Ensaio

A cidade de um único prédio com nome

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A cidade de um único prédio com nome

Depois de muito trilhar em Porto Alegre, mapeando tendências em nomes de prédios, me coloquei como propósito buscar uma cidade próxima, com raridade de nomes de prédios. Desejava fazer um giro de 180 graus nas buscas. A escolhida foi Barra do Ribeiro, distante cerca de 60 quilômetros da capital, com pouco mais de 12 mil habitantes. 

Numerosas incursões foram feitas na cidade, e a questão central que me propus acabou sendo perceber como se dá o processo de nomeação de prédios e estabelecimentos comerciais nela. A chamada do título diz já de uma característica local. A esmagadora maioria da população mora em casas. Não há prédio algum com mais de três pavimentos, a saber, térreo, primeiro andar e segundo andar. Certamente não há elevadores na cidade, como não há semáforos nas ruas. 

Há na Barra (é comum referir-se à cidade simplesmente dizendo a Barra, ou na Barra) vários prédios residenciais. Entenda-se, edifícios, de pequeno porte, com número não superior a 6 apartamentos. Apenas um prédio tem feição propriamente de edifício de maior porte, já antigo, com dez apartamentos, e tem nome: Edifício Brasil. O que achei muito significativo. Não há espaço para estrangeirismos, porque há poucos prédios e os demais não ostentam nome. Matou-se o mal dos estrangeirismos pela raiz, e podemos pensar que o prédio fundador em matéria de nomes estabeleceu uma diretriz nacionalista neste quesito das nomeações. O Edifício Brasil tem belos desenhos com pastilhas azuis e brancas em combinação com arenitos, conforme se pode ver nas fotos do repositório.



Lembrando um costume antigo, achei uma única casa com nome, a Villa Maria, muito linda, com esculturas e decoração frontal. Há vestígios de nomeação em algumas outras casas centenárias, mas as sucessivas reformas de fachada não permitem mais a identificação. 



A cidade é marcada também por antigos engenhos e grandes armazéns, na beira do lago Guaíba, traços de uma época em que ela era um entreposto comercial importante, a abastecer Porto Alegre. Isso antes da construção das pontes que agora cruzam os vários rios que vem desaguar aqui. Alguns desses antigos engenhos têm nome, como é o caso do Engenho Santo Antônio, e até mesmo sigla, como ESA, claramente grafados nas paredes frontais. Em outros engenhos e depósitos, bem como em algumas casas antigas, o ano de construção parece ocupar função análoga ao nome, e se destaca no cimo da fachada, por vezes acompanhado de combinações de letras, que penso devem indicar o proprietário original ou o construtor, e das quais fiz registro de fotos que constam no repositório indicado ao final deste artigo. 



Vários dos prédios públicos, como é de costume, têm nome inserido na fachada, tais como Prefeitura Municipal, Fórum, Delegacia, Escola, Hospital, Unidade de Pronto Atendimento. Os demais têm placas indicativas. A famosa Fábrica de Gaiteiros (foto de destaque deste post), projeto do músico Renato Borghetti, em um antigo galpão, tem seu nome inserido acima da porta principal.

Nomear os prédios, com placas bastante visíveis, é o que ocorre com as igrejas aqui na Barra. Encontramos, por todo lado na cidade, prédios com sinalização evidente indicando Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, Ministério Apostólico na Mesa do Rei, Igreja Universal, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja do Evangelho Quadrangular, Primeira Igreja Batista Barra do Ribeiro, Igreja Adventista do Sétimo Dia, Igreja Evangélica Pentecostal Cristã, Assembleia de Deus Congregação Extremosa da Barra do Ribeiro, Comunidade Ágape Amor de Deus Barra do Ribeiro, Igreja Templo da Glória de Deus, e demais. 



