Ensaio

A metafísica dos cafés

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A metafísica dos cafés

“A categoria suprema da história do mundo, que a univocidade dos acontecimentos, é a culpa. Cada momento dessa história está marcado pela culpa e implica culpa. Causa e efeito nunca poderão ser categorias decisivas na estrutura da história do mundo, porque não podem determinar nenhuma totalidade”.

Anotações de Walter Benjamin, 1919


“Este velho é o tipo e o gênio do crime profundo. Recusa-se a estar só. É o homem da multidão. Será escusado segui-lo: nada mais saberei a seu respeito ou a respeito dos seus atos”.

Edgar Allan Poe, “O homem na multidão”, 1840


Decidi sentar-me neste café por ordem expressa do jogo. Ou seria do acaso? Ele me apareceu como alternativa quando, já evitados os olhares dos primeiros estranhos, a garoa que caía desde ontem decidira impor-se sobre a cidade no momento em que o observava pelas raras brechas das janelas. Não há originalidade nos cafés, sei bem, porque a própria ideia que se possui hoje desses estabelecimentos é a reprodução de alguma outra ideia do que deveria ser um café que, quando concebida, também estava contaminada pelo mesmo vazio. Sento-me em uma pequena mesa circular no canto oriental que me exibe, com um movimento, os frequentadores ocasionais, e com outro, os mendigos de uma praça qualquer, e me ponho a pensar. Tomando em ordem sincrônica e reversa todas as ideias anteriores de cafés que existiram até alcançar àquela primeva, talvez chegaria em alguma originalidade que, imaginada novamente a partir da minha posição nesta mesa e na história do mundo, permanece tão distante que é impossível até forjá-la. Sei, no entanto, que esse exercício não desembocaria em nenhum café, e posso concluir que mesmo o primeiro homem a inaugurar esse tipo de estabelecimento o fez para copiar algo similar que lhe era anterior. 

Os cafés, tanto esses pequenos restaurantes aos quais os filmes europeus e a maquinaria da publicidade emprestam um charme inventado quanto a bebida em si, cuja regra única e básica é ser consumida antes que esfrie, são dessas coisas que nunca são questionadas. São como todas as coisas. Já faz tempo que tenho pensado na fraqueza que elas revelam quando colocadas diante de qualquer pergunta. Não há coisas, há ideias de coisas. Para mim, porém, o café serve como abrigo da valentia abrupta da chuva do fim do dia e como sedutora depressão à minha busca: ele é, assim como o que acontece lá fora, ao nível da rua, a prova definitiva da potência do cotidiano. O seria também as lanchonetes, os bares, os balcões improvisados nas calçadas ou as padarias, cuja última grande mutação aconteceu na passagem entre as duas últimas gerações e as transformou de simpáticos estabelecimentos onde donas de casa compravam brioches e cigarros em conglomerados de comida onde o pão é só uma ideia abstrata e ingênua. A cidade, porém, me obstruiu diante da porta de um café, e perante tal força não existe contestação humana possível.

Me encanta, particularmente, o comportamento nos cafés. Digo no singular por convicção: as pessoas adaptaram-se aos mesmos modos de se sentar, correr pelas opções do cardápio, convocar algum garçom próximo ou gesticular os braços para sinalizar o início formal de uma conversação, motivo pelo qual aceitam passar algumas horas dentro desses estabelecimentos. É por isso que me divirto sempre que alguma tentativa de dotar cada ser humano da Terra com uma singularidade própria chega às minhas mãos — desde as grandes teorias sociais até aquele periódico entregue quinzenalmente nas esquinas cujos artigos fundem psicologia e misticismo. Isso não significa que recuso o argumento das várias formas de percepção da vida, porque, na verdade, é nelas em que acredito, mas que a pessoa deste século é tristemente previsível. 

