Ensaio

A memória das pessoas e a história dos lugares: algumas diretrizes de resgate

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A memória das pessoas e a história dos lugares: algumas diretrizes de resgate Foto: Arquivo pessoal

Este é um texto em que desejo tratar, a partir de Porto Alegre, das memórias das pessoas e da história dos lugares em meio ao grande processo de destruição que ainda estamos vivendo. Minha hipótese é que a atual calamidade, fruto de uma enchente que se arrastou durante mais de um mês, chegou em um momento em que outros processos de destruição, mais lentos e insidiosos, já estavam operando na capital gaúcha. Estes diferentes processos de destruição colocam em risco nossa relação com o passado, cujas marcas podem desaparecer. Com o intuito de evitar este resultado, sugiro algumas diretrizes de resgate, que devem incidir sobre as memórias dos sujeitos e sobre nossa história coletiva.   

Durante a tragédia causada pelas cheias do Rio Grande do Sul, junto aos relatos de perdas humanas e materiais, circularam informações sobre o desaparecimento de memórias de pessoas e instituições que foram atingidas pelas águas. Algumas imagens chamaram atenção, como o esforço por congelar os antigos cadernos do Pão dos Pobres, visando parar sua deterioração ou a ação de membros do Colégio Concórdia, que colocaram para secar em varais as antigas fotos da escola. Me chamou a atenção (com bastante tristeza) um áudio compartilhado por um amigo, em que uma pessoa relatava a perda dos objetos pessoais que sua avó havia guardado com muito carinho para seus filhos e netos. No relato emocionado, uma das netas lembrava dos panos de prato, pintados e bordados, engomados e guardados com todo o carinho para que não perdessem sua forma; talvez se tratassem de antigos “Wandschöner”, os panos de parede guardados pelas “omas” da comunidade teuto-brasileira, que são valiosos tanto por sua beleza, como pelas suas mensagens.

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O caso relatado no áudio joga luz sobre uma destruição muito difícil de mensurar, que é aquela relacionada às histórias familiares daqueles que vivem nas regiões atingidas pela cheia. No caso de Porto Alegre, o prolongado tempo das inundações certamente dissolveu cadernos de receitas, cartas de parentes e certidões que as famílias guardavam com cuidado. Uma das diretrizes necessárias, neste momento, seria realizar um grande projeto de salvamento destes arquivos pessoais e familiares, utilizando a experiência das universidades e recursos do poder público para resguardar uma memória que acaba sendo compartilhada por muitos membros de uma mesma família ou comunidade. Além disso, seria necessário desenvolver projetos no sentido de recolher memórias através de relatos, inclusive para que as pessoas refletissem sobre sua história e o pertencimento aos lugares onde elas vivem. Isto se justifica pois, depois de grandes tragédias, sempre existe o risco de um êxodo e um esvaziamento das comunidades, pois muitos se mudam na busca de lugares mais seguros. As perdas não acontecem apenas quando papéis e fotos são destruídos, mas também quando as pessoas morrem ou vão embora de seus lugares de origem, sem deixar para trás nada registrado. 

Sobre este último ponto, também é necessário cuidar da história dos lugares, e digo isso não apenas no âmbito das memórias pessoais dos moradores, mas do significado histórico das regiões mais antigas da cidade, com suas ruas, praças e prédios centenários. Neste sentido podemos apontar que Porto Alegre tem sofrido, faz muito tempo, uma tragédia progressiva e mais silenciosa, que é a destruição de seu patrimônio histórico. Em regiões como a Cidade Baixa, Bonfim, Floresta ou Petrópolis, toma forma um processo acelerado de substituição dos antigos sobrados e casas de porta e janela, pelos prédios modernos, levantados pelas grandes construtoras. Muitas edificações destruídas apenas por serem “velhas” e estarem “bem localizadas”, guardavam histórias valiosas que foram apagadas junto com sua demolição. A cheia recente pode ter acelerado este processo. Em uma caminhada que realizei pelos bairros Floresta e São Geraldo, encontrei muito descaso do poder público, traduzido no lixo acumulado e no lodo nas sarjetas de ruas mais populares, enquanto em um local onde existia um megaempreendimento imobiliário, um serviço de limpeza particular deixava tudo em ordem. Esta diferença de tratamento (e de soluções) deixa claro que, a depender dos interesses econômicos envolvidos, alguns lugares podem ser esquecidos e outros precisam ser bem cuidados. 

Para o problema do descaso e do abandono, um levantamento meticuloso de nosso patrimônio histórico (que levasse em conta o avanço recente ocorrido nesta área), complementado com leis de incentivo e proteção às edificações, poderiam ajudar a mitigar esta onda de destruição. Outra movimentação importante seria a elaboração de um grande inventário da memória social de Porto Alegre, onde os lugares em que ocorreram fatos e processos históricos significativos seriam identificados e haveria um esforço para divulgar a sua importância. E aqui não me refiro apenas à história tradicional feita políticos, sacerdotes e generais, mas uma história dos trabalhadores, das mulheres, da comunidade negra, dos indígenas, dos imigrantes, daqueles que lutaram contra a Ditadura… Uma história que poderia estar gravada em placas, cartazes e monumentos, com informações a serem apropriadas pelo povo desta cidade.

A capital do estado sofreu um duro processo de destruição, cujas consequências ainda não temos uma ideia completa. É preciso resgatar a memória das pessoas, fazendo com que desde o presente conheçamos melhor o passado que está sob o risco de se perder, mas também é necessário salvar a história dos lugares, fazendo com que este passado distante chegue até o presente, iluminando seu sentido. Apenas assim nossa cidade poderá reconstruir sua identidade.


Frederico Bartz é mestre e doutor em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e trabalha como técnico em assuntos educacionais nessa mesma universidade, onde coordena o curso de extensão Caminhos Operários em Porto Alegre.

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