Ensaio

Algo se cria, muito se perde, pouco se transforma: ainda a natureza como fonte de nomes de prédios

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Algo se cria, muito se perde, pouco se transforma: ainda a natureza como fonte de nomes