Ensaio

A ousadia de abrir uma janela fechada

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A ousadia de abrir uma janela fechada

Ser abordada por um colega – nada íntimo – da pós-graduação em frente ao prédio de salas de aula, num dia quente, com a seguinte afirmação “sabe, eu não admito mulher de roupa curta e tatuada. É, eu não admito”; ser uma mulher de roupa curta e tatuada, abordada de forma aparentemente despretensiosa, por um semiconhecido, um mero colega de curso, sobre aquilo que ele não admite que uma mulher faça, seja ou performe socialmente. Ser uma mulher branca – que namora um homem negro – abordada através de uma rede social famosa partindo do argumento de que mulheres brancas e homens negros não devem se relacionar, afinal relações interraciais desse tipo contaminariam os “genes prussianos”. Ser um aluno universitário que participa de uma minoria social e se sente inseguro – frente àquele que não é minoria e não se inibe em deixar público esse fato – a frequentar um lugar que é, por direito, seu: o próprio ambiente universitário e sua sala de aula, um espaço que – muitos dirão! – se assenta em seu caráter democrático, igualitário e republicano. O que todos esses relatos têm em comum? Sua personagem central, ainda que ocultada nas particularidades contextuais: Álvaro Körbes Hauschild. 

No dia 30 de setembro, Sérgio Renato da Silva Júnior, também conhecido como Jota Júnior, aluno da graduação em Políticas Públicas da UFRGS, divulgou em seu perfil social do Instagram um conjunto de capturas de tela onde vemos registrada uma conversa entre Amanda Klimick, psicóloga e sua namorada, e Álvaro Körbes Hauschild, aluno do doutorado em filosofia também na UFRGS. A motivação de Álvaro, o autor confesso dessas mensagens, parece bem clara: seu desconforto com o fato de que uma mulher branca, Amanda, namore um homem negro, Jota. Nas mensagens divulgadas na mídia, vemos o teor e a materialidade do que pode ser encarado, à primeira vista, apenas como discriminação; um olhar mais atento, entretanto, coloca-nos diante de um pano de fundo bem mais assombroso: uma discussão teórica, com ares filosóficos abstratos e informações históricas distorcidas, sobre a pureza de algumas raças perante outras.

Quando olhamos as mensagens enviadas a Amanda, vemos de forma flagrantemente explícita as manifestações racistas de Álvaro. Não há outra formulação possível. Não há eufemismo que as encubra ou esconda. São paradigmas do moralmente condenável. O que Álvaro afirma de Jota não são meras ofensas ou injúrias, embora elas também estejam presentes. São, sobretudo, manifestações que qualificam de maneira falsa, discriminatória e criminosa – vide a Lei 7.716/1989 tipificada pelo Código Penal brasileiro – as pessoas negras de modo geral. O que estabelece, no marco jurídico, a distinção clara entre um crime de injúria ou de ofensa à honra de um crime de racismo é, justamente, o direcionamento da conduta da qual se poderão predicar certas motivações. É na passagem do particular ao geral que o racismo, enquanto um crime, engendra-se. Essa é, portanto, a sua tipificação. Mas o que a condiciona é o fato de que tal passagem do particular ao geral evidencia uma certa visão de mundo na qual se engasta um conjunto diverso de ideologias e afetos, muito bem conhecidos pela nossa história política, que só fizeram corromper os próprios princípios democráticos e atrasar seu aperfeiçoamento. Na medida em que um grupo de indivíduos é discriminado, e na medida em que este grupo discriminado foi historicamente e ainda é sistematicamente alvo de violações de seus direitos humanos, então cumpre concluir que no próprio instante em que se profere uma manifestação racista reencena-se ab ovo toda essa história de violação. E, ainda pior, essa discriminação como que se naturaliza enquanto prática rotineira da subjugação do outro, atestando a expectativa perversa pela assimetria dentro do espaço democrático: espaço onde todos são iguais sob a perspectiva dos seus direitos. E isso, sobretudo num sentido filosófico, é inaceitável pois contraditório.

