Ensaio

A ronda dos anjos sensuais – e a batalha contra os demônios

Change Size Text
A ronda dos anjos sensuais – e a batalha contra os demônios

O livro de Cláudio Cruz, intitulado Literatura e cidade moderna: Porto Alegre 1935, tem sido largamente utilizado para balizar as análises de A ronda dos anjos sensuais, do santa-mariense Reinaldo Moura (1900-1965), umas das publicações mais enigmáticas, da primeira metade do século XX, no Rio Grande do Sul.

No abordagem de Cruz e em produções subsequentes, parece haver ênfase na modernidade vislumbrada na ambientação da narrativa na cidade. Até então, era majoritário, no Rio Grande do Sul, um viés regionalista, focado nas questões do homem do campo. O presente ensaio traz um pouco da minha encrenca com a fixação no urbano como o grande destaque da novela – sem desmerecer a relevância dessas incursões.

Publicidade

O jornalista, professor e escritor itaquiense Manoelito de Ornellas (1903-1969), em 1939, no livro Vozes de Ariel, destaca a aproximação de Moura do modernismo literário: “[…] era, de todos os novos postulantes, o que mais se arrojava à audácia das criações que chocavam os velhos preconceitos da arte e quebravam as velhas normas do metro, na eloquência e na emoção.” Nesse sentido, já de começo, parece que não é a cidade que dá realce aos escritos mourenses. Não é o que causou espanto à época, nem o que, então, os leitores percebiam como modernice.

Reinaldo Moura na revista Vamos Ler, 01 de agosto de 1940.

Certamente os costumes, o comportamento, a lesbianidade das personagens principais, foram elementos que deveriam ter sido melhor investigados. Cruz argumenta que sua busca, “feita em jornais e revistas da época na cidade [,] não encontrou nenhuma referência à novela, salvo as de lançamento.” Talvez caiba uma nova imersão, quem sabe em algum projeto de mestrado. 

Em O gaúcho era gay? Mas bah! 1737-1939, pesquisa que desenvolvi ao longo de muitos anos, publicada pela Estúdio-Mar, mostro que o tema da lesbianidade, ao contrário do que se sugeria, não é desconhecido dos autores gaúchos da virada do século XIX para o XX.  Inclusive Érico Veríssimo (1905-1975) recorre ao tema em Caminhos Cruzados (1935). Mesmo assim, a dimensão das personagens, no livro de Moura, é maior do que nos demais arrolados, nos quais aparecem como secundárias. E é preciso lembrar que é de 1925, quando o autor passa a escrever esse livro, que se fala majoritariamente – e não de 1935, quando vem a lume – portanto só perde de Veríssimo pelo detalhe técnico. 

As apostas são alvissareiras. Albertus de Carvalho, no jornal Beira-Mar, de 6 de julho de 1935, destaca que é uma “obra de um realismo literário raramente excedido em romances do mesmo gênero. No entanto, [Moura] conseguiu escrever um livro digno da sua cultura. Por esse motivo, A ronda dos anjos sensuaes há de alcançar sucesso.”  Parece ter existido uma procura expressiva, provavelmente pela propaganda boca a boca. Embora venha sendo pontuado que o tomo caiu no esquecimento, que não teve repercussão, pode não ter acontecido bem isso.   Na Seção de Livros, na Folha da Tarde (PR), em 29 de outubro de 1935, A ronda dos anjos sensuais é anunciada como “uma novela que vem alcançando o mais nítido sucesso. Sucesso de balcão e sucesso literário. Foi uma estreia auspiciosa […].” 

Além de mencionar a recepção, a Folha da Tarde aponta para o teor: “A história deste livro mostra muito bem a vida moderna, no que diz respeito à leviandade de certas mocinhas da sociedade, aos vícios e às orgias veladas que geralmente começam no interior de automóveis luxuosos, passam aos apartamentos confortáveis e descabam para as casas suspeitas das ruazinhas quietas… A personagem central de ‘A ronda dos anjos sensuais” é real. Viveu certa época, escandalizando a sociedade da capital gaúcha; viveu para a consagração suprema do gozo, despertou desejos em multidões e conheceu todos os prazeres. Sem ser imoral, a novela do Sr. Reinaldo Moura é picante. E isto porque o autor, quando descrevendo cenas realistas, não usa o véu diáfano das reticências.” Novamente, percebe-se que o eixo, naquele momento, estava no escândalo da lesbianidade, nos comportamentos sexuais modernos.