Não há tantas pessoas diferentes no mundo. Ficaria mais satisfeito com alguma explicação que desse conta de uma distribuição mais ou menos justa, mas geograficamente desequilibrada, de tipos de gente. Aliás, é exatamente isso: um saco de pano tosco do qual alguma divindade, no início de tudo, foi tirando três ou quatro espécies diferentes de personalidades e jogando-as, como fazemos com o milho para alimentar as pombas nos parques, para suas criaturas famintas no chão que, agarrando-as, corriam para protegê-las como se fossem únicas. Assim foram as mesmas três ou quatro personalidades procriando no tempo enquanto se espalhavam no espaço. Isso esclareceria, por exemplo, a coincidência com a qual sempre me deparo ao conhecer gente tão semelhante em lugares tão remotos. Essa mulher que conta seu caso extraconjugal para uma, suponho, amiga, na mesa exatamente defronte à minha, pronuncia suas palavras com o mesmo sorriso discreto que eu costumava notar em uma garota pela qual fui apaixonado na quarta série. De qualquer forma, toda possível particularidade humana foi substituída por um mesmo comportamento – o que pode ser muito bem observado nos cafés.

Sentado provisoriamente neste que dei por parar, enquanto os apressados e os mendigos na rua insistem em desafiar a chuva, vejo, por exemplo, essa mulher que, minutos atrás, sentou-se duas mesas depois da minha, diante de uma porta desativada que, no passado, devia dar saída para a esquina, e que agora permite apenas uma rara observação da rua por quem está aqui dentro. Faz parte da categoria dos solitários, assim como eu, que adentram aos cafés, assim como aos bares, às livrarias ou às antigas igrejas pela possibilidade instantânea que eles oferecem em deixar o tempo se perder um pouco mais. Ao contrário da imensa maioria dos outros habitantes da cidade, essas minúsculas jornadas são exatamente o que lhes ritmam a vida, porque rompem com a miséria do ignóbil, com a potência do nada, com a insuportabilidade do efêmero, com a inconveniência da perambulação constante, dão alguma graça ao etéreo, musicam o silêncio, permitem um término paralelo. Posso perceber a dificuldade com que aceita que o chá, outra regra das sociedades, esfriou na xícara, e que, portanto, é chegada a hora de partir, mas também porque, do contrário, manter-se sentada fará com que o café deixe de preencher o vazio da existência para se transformar nele próprio. A chuva, para ela, é um alívio: adia por alguns instantes a percepção de que está só no mundo e atrapalha as atividades simultâneas ao redor, dando-lhe a impressão de que, ao menos por agora, divide o mesmo patamar de vida que todas as outras pessoas. 

O comportamento, porém, segue todas as obrigações: a frouxidão das mãos sobre as alças rígidas da bolsa com que surgiu no corredor, os óculos de aros grossos e pretos e a pronúncia acentuada da palavra francesa correspondente ao seu pedido exibem uma tentativa ridícula de se apresentar como um exemplar puro da classe média. Como era de se esperar, o gesto seguinte de cruzar a perna esquerda sobre a direita por debaixo da mesa seguiu exatamente a mesma engenharia que a da jovem do outro lado do salão segundos depois e das outras duas mulheres que compõem a amostra feminina momentânea. Então, num ápice do usual, vejo um livro pousando sob sua mesa, tirado da bolsa, com o qual acredita poder remediar novamente a solidão — nada mais blasé para um solitário do que sentar-se em um café, fazer um pedido estrangeiro e abrir um romance. Desde o século XIX esse é um costume típico dessa espécie de gente nas grandes cidades. Desconfio que não gostem dos livros, mas da ideia geral que se tem do ato de ler, e que lhes atrai por algum motivo menos — ou talvez mais — nobre.

Diante de todas as provas definitivas que minha personagem já deu sobre sua fidelidade aos padrões de portar-se num lugar como esse, espero extasiado que seus próximos gestos confirmem minhas previsões absolutas: encenar uma impaciência comum aos apressados — que ela sabe, de alguma forma que ninguém vai reparar —, trocar o livro, que possivelmente lhe foi indicado pela primeira gôndola da livraria, pelo aparelho celular, movimentando o dedo indicador sobre a tela em simetria perfeita ao movimento de três quartos da população mundial com acesso aos produtos da indústria de eletroeletrônicos, exigir a conta com um estalo leve da mão e um sorriso incapaz de revelar os dentes e, após pagar o chá com o cartão bancário guardado, obviamente, na carteira de botão, sair pelo corredor apresentando à pequena plateia desinteressada um ritmo de passos que jamais lhe seria autóctone, mas que aprendeu ao longo dos seus 46 possíveis anos de existência nesta Terra observando a maneira com que as mulheres de sua idade e de sua classe caminham. 