O destaque fica com a Congregação Cristã no Brasil, com um templo de construção recente, uma igreja em miniatura, muito lindo, pequeno e acolhedor, painéis de vidro verde servindo de cerca, conforme se pode ver no repositório de fotos indicado em link ao final do artigo. Em todos os casos os templos religiosos ostentam placas muito visíveis com o nome, por vezes iluminadas à noite, e várias delas indicando que se trata da comunidade da Barra do Ribeiro. 

Há apenas um prédio religioso que não tem nome ou placa na frente, que é o da igreja católica. No caso, a Paróquia São José. Ficamos sabendo de seu nome ao ingressar no recinto e identificar a figura do santo, no altar. Sua alta torre se destaca na geografia da cidade, iluminada à noite, e as pessoas costumam indicar alguns endereços com frases como “depois da igreja”, “antes da igreja”, “para trás da igreja”, sem jamais referir seu nome. 

Já a pessoa que me indicou a localização de um supermercado o fez dizendo “fica ao lado da igreja da Universal”. Também as capelas da igreja matriz de São José, em dois bairros, não ostentam nome algum na fachada, mas se verifica serem capelas católicas pelo mapa da cidade. Encontrei apenas uma casa de religião afro, Mãe Kaka Xangô Agandju, sem identificação, mas que se reconhece pelos símbolos e estatuária vistos da rua, e porque fui perguntar. 

A capela funerária, mantida pelo município, denomina-se Capela Mortuária São José, seguindo a designação da igreja católica local. Ainda no tema da morte, a cidade tem três cemitérios. O maior, denominado Cemitério Municipal, com indicativo de placa, longe da cidade. Ao visitar e conversar com dois coveiros, senhores já de certa idade, numa agradável tarde de sol, foi possível saber que originalmente foi um cemitério católico. Por conta disso, os dois coveiros me indicaram que devia visitar tanto o cemitério “dos polacos”, quanto o cemitério “dos alemães”, onde estão enterradas pessoas de confissão religiosa das igrejas reformadas. Fui atrás dos dois cemitérios, que são de fácil acesso, mas sem indicativo de nome. Em um deles encontrei sepultura com versos de homenagem a Barra do Ribeiro: “…o Guaíba é beijado por este torrão amado, e abraçado no Ribeiro”.

Outra coisa claramente identificada por nomes aqui são as praias, com lindas placas – fotografei todas. Praia da Dona Rosa, praia do Canto da Mulata, da Santinha (no caso, Nossa Senhora dos Navegantes, com uma estátua, iluminada à noite, na saída da Barra), Praia do Quidinho, Praia do Pimpim. A última delas, no sentido norte, é a praia da Picada, e ao final dela, no que se poderia chamar de modo muito apropriado de “fim da Picada”, está o desaguadouro (a barra) do arroio Ribeiro, que dá nome ao município. O debate já de anos acerca da nomenclatura correta do Guaíba (Rio, Estuário, Lago ou Lagoa) deixou marcas nos nomes de estabelecimentos, como se pode ver em Butiquim do Lago, Pousada Recanto da Lagoa, Bar da Lagoa, Lancheria Beira do Rio, dentre outros nomes de estabelecimentos de frente para o corpo d’água. Não achei nenhum nome de estabelecimento com a palavra Guaíba, que é nome do rio, lago, lagoa ou estuário, e acredito que isso se deve ao fato de que, ao designar algo com a palavra Guaíba, aqui na Barra do Ribeiro, se estaria implicitamente homenageando o município ao lado, 



Observando um pouco “no varejo” os nomes das coisas por aqui, algumas lojas têm nomes sonoros, como Pur Poko, ou hilários, como Shop da Barra Multiloja, praticamente a fazer troça do imponente shopping da Barra do outro lado do lago. Dentre aquelas de moda feminina, destacam-se os nomes Terapia Feminina, Instinto Feminino e Loucas por Roupas. Nestas três designações estão resumidas as características de loucura, instinto e remédio que, no senso comum de grande parte das pessoas, define a relação das mulheres com o consumo de roupas, de modo absolutamente essencialista e patologizante. 