Outras notas chamam a atenção sobre a aventura do escritor. Por vezes, poucas palavras. Mas dizer pouco pode atiçar mais a curiosidade do que longos elogios. No Boletim de Ariel, na edição que abarca os meses de outubro de 1935 a setembro de 1936, há uma menção, assinada por Aurélio Gomes de Oliveira, que diz ter lido “com bastante prazer” o título em que “a imaginação enobrece as notas de crua observação realista.” 

Também corrobora minha defesa um panorama feito no Diário da Noite, de 24 de agosto de 1935, no qual se registra que “o livro é escandaloso, mas mesmo assim todos o compram.” A matéria continua nesse sentido: “A imprensa faz comentários causticantes, dizendo que ‘a obra representa entre nós o mesmo aspecto de depravação moral que ‘La Garçonne’ representou para a França, anos atrás.” O texto é direto ao informar que Moura, “embora com arte, em estilo colorido e vibrante, pinta costumes locais, apresentando, pelo menos parte da sociedade como portadora de vícios, os mais inconfessáveis e algumas ‘jeunes filles’ como jovens emancipadas, capazes de todas as audácias no terreno sexual.”  “O escândalo dado ao livro está fazendo o seu maior sucesso, tornando crescente a curiosidade”, prossegue a crítica, explicando que estava sendo cada vez mais requisitado, mesmo custando sete mil réis, o que é, para a época, um valor alto.

Há elogios que se voltam para a forma literária. Manoelito de Ornellas, em 1939, sentencia: “Duas virtudes se revelam no ficcionista e com relevos iluminados: a sinceridade de seu temperamento vibrátil, impressionável e o estilo de prodigiosa fluência, onde as palavras brilham como fragmentos de mica.[…] Vibra nas suas páginas o calor de uma inteligência pletórica e a elegância de um estilo que é todo emoção e cromatismo.”

O renegado:

A publicação se deu tardiamente. Moura vinha escrevendo o texto desde 1925 – ou antes. Ele indicou a presença de um capítulo, em que tratara sobre a personagem principal, na revista Máscara, edição do ano de 1926. Nesse texto, ele relaciona as obras de Victor Marguerite (1866-1942) – La Garçonne –, de Benjamin Costallat (1897-1961) – Mlle. Cinema –, e a La garçonne brasileira – de quem não indicou a autoria, mas se sabe que é do gaúcho Carlos Caváco (1878-1961). Os três têm personagens femininos homossexuais. Portanto, aqui está uma possível relação a ser trabalhada.

La Garçonne Brasileira - Carlos Caváco - Traça Livraria e Sebo
A Ronda dos Anjos Sensuais - Reinaldo Moura - Traça Livraria e Sebo

Em 1939, Manoelito de Ornellas escreve que Moura havia renegado seu romance. Para Ornellas, trata-se de “um esquisito estudo de psicologia feminina, rude nos detalhes e chocante em seus lances decisivos. O romance nos dá alguns tipos de mulheres modernas, mas ‘snobs’, frívolas e patológicas. Miss Futebol – que é a figura central – serviu como um relevo palpitante ao desdobramento do tema literário.” 

Há várias “lendas” sobre a orfandade do livro. Há quem diga que Moura foi processado, mas me parece que isso pode ter relação com alguma confusão com as memórias de sua prisão, em 1964, pelo Departamento de Ordem Política e Social. Outros sustentam que ele mesmo recolheu as edições. Foi o que Rubem Braga colocou em nota de rodapé em um livro. Impresso pela obscura editora Colúmbia, em uma época em que imperava a Livraria do Globo, restaram poucas edições do original (tenho uma) de A ronda dos anjos sensuais. Caso tenha mesmo sido recolhido pelo autor, não é cabível atribuir a terceiros a falta de repercussão ou o fato de ter caído no esquecimento. 