Digo que me divirto com a previsibilidade, mas talvez seja a forma como escolhi lidar com sua imensa falta de graça. A grande vantagem em encontrar a originalidade seria, justamente, sua inclinação para o incerto, para a dúvida, sua devoção fidedigna ao acaso. Mas também gosto de ver minhas minúsculas profecias cotidianas acontecendo em suas também pequenas escalas. A mulher, obviamente, guardou o livro, agora toca o celular com o dedo indicador, segundos após entregar uma boca levemente inclinada ao garçom, sugerindo-lhe a nota do chá. Nem preciso esperar pela sua magistral saída em direção à porta, porque ela só terminará de coroar-me como um profeta do momento seguinte, um cientista do minuto adiante, um poeta do futuro imediatamente próximo. Adeus, mulher à qual seria tão fácil escrever-lhe toda a biografia mesmo anos antes de sua morte, e que agora será observada, ao nível da rua, apenas pelos anjos da igreja do outro lado da praça.

Volto-me para as duas mulheres imediatamente na mesa ao lado da minha porque uma delas, a única disposta realmente a fazer o que é comum nos cafés, conversar, não o faz em voz baixa. Acabou de anunciar para a outra, que suponho provisoriamente ser uma amiga, que vai viajar nas férias — e uso a expressão “anunciar” corretamente, porque todos ao redor receberam a notícia indiretamente. É também uma personagem, na ideia mais frequente do termo, porque encenou o papel de si mesma até quando a ouvinte lhe abandonou momentaneamente para ir ao banheiro. Sua figura é toda um relicário confuso de correntes do senso comum, e por isso que talvez me interesse tanto por ela: o cabelo está cortado naquele estilo francês — seja lá o que signifique isso — que vendia perfumes à exaustão décadas atrás. As bijuterias, os badulaques e penduricalhos anexos ao corpo misturam-se entre pequenas peças que se assemelham ao ouro, nas quais deve ter julgado ver algum tipo de refinamento, e uma tentativa inútil de dar mocidade à sua meia-idade, como o colar disforme e colorido que parece lhe pesar no pescoço. É típico dessas mulheres querer aparentar uma jovialidade que já perderam — uma das características clássicas femininas nos cafés nessa fase da existência. 

Antes que sua companhia regresse ao enfadonho discurso ao qual foi arbitrariamente colocada como única ouvinte, ela repete o gesto mecânico de cruzar a perna esquerda sobre a direita e, no instante seguinte, de sorver sem nenhum tipo de barulho, como exige a discrição burguesa neste lado do hemisfério, o café recém-servido pelo garçom. É evidente que não será neste exemplar definitivo da vida nesta cidade que pretendo encontrar qualquer originalidade, mas me incomoda pensar na quantidade de coisas inexistentes às quais sua vida está pendurada. Sentada ao meu lado, enquanto seus pés reproduzem outro movimento clássico, o da impaciência humana diante das pequenas esperas, ela provavelmente não desconfia que tudo ao seu redor é uma pobre redução da realidade, que as palavras com que pinta sua existência não explicam nada, que as roupas que veste sequer lhe pertencem, que a maneira com que levantou da cama hoje pela manhã é uma cópia malfeita de alguém que levantava desse jeito no século XIX e que, por sua vez, também o copiou em algum momento da vida, que mesmo o fato de estar aqui, mantendo o padrão de comportamento que se espera das pessoas de sua estirpe social nestes estabelecimentos, não pode ser assegurado por nada ou por ninguém, ou que, no final, nada disso existe. 

Essas coisas não lhe atormentam, é claro, porque se resigna a aceitar tudo o que já está dado, a não perguntar se a xícara se chama xícara, se a mesa se reconhece neste nome, se a palavra chuva não é uma diminuição terrível do fenômeno em que a água — outra dessas ideias complexas — acumulada no céu se derruba sobre a Terra. Aprendeu a não mastigar, mas só engolir a papa espessa e líquida triturada pelos dentes da sociedade. Resisto a saber sobre sua viagem, não apenas porque o ato de viajar é um resumo da movimentação humana, mas porque não espero que essa mulher me surpreenda com um destino estranho aos guias turísticos das grandes redes de livrarias.

Na verdade, se trata menos de vontade própria do que do arbítrio de um jogo em que sou o único e eterno participante, e cujo tabuleiro é toda e qualquer vida imediata. Agora suas regras estipulam o movimento seguinte a partir da mesa de dois rapazes ideais deste século no extremo canto ocidental do estabelecimento, de onde minha localização só permite uma observação finita. Se as estruturas não vão às ruas, a culpa também é do nó em círculo que reproduzem nos cadarços dos sapatos, das mesmas camisas de xx botões, incluindo o do colarinho duro, que escolheram vestir naquela manhã — e que já fora a continuação da norma quando fabricadas e compradas —, da maneira criteriosa com que repetem as gargalhadas, os sinais públicos de atenção aos relatos do outro, a mastigação do pão de queijo em três atos lineares, os olhares fugazes e quase imperceptíveis concedidos à garçonete e a posição geográfica dos relógios de pulso. Toda a parafernália agregada ao corpo, bem como seus modus operandi, pertencem à cidade. 

A função essencial do jogo é denunciar a grande caretice de um mundo que deixou de criar e que agora se dedica somente a cultuar o passado. O hoje se envergonha de si mesmo, inveja um ontem que conheceu quando já velho, mas ainda capaz de algum auto orgulho. Nos cafés de agora só se vê suas cópias, tanto as vulgares quanto as maravilhosas. Se todo trem tem seu ferrorama, toda época tem seu pequeno altar, e é justamente nele que, por sorte ou miséria, dei por parar. 

Os dois jovens da mesa distante me entristecem não apenas pela falta de originalidade, pela possibilidade de recriar toda a sua conversação, conteúdo e forma, sem sequer precisar escutar suas também miméticas vozes masculinas, mas ainda pela miséria de tudo, pela desilusão do presente, pelo emburrecimento do século, pela confusão da juventude que, sem grandes expectativas, manobra o próprio ego para poder tomar para si mesma os troféus que não são seus. Ambos parecem felizes com o final do dia, relaxam a amarração das gravatas, descansam os pés sobre os aparadores clandestinos da parede, esquecem os braços sobre as costas das cadeiras e só se lembram deles para limpar o suor que escorre, tímido, pelos pilares da cabeça. Ao contrário dos outros clientes, mas como era previsível, estão acompanhados por duas tulipas cheias de cerveja — essa unanimidade nacional, ao menos segundo os publicitários. O anjo do eterno retorno certamente ficaria desnorteado ao ouvir suas reações diante do dilema que anuncia: gostariam de viver a mesma vida quantas vezes fosse possível, com mesmos nós nos sapatos, os mesmos uniformes disfarçados e as mesmas mesas dos cafés e dos bares para terminarem os expedientes. A possibilidade de uma vida vivida de outra forma lhes atemorizaria. Imitar o passado, seja qual for ele, é a paz que toda geração procura. Para mim, eles são dois exemplares das limitações da existência deste tempo, em que as definições de uma boa vida se resignam às quantidades — seja de dinheiro, de dias em que se ficou bêbado, de pessoas com quem se transou ou de aprovações virtuais.

Os dois homens pegam seus celulares, iniciando um longo momento de solidão entre si que, em conjunto com o vai-e-vem dos funcionários, dos barulhos das máquinas de café, dos automóveis e da chuva, constroem uma tela momentânea e viva de Rodrigo Honda. O cotidiano também é uma coleção magnífica de arte, e por isso o amo. Aos que me acusam de ressentimento, poderia se sentar em outro dia neste café apenas para apontar-me as feridas, as misérias, as repetições, toda a imensa caixa de mesmices da qual saí. Sou um homem deste tempo — e é por isso que falo sozinho pelas ruas da cidade. 

Prefiro olhar o casal de idosos sentado na mesa à frente. Sempre há essa estirpe de gente nos cafés, e nesse não poderia ser diferente: o homem mantém o rito natural da velhice masculina de renunciar ao trato com a barba, deixando uma espessura que, deve imaginar, pressupõe aos demais frequentadores uma sapiência do fim da vida. Não precisaria dizer que, assim como a solitária mulher que ocupava duas mesas adiante alguns minutos atrás, há um livro entre os objetos postos estrategicamente sobre a mesa. A suposta intelectualidade, uma inclinação ontológica à literatura, é um dos clichês dos bebedores de café.

A ideia de livro me intriga porque é a única coisa que permaneceu inquestionada mesmo pelos grandes gênios da história — e não espero que alguém agora o ponha em dúvida. Todo o conhecimento humano acumulado desde antes da invenção da máquina de prensar só é reconhecido como tal no formato livro, no texto ordenado em capítulos, no papel recortado em tamanho padronizado, no tamanho que agrade ao tempo e à paciência dos possíveis leitores, no argumento que depende da força do convencimento para ser legitimado, e não em sua suposta conclusão. Não nego que ele seja uma forma de alcançar a totalidade, mas não o instrumento definitivo. A condensação do pensamento jamais recebeu alternativas à ditadura do livro que, principalmente nos cafés, recebe ainda a segunda função de simbolizar um culto imaginário ao intelecto do seu dono. O senhor abocanha seu misto quente, claro, sem se preocupar com esse imenso problema histórico. Ele sabe, desde algum dia da sua vida, que os livros se leem — e só. Aliás, este parece ser um grande conhecedor das regras comuns do ver e ser visto: a camisa de bolsos provavelmente foi passada à ferro antes de sair de casa, o terno cinza escuro em que quase não se nota os quadrados brancos do passado ainda é belo, e a boina amassada pelo tempo e pelo uso constante entrega a época em que seu estilo era apreciado nas ruas. Curiosamente, parece um desses velhos comunistas que hoje só acreditam que são levados a sério. Tudo faz dele o exemplar clássico desses senhores para quem, na verdade, toda a vida exterior é uma bobagem.

A mulher ao seu lado aparenta ser ainda mais velha, o que prova que tempo de existência não é o critério suficiente para quebrar os grilhões do senso comum. Entre um silêncio e outro, ela vocifera julgamentos sobre a situação da Venezuela com a mesma velocidade e eloquência com que critica o protesto dos estudantes do dia anterior repercutido nas imagens da televisão. “Só atrapalha a vida dos trabalhadores”, determina enquanto espera pela condescendência do marido. “São rebeldes à procura de lei”, responde sem tirar os olhos da fumaça que sai da xícara de café e provando que minha percepção, pela primeira vez, estava equivocada. “Isso não ajuda em nada. Acho que, na verdade, o efeito é o contrário: as pessoas não leem os cartazes, não ouvem o que gritam, mas ficam com raiva da avenida bloqueada no final do dia”, continua ela. “O país vai de mal a pior…”, sentencia o homem, deixando um vácuo por preencher com outra dessas frases dispersas na população, e que o faz após alguns minutos: “O futuro a nós não pertence”.

O futuro é uma dessas brilhantes invenções humanas. O passado é outra. Todos os déjà vus, as pequenas coincidências, as repetições históricas e a vaga ideia de que existe um destino são, talvez, as fissuras mais bonitas da nossa tentativa de adicionar no tempo essas duas dimensões jamais questionadas — e que são mais funcionais do que reais. O velho talvez nunca tenha tentado perceber, mas se a Terra gira sobre seu próprio eixo e, ao mesmo tempo, ao redor do Sol, e se esse primeiro movimento não é perfeito, porque a velocidade do giro varia, a sucessão dos dias é apenas a repetição constante de um único mecanismo da natureza. Sempre há noites nas partes terrenas que chegam ao outro lado do Sol e sempre há dias quando elas se postam à sua frente. A Terra nos põe sempre nos mesmos lugares: na luz ou na escuridão. O planeta passa invariavelmente pelas mesmas esquinas desde que existe, indo e voltando em um presente eterno. Mas o velhote do café não está de todo errado: o futuro não nos pertence, porque essa é a grande prova da fraqueza humana, a sua sujeição completa a um teatro em que só é o boneco. Nasce e morre girando perante os olhos encantados de uma plateia desconhecida. Ainda assim, quem fragmentou o tempo em fatias, como escreveu alguém naquele poema compartilhado à exaustão a cada réveillon, foi realmente um gênio. Poderia levantar da minha mesa e declamá-lo inteiro ao casal de idosos, para então sentar-me com eles explicando-lhes o funcionamento do mercado internacional do petróleo e seus impactos sobre o bolívar, ou então contando-lhes sobre o dia em que as mulheres francesas marcharam de Paris a Versalhes durante uma noite inteira, mas nenhum sentido haveria nessas atitudes que não uma sensação prazerosa e suja de superioridade. Sem contar que não se evita um naufrágio tirando água do barco com um copo. Melhor é ser também uma cópia, passar despercebido, usar o método da passagem da Ópera e pedir a conta ao garçom com um estalar dos dedos e um sorriso de boca fechada.


Vinícius Mendes é jornalista e sociólogo. É autor do blog Arimandía.

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