No quesito estrangeirismos, fiquei encantado ao encontrar uma loja de roupas com o nome de VISU ALL, indicando uma torção do nome estrangeiro em direção a um vocábulo muito nosso, a saber, VISU, e brincando com a sonoridade de “visual”. A foto está no repositório, e é linda de ver, a revelar com certeza mais inteligência na atribuição de nomes que utilizam vocábulos estrangeiros do que boa parte do que se vê em Porto Alegre. 



O rural e o urbano aqui convivem de modo entrelaçado, o que explica porque, praticamente no centro da cidade, duas quadras e meia distante da Prefeitura e dos bancos, temos o Sítio Vida Boa, assinalado por placa bem visível, com enorme área verde e ovelhas pastando na beira da calçada. A moda de barbearias com certo visual norte-americano e designação em inglês já chegou na Barra. Identifiquei estabelecimentos como La Barra Confraria Barber Shop, Trato Fino Barber House e Oficina da Barba Shop, em nítido contraste com os antigos salões de barbeiro, que aqui também existem, com nomes como Salão do Gildo ou simplesmente Barbearia. 

Grande parte das pousadas deriva seu nome do proprietário ou proprietária, antigo ou atual, em designações como Pousada da Cóca, Pousada Vô Artur, Pousada Vô Bastião, da Tia Celina, do Alemão, enquanto outras derivam de aspectos naturais, como Pousada da Figueira, da Barra, do Nascer do Sol. Há uma raridade de nomes estrangeiros nos estabelecimentos em geral, parece que essa moda ainda não chegou na Barra. 

As ruas aqui são bem guarnecidas de placas com seus nomes. Mas verifiquei que, ao indicar endereços, é muito comum que a pessoa refira a rua pela presença de algum estabelecimento conhecido nela situado, do tipo “é na rua da padaria da Simone”. Ao fornecer o caminho para o local onde eu poderia retirar a vianda do almoço, em conversa de whats, a cozinheira escreveu: “o senhor vem pela rua do parque, na esquina tem uma casa amarela grande, é na casa do lado, logo antes, o senhor bate, se eu não escutar ou estiver ocupada, a minha mãe lhe atende”. Em momento algum o nome da rua ou o número da casa foram fornecidos, e ao chegar lá verifiquei que tanto a rua tinha placa de nome quanto a casa tinha numeração visível. 

Esse universo da produção e fornecimento de comida, amplamente dominado por figuras femininas, me fez perceber a existência de alguns nomes pouco comuns, como Dona Síria, Dona Bartira, Dona Núbia, Dona Deusa, Dona Fefa. E quando duas mulheres de mesmo nome atuam no ramo alimentício, para evitar confusões a coisa se organizou: recebi os contatos da Tati dos salgados (que faz almoços) e da Tati dos doces (que faz cocadas). Pronto, nada mais simples e direto.

Por fim, o que é que não tem nome ou placa, mas todo mundo sabe onde fica, aqui na Barra? O mais evidente é a rodoviária, junto a Padaria e Cafeteria Tá em Casa. E o mais abundante são os incontáveis lugares onde se pode encomendar refeições (almoço ou janta) ou lanches, ou doces, e que todo mundo sabe indicar, mas que não possuem identificação ou placa de espécie alguma.

Ainda há o que explorar em Porto Alegre, e a ela retornarei, em diálogo com outros contextos. Mas não se compreende algo olhando apenas para esse algo, e sim olhando também o entorno, outras realidades que lhe sirvam de contraste. É o que estou no momento tentando fazer, e a primeira experiência foi na Barra do Ribeiro.


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  • Neste repositório também incluí fotos com aspectos típicos da geografia urbana da Barra do Ribeiro.
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  • Continuo estimulando que enviem fotos, nomes de prédios, curtas histórias sobre o assunto, ampliando as possibilidades de escrita. De Porto Alegre ou de qualquer outra cidade. Para isso, fica o contato, em [email protected]

Fernando Seffner é historiador e professor na Faculdade de Educação UFRGS.

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