Em cena

Caderno de receitas de Janair (trechos)

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Caderno de receitas de Janair (trechos)

Publicado no e-book Outras Tramas: dramaturgias escritas por e para mulheres (Editora Maré, 2019), Caderno de receitas de Janair é uma peça escrita por Tamyres Batista. A autora do Espírito Santo, que tem sua produção voltada afetivamente para pessoas negras, escolheu retirar do silenciamento uma das personagens da literatura de Clarice Lispector. Quem protagoniza as cenas é Janair, personagem da obra A paixão segundo G.H.. O texto, segundo consta na apresentação da própria Tamyres, é “um passeio íntimo-coletivo nas paisagens de grande parte das mulheres negras que foram, são ou infelizmente serão empregadas domésticas”.

A peça traz uma Janair que interage com a plateia constantemente. E nesse jogo em que o palco e o público se tornam cena coletiva, a personagem faz uma incursão pela casa e fala “sobre as receitas e os sabores de sua vida”. 

Vejamos Janair em um trecho de Cena 1 – Sala:

(Sentada na poltrona, na postura de uma madame) Vocês vão ficando à vontade, eu vou sentar um pouco… A minha coluna às vezes dói, porque eu carrego o peso das consequências. Hum, ninguém acredita… já até me disseram foi uma porção de doença viu, escoliose, lombalgia, hérnia de disco, artrose, osteoporose…. Mas eu bem sei que isso é a consequência, ou mais precisamente o peso dela, sabe? O esforço que a gente faz pra manter as escolhas, e assumir um caminho que é nosso como se estivesse mesmo no controle da própria vida… aiaiai. Isso vai tudo pra coluna. Aí, dói. (Franze o rosto) Mas sentando assim eu já sinto um alívio. Tudo na vida é uma questão de postura. (Fala como se estivesse remendando alguém) “Postura e respiração”, (risinho de deboche) diria G.H. se ela estivesse aqui, chegando da aula de Yoga, mas como hoje ela não está, ficaremos somente com a resp… (se lembra de um aviso importante

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Publicado no e-book Outras Tramas: dramaturgias escritas por e para mulheres (Editora Maré, 2019), Caderno de receitas de Janair é uma peça escrita por Tamyres Batista. A autora do Espírito Santo, que tem sua produção voltada afetivamente para pessoas negras, escolheu retirar do silenciamento uma das personagens da literatura de Clarice Lispector. Quem protagoniza as cenas é Janair, da obra A paixão segundo G.H.. O texto, segundo consta na apresentação da própria Tamyres, é “um passeio íntimo-coletivo nas paisagens de grande parte das mulheres negras que foram, são ou infelizmente serão empregadas domésticas”.

A peça traz uma Janair que interage com a plateia constantemente. E nesse jogo em que o palco e o público se tornam cena coletiva, a personagem faz uma incursão pela casa e fala “sobre as receitas e os sabores de sua vida”. 

Vejamos Janair em um trecho de Cena 1 – Sala:

(Sentada na poltrona, na postura de uma madame) Vocês vão ficando à vontade, eu vou sentar um pouco… A minha coluna às vezes dói, porque eu carrego o peso das consequências. Hum, ninguém acredita… já até me disseram foi uma porção de doença viu, escoliose, lombalgia, hérnia de disco, artrose, osteoporose…. Mas eu bem sei que isso é a consequência, ou mais precisamente o peso dela, sabe? O esforço que a gente faz pra manter as escolhas, e assumir um caminho que é nosso como se estivesse mesmo no controle da própria vida… aiaiai. Isso vai tudo pra coluna. Aí, dói. (Franze o rosto) Mas sentando assim eu já sinto um alívio. Tudo na vida é uma questão de postura. (Fala como se estivesse remendando alguém) “Postura e respiração”, (risinho de deboche) diria G.H. se ela estivesse aqui, chegando da aula de Yoga, mas como hoje ela não está, ficaremos somente com a resp… (se lembra de um aviso importante

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ah, cuidado com as baratas viu, tem um monte no chão, eu coloquei remédio só na semana passada… A patroa detesta barata, mas ela são tão resistentes, sobem até aqui no alto do prédio, onde já se viu barata em último andar, gente? (Risadas) Eu, hein… sei de nada não… se elas tão aqui a culpa não é minha. 