O que se sabe, da boca de Moura, aparece, em 1940, em entrevista para Barros Vidal, para a revista Vamos Ler, na qual comenta: “Ela é o meu primeiro pecado literário. Não gosto. Reneguei-a.” Indagado sobre as motivações, ele argumenta: “Porque é um livro mal feito, mal escrito, cheio de puro verbalismo, cheio de imagens luminosas, de rutilâncias, crepúsculos, de exageros na paisagem e na vida. O tema é obsceno, mas isso não importa. O que importa é que o livro foi mal feito, aos pedaços, e por isso o reneguei. Foi meu primeiro livro…” 

Em um datilografado avulso, parte do acervo Delfos, da Pontifícia Universidade Católica, do Rio Grande do Sul, datado de junho de 1937, Moura responde perguntas para uma edição do Jornal da Manhã: “[…] eu não me considero escritor. […] Escritor só porque escrevo? Não é motivo suficiente. Nem devo me colocar no mesmo nível dos que ficariam constrangidos em tão má companhia. Sou apenas homem de jornal. E quando eu andava meio doido pelo Anatole, pelo D’ Annunzio, etc, fiz “A ronda dos anjos”. Livro de beletrista, no pior sentido. Do espírito que ama a palavra e a arte pela arte.” O introito da entrevista, escrito por algum outro jornalista, no entanto, destaca que A ronda dos anjos sensuais, “seria, em Paris, um volume das edições de Georges Anquetil, mas a literatura do gênero mais ou menos galante que Reinaldo procurou para estrear em livro não lhe compromete os foros de grande escritor de ficção, pelo contrário, o define, mesmo como um dos mais interessantes armadores de entrechos.”

Georges Anquetil (1888-1945) foi escritor e editor de volumes como La maitresse legitime: essai sur le mariage, polygamique de demain (1923), em que advogou a favor da poligamia, o que lhe rendeu fama de imoral. Penso que, também, no Rio Grande do Sul poderia haver uma pesquisa ampla sobre os romances de sensação, os ditos escandalosos e populares, sobre os quais há pouca pesquisa. Títulos com estética dita realista e/ou naturalista, muitas vezes, se tornavam bastante populares. Talvez se encaixem obras como as de Harry Williams Rottermund (1908-1986), de São Leopoldo, que lançou Uma virgem enlouquece e Bas fond, causando bastante barulho.

Caricatura de Reinaldo Moura feita por Edgar Koetz (1914-1969). Acervo Delfos, PUC/RS.

Voltando ao que interessa, Moura conhecia bem a homossexualidade por ser leitor-admirador de Marcel Proust (1871-1922) e de André Gide (1869-1951), por conhecer as obras de Victor Margueritte, de Benjamin Costallat, entre outros. A ideia de que A ronda dos anjos sensuais é amoral e não imoral, presente na própria abertura do livro, parece ter se sustentado na amoralidade que ele via em escritos de Proust.

Essa conversa de amoral e imoral pode parecer antiquada? O jornalista e escritor porto-alegrense Dante de Laytano (1908-2000), em Mar absoluto das memórias, diz, sobre o tempo em que vive, em 1986, que, “[…] ‘A ronda dos anjos sensuais’, que fez barulho pela ousadia da linguagem e das imagens seria livro de crianças, comparado com o que se diz de patifaria, indecência e pouca vergonha” Talvez sim, talvez não. Dependendo da vinculação político partidária, podemos ter um caso Jeferson Tenório. 

Ângelo Chemello, mais recentemente, em 2022, na dissertação Porto Alegre 1935: literatura, mapas e perspectivas, imagina possíveis razões para Moura ter escrito sobre Charlote e Neli, as lésbicas. Ele considera que possa ter havido alguma tentativa de caráter “microrrevolucionário” ou, em outra banda, apenas um desejo, de um autor heterossexual, em exibir relações entre mulheres, o que não é muito incomum como fetiche masculino. Ele também levanta a hipótese de que Moura tenha tentando, por algum motivo incerto, expor alguém da sociedade porto-alegrense, já que há várias indicações de que se baseia em personagens da vida real. Chemello informa sobre a dificuldade de chegar a alguma conclusão, mas aponta que o livro, em sentido positivo, pode ter funcionado para que outras mulheres lésbicas tenham tido ciência de que não eram “uma existência exclusiva, pessoas sem pares”, sentimento muito comum no relato da descoberta homossexual – especialmente quanto mais se volta no tempo.

Não sabemos quais os demônios – internos e /ou externos – levaram Moura, de fato, a resumir a carreira da novela. A resposta dada por ele contenta? Certamente os motivos não estão no badalado enfoque que vem sendo dado ao protagonismo de retratar a cidade. Sugiro uma nova edição. Faz falta no mercado.


Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Com cinco livros lançados, dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari. O gaúcho era gay? Mas bah! é seu último título, lançado em 2023.

RELACIONADAS
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHEUM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHEUM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.