Ensaio

Alfândega, território Kaingang

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Alfândega, território Kaingang Foto: Rossanna Prado/Divulgação
A praça da Alfândega é um dos locais mais emblemáticos da capital do Rio Grande do Sul. Nesse espaço, há mais de 250 anos ocorrem trocas e interações tão diversas quanto sempre foi a população dessa cidade que beira o Guaíba. Antes da fundação da cidade, como comprovam achados arqueológicos encontrados na revitalização da praça, também viveram ali populações dos diversos povos originários, que circulavam pela bacia do Guaíba. Mesmo antes de ser o centro administrativo da ocupação lusa, e depois brasileira, no continente sulino, a região do Guaíba era confluência entre as territorialidades – ou seja, a relação entre os povos e a paisagem que ocupam – de diversos povos de origens linguísticas distintas, como os pampeanos, os Jês e os guaranis. Seguramente esse local, no costado norte do espigão central do que viria a ser Porto Alegre, deve ter visto incontáveis encontros e trocas, muito antes dos casais açorianos se estabelecerem, quase que acidentalmente, por ali. Na época da Páscoa, é tradição que muitos indígenas Kaingang venham vender seus artesanatos em Porto Alegre. Basta uma caminhada pela Rua da Praia, Andradas, Esquina Democrática e Alfândega para encontrar uma variedade de cestos de cipós de diversos tamanhos, de taquara ou palha, junto com buquês de macela, colhida tradicionalmente nessa época do ano, filtros dos sonhos e outros objetos artísticos, geralmente com seu criador ao lado, talvez tomando um mate em uma cadeira de praia.  As principais aldeias do povo Kaingang se localizam no norte do estado, sendo as duas maiores a de Nonoai e Guarita. Esses dois territórios foram demarcados ainda no século XIX, como gratificação pela colaboração de alguns caciques nas guerras travadas nesse período. Após o fim da guerra Farroupilha, em 1846, inicia-se o projeto de aldeamentos do governo provincial, que tinha como objetivo a expulsão dos indígenas que viviam nas imensas florestas da metade norte do Rio Grande do Sul para o uso posterior dessas terras com o loteamento de colonos europeus. Essa política gerou resistência de diversas lideranças, que preferiram fazer guerra contra os invasores do que colaborar e se estabelecer nos aldeamentos oficiais, abandonando seu território tradicional e, por vezes, tendo que dividir um novo espaço com grupos rivais.  O processo de diminuição aguda do território do povo Kaingang apenas arrefeceu na década de 1970, quando lideranças como Nelson Xangrê e Ângelo Kretã lideraram movimentos de retomada na Terra Indígena de Nonoai. Desde então, vários outros processos de retomada vem surgindo no Rio Grande do Sul, além de outros estados. Vale ressaltar que esse não é um método exclusivo do povo Kaingang, sendo utilizado por outras etnias em disputa territorial por toda a América Latina. No Rio Grande do Sul é notável o caso de grupos Mbyá Guarani, que ocuparam a área da Fepagro em Maquiné quando essa foi extinta pelo governo Sartori, e a pequena faixa de praia no Belém Novo, quando foi anunciado que essa área verde daria lugar a um condomínio de alto padrão com centenas de casas. Nem todas as […]

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