que este lhe devolva de quando em quando faíscas de uma luz que possa ser confundida com amor. Não sei, me parece doentio.

Além disso, tem o meu cu. Ora, se nos considerarmos da mesma espécie, humanos que votam em Porto Alegre, o meu está no mesmo patamar que o seu: tá na reta. Não sei você, mas eu me lembrei direitinho das aulas ruins que tive sobre o nosso sistema eleitoral e político durante este ano. Se tem uma coisa que eu espero que você não se esqueça dessa pandemia, é de como rolou e andam rolando as quedas de braço pelas decisões de poder. Decisões que valem o uso ou não de máscara que pode salvar ou não tua vida, cacete. A gente tem um presidente digno de uma caixa de areia? Sim. Mas para além disso, tem um triste governo do estado e, em primeira instância, um infeliz municipal. Adivinha quem? 

Adivinha quem vai votar pra escolher pros seguintes quatro anos, pandêmicos ou não, distópicos ou sim, quem senta a bunda na prefeitura e na Câmara dos Vereadores? Pois é, também acho que seria mais seguro e menos fake esse ano a escolha ser feita por curtidas no perfil de Facebook de cada candidato, como foi pra presidente. Me pouparia pelo menos o risco de pegar Covid e mostrar a horrível foto ostentada no meu RG. Mas a julgar pela campanha de rua, a vacina fitoterápica que estão vendendo no camelódromo tá funcionando e só eu não tomei ainda. Eu, as gatas e nossos cus limpos trancafiados dentro de casa. Sinceramente. Anos de domesticação e seleção natural. Todo um trabalho sendo operado pela soberania terrestre para finalizar na caixa de areia na área de serviço. Puta que pariu. Eu me recuso a acreditar que os processos estão terminados. Quando, tanto felinos quanto candidatos, souberem usar o banheiro e dar descarga como se deve, eu vou concordar num processo de evolução concluído. Porque, né. Maturidade é ter autonomia. Liberdade. E hoje, eu me dizendo muito evoluída e livre, tenho que encarar todo dia os dejetos fecais de um animal que eu ouso chamar de subjugado. Por favor, quem tá limpando a merda de quem aqui?

Nathallia Protazio é pernambucana, farmacêutica vacinadora, e depois de ter morado em muitos lugares, incluindo São Paulo e Lausanne, Suíça, hoje vive em Porto Alegre. Lançou “Aqui dentro” pela editora Venas Abiertas. Disponível pelo Instagram da própria autora: @nathalliaprotazio.escritora

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