A interação entre Álvaro e Amanda não inicia com uma testagem gentil do meio de comunicação. Tudo começa na violência de uma condenação que a interpela. Álvaro diz literalmente “vergonha!”; mas implicitamente diz “você deveria sentir vergonha!”. Para um bom entendedor, meia palavra basta. Junto da condenação, seguem-se ao mesmo tempo duas reações importantes da parte de Álvaro indiciadas por populares emojis: a primeira é de náusea, a segunda de vômito. Emerge, portanto, nesse campo de mediação entre ambos, um afeto político da parte de Álvaro: o nojo, a repulsa, a aversão. Afeto mais genuinamente atávico, rudimentar, não há. Contudo, cumpre perguntar: do que Álvaro se envergonha e se enoja? Ao que ele reage?

Antes de tudo, sua repulsa surge diante do fato de que Amanda, uma mulher branca e que compartilha com ele apenas a cor de pele, ama Jota, um homem negro. Da perspectiva do racista e, ainda, da perspectiva de um supremacista branco – isto é, de alguém que acredita fielmente no absurdo apartheid racial e nas hediondas falsidades da eugenia – Amanda é uma traidora. Uma traidora da raça: esse conceito volante, biologicamente trivial já que a nossa raça é a humana; mas culturalmente carregado, politicamente ativado, tanto para o bem, como para o mal. Assim, o amor que uma mulher branca cultiva por um homem negro é, para um supremacista branco, algo profundamente condenável. Na cabeça de um supremacista branco a equação perversa se desenha, mais ou menos, assim: para ela é vergonhoso e desonroso e, por ser vergonhoso, é algo nojento. Aos desatentos, a primeira frase de Álvaro certamente dirá pouco. Aos que estão atentos ao crescimento do racismo, seu aprofundamento sistêmico, às complicações políticas dos últimos anos, às heranças coloniais e os seus violentos atavismos, ao crescendo autoritário no país e ao aumento das organizações neonazistas e fascistas em território nacional, a primeira frase diz muito. Ela diz tudo.

É verdade que Álvaro também ofende Jota. Chama-o, por exemplo, de “energúmeno” e de “palhaço de circo”. Mas também acha que o ofende ao chamá-lo de “mulherzinha”. Nisso, Álvaro também evidencia a perspectiva misógina e machista por meio da qual compreende as mulheres. Para ele, as mulheres não podem ser “mulherzinhas”, mas devem ser fortes “guerreiras vikingas”, evidentemente brancas e puras de “raça e de espírito” como as destemidas valquírias de Richard Wagner, figuras mitológicas, semideusas sempre a serviço – é claro – de um Deus nórdico e branco. A vergonha, o nojo e as ofensas como que prepararam um terreno onde a referida passagem do particular ao geral é, então, uma imperiosa necessidade. A vergonha e o nojo em relação ao amor de Amanda e as muitas injúrias que Álvaro profere a Jota se desdobram em concepções peculiares não mais sobre Jota como um indivíduo, mas sobre as pessoas negras de modo geral.

Quando Álvaro afirma que “um sujeito como ele [Jota] não vale muito mais que um cão”, refere-se a todos aqueles que são como Jota, ou seja, pessoas negras. Assim rebaixadas a uma essencial animalidade em função de sua cor de pele, elas são, na concepção deturpada de Álvaro, consequentemente desumanizadas, são afirmadas como quase-coisas. Esse opróbrio racista às pessoas negras surge, no mais das vezes, aliado ao encômio das pessoas brancas, especialmente as “prussianas”. Para ele os “europeus têm genes recessivos e os negros genes dominantes”, o que significaria que “o povo europeu é o que é porque foi guerreiro e se purificou, se defendendo contra invasores”. Naquilo que parece, à primeira vista, um discurso natural pontuado por uma dose de arrogância idiossincrática aos estudantes de filosofia desprovidos de generosidade e solidariedade, Álvaro passa muito naturalmente da desqualificação da conduta e da existência de Jota a uma apresentação sistemática das vigas-mestras de sua perturbadora concepção racial.