A personagem negra de Tamyres Batista, despedida pela patroa branca de Clarice Lispector, ganha voz e toma os espaços da casa. Um dos recursos cênicos está nos ambientes criados pela autora capixaba. Quando muda a cena, muda o ambiente. Na Cena 2 estamos na cozinha. Além da plateia, Janair tem interlocução com a voz de Sandra, personagem que nunca aparece, mas que é voz sintonizada com a de Janair. 

Janair – Vocês devem até achar estranho dizer isso, mas de todos os cômodos esse é o que eu mais sinto que é meu… É… nem meu quarto é tão meu quanto a cozinha. Aqui eu imprimo meu ritmo, minha forma, meu contorno, meu gosto. (Põe um pouco de tempero na ponta dos dedos e prova) Aqui meu gosto se pronuncia com intensidade, meu tempero. É que G.H. não sabe nem fritar um ovo, então, esse espaço fica como sendo meu, (se sentindo agradecida) nem os pés ela coloca aqui… Tô contando isso pra vocês, mas não devia, a Sandra fica brava quando eu digo isso, acha uma bobeira sem fim eu me sentir proprietária do espaço alheio, mas sabem como é, né? Sentimento a gente não controla, só coloca borda, só coloca borda, só coloca borda… 

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Prepara os ingredientes, bate o bolo e passa o café enquanto conversa com as visitas, parece uma bruxa em puro exercício alquímico. 

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Janair – Mas Sandra é bobona. (Olha o telefone pra ver se tem mensagem dela) Diz isso pra mim porque a gente só consegue colocar olhar nas coisas dos outros. Aiaiai… ela mesma pegou um apego danado com as crianças dos Salustianos, se bobear até leite pinga do peito dela, tão duvidando? (Ri com certeza) Eu já vi isso no jornal já tá? Dizem que é quando o corpo tem afeto e sonha muito com alguma coisa ele produz de dentro dele mesmo… é… difícil, né? Mas a vida é assim. Ceis tão com fome? (Aponta para o público) Fome?

Janair é mulher preta de uma linhagem familiar que traz consigo o trabalho doméstico. Assim como ela, as outras histórias femininas de suas ascendência estão submetidas ao trabalho que serve às famílias brancas. Da sala para o quarto, da cozinha para a varanda. O espaço habitado, que não pertence a Janair, nessa encenação serve de palco para expressar a voz antes silenciada. 

A seguir encerramos com o trecho da Cena 7 – Lavanderia:

Ainda tentando experimentar as roupas da patroa, mas elas não cabem, não cabem. 

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Janair – Ela até que tem um bom estilo, elegante que só vendo. Mas ela é tão magricelinha, nem sonhando um corpo forte e generoso como o meu cabe nos panos dela. Também, acho que nada aqui é meu número. Nada, nadinha. Mas pelo menos não lavo roupa de família, só lavo roupa de mulher (Quando pronuncia a palavra mulher ela sai estranha). Acho que nem essa coisa de ser mulher a gente é do mesmo jeito, como se a gente fosse de dois países diferentes, morando na mesma casa. Nada, nada coincide. Por isso, que eu duvido muito de número de loja de sutiã, calcinha, blusa, calça e vestido feminino. Tabela que se preze nunca acerta. Trinta e oito nem sempre é um número que existe assim no corpo, muito menos quarenta e dois. Tudo, tudo vaza. Desconfiem, desconfiem quando disserem que o número de outras cabe pra vocês, na maioria das vezes, não passa nem da garganta. 

Para saber mais sobre a autora e ler o texto na íntegra, acesse: Outras Tramas: dramaturgias escritas por e para mulheres (Editora Maré, 2019) – Da página 262 à 273.


Ângelo Chemello Pereira é formado em Publicidade e mestrando em Literatura.

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