Assim, ele fala sobre “o sangue precioso” da “etnia prussiana”, literalmente “invejado” por todos os povos do mundo pela sua “qualidade genética”; entendendo-a como o padrão de fundamentos biológicos, calcado nas bases do pensamento eugênico disfarçado, por meio de anacronismos conhecidos, em metáforas étnicas e míticas sobre uma raça originária, branca e pura. Essa raça “purificada” é sistematicamente deturpada, para Álvaro, mediante a “mistura”: a “miscigenação” assola o mundo pós-moderno porque “tanto o mercado neoliberal, quanto a nossa burguesia brasileira, aliada com certos setores da esquerda política, promovem-na”. A dimensão conspiratória na política, aqui, alia-se à defesa do mito palingenético de uma raça pura da qual emergem supostas demandas espirituais e políticas ao nível de um nacionalismo doentio, conforme sugeriram Griffin e Paxton. Para Álvaro, os “europeus”, com seus “cérebros complexos e desenvolvidos para as abstrações intelectuais”, educam sua “prole” e controlam seus impulsos; ao contrário deles, “o negro tem um cérebro programado […] para fazer o máximo de filhos que puder”. Por essa razão que tirados de seu “habitat natural”, a “savana”, e inseridos nas cidades modernas, “os negros se proliferam a tal ponto de se tornarem uma peste”; afinal, para Álvaro, a presença dos negros na sociedade é justamente o que a leva ao seu eminente “colapso”. Ora, não é essa uma admissão contundente, explícita e transparente de que ele pensa sobre as pessoas negras como a vermina do mundo? Como pestes a eliminar? Eis aí, portanto, o terrível perigo de suas ideias. É isso que este mestre em filosofia pensa e expressa aos demais. Terá ele ensinado essas concepções abjetas aos outros? Terá aprendido com outros? Quem? De que modo? E onde?

O que Álvaro fez foi uma ode supremacista à branquitude, aos seus pactos narcísicos, suas invenções excludentes, suas hierarquizações ontológicas, sua violência. O que ele fez foi uma justificativa abominável do extermínio. Em meio ao elogio dessa “raça pura”, perfaz-se também, de modo concomitante, uma avassaladora condenação discriminatória não só a Jota, mas a todas e todos que, como ele, são negros. É um racismo cruel, estruturado não só por afetos políticos, mas também pela deturpação filosófica em seu último grau, em seu absurdo. A dimensão desse aviltamento suscita perguntas que permanecem sem resposta, embora gritem diante do silêncio e diante das condescendentes delongas burocráticas. Como se permite que essas concepções capazes de embasar uma defesa ampla do racismo, do apartheid racial, da eugenia e do machismo circulem dentro da universidade e sejam defendidas por uma pessoa que, em última instância, leva consigo o seu nome e a representa? Como se sentem as pessoas negras e que atuam no âmbito universitário – todas elas, docentes, discentes, técnicos administrativos e terceirizados – diante disso? Estaremos escutando elas? Ou dando-lhes as costas? E nós, que somos brancos, o que estamos fazendo, ou o que iremos começar a fazer, para combater o racismo? Como começaremos a reparar esse aviltamento? Estaremos à altura desse compromisso?

Como pôde a filosofia, essa investigação sistemática e rigorosa sobre os conceitos que usamos para compreender o mundo e a nós mesmos, ser pervertida a esse ponto? Como pôde servir, assim corrompida, para racionalizar o inaceitável, para refinar ainda mais o intolerável? Como pôde a sua história ser aviltada por interpretações sistematicamente distorcidas pelo ódio? E como se deixou ser abusada ao ponto de servir convenientemente à densificação absurda dos próprios preconceitos e manias, ao ponto de tornar-se um dogmatismo cego, um reforço perverso da convicção? E como nós, todos nós que estivemos juntos pelas circunstâncias, não notamos com mais cuidado que ali alguma coisa fermentava? E se notamos, por que fomos condescendentes ou não lhe demos devida atenção e seriedade? O que nos escapou, ali? Estas não são questões retóricas; são abissais, pois sinceras. Arendt, talvez, nos dê uma pista para começar a entendê-las e, daqui em diante, para enquadrá-las:

A ausência de emoções não causa nem promove a racionalidade. […]. A fim de se reagir de forma razoável, deve-se antes de tudo sentir-se “sensibilizado”, e o oposto de “emocional” não é “racional” […] mas sim a “incapacidade de se sentir sensibilizado” […]. O ódio e a violência totalizam-se irracionais somente quando dirigidos contra substitutos; é isto que infelizmente recomendam psicólogos e polemólogos que estudam a agressividade humana, e que corresponde, desafortunadamente, a certas disposições de espírito e atitudes irrefletidas na sociedade em geral […]. Onde todos são culpados, ninguém o é; as confissões de culpa coletiva são a melhor garantia possível contra a descoberta dos culpados, e a própria extensão do crime a melhor desculpa para não se fazer nada. Ademais, nesse caso particular se trata de uma atordoante e perigosa escalada do racismo até o ponto da menor tangibilidade.

Por meio dessas torções constantes e diárias jamais ensinadas nas cadeiras da universidade – mas certamente dinamizadas por seus expedientes teóricos e eruditos – é que foram sendo urdidos, em graus distintos de complexidade, aqueles fundamentos estapafúrdios desse racismo torpe. Ou só fizeram confirmar, nele, aquela complicação indissociável entre afetos e preconceitos que, pouco a pouco, emergia, dava-se a ver, mostrava-se mais convicta em sua crueldade e indicava, talvez, algo de muito íntimo: “Não há gritos, não há passos, não há barulho de motores e aparelhos elétricos; em suma, não há sinal de humanidade. Ou pelo menos de atividade humana”, lê-se, literalmente, na primeira página de um romance publicado por Álvaro ainda este ano. Isto não é só uma narração do nada, mas também de si. De alguém condenado à prisão de si mesmo. Compartimentalizado, alheio à pluralidade constitutiva do mundo. É, portanto, nesse sentido, que hooks escancara corajosamente uma verdade como quem abre finalmente uma janela há muito tempo fechada:

Com efeito, a objetificação do professor dentro das estruturas educacionais burguesas parecia depreciar a noção de integridade e sustentar a ideia de uma cisão entre mente e corpo, uma ideia que promove e apoia a compartimentalização. Esse apoio reforça a separação dualista entre o público e o privado, estimulando os professores e os alunos a não ver ligação nenhuma entre as práticas de vida, os hábitos de ser e os papéis professorais. A ideia da busca do intelectual por uma união de mente, corpo e espírito tinha sido substituída pela noção de que a pessoa inteligente é intrinsecamente instável do ponto de vista emocional e só mostra seu melhor lado no trabalho acadêmico. Isso queria dizer que pouco importava que os acadêmicos fossem drogados, alcoólatras, espancadores de esposa ou criminosos sexuais; o único aspecto importante da nossa identidade era o fato de nossa mente funcionar ou não, ou sermos capazes de fazer nosso trabalho na sala de aula.


Referências


Thaiani Wagner – É bacharel e mestra em Filosofia pela UFRGS. Atua como professora e tradutora. Pesquisa filosofia antiga e ética e, paralelamente, a retomada da história da filosofia através das mulheres, bem como as relações entre literatura e filosofia e cinema e filosofia.

Guilherme Mautone – É bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela UFRGS. Editor de Filosofia da Revista PHILIA. Coordenador do Colegiado de Artes Visuais da SEDAC/RS. Docente convidado na Casamundi Cultura e no Atelier Livre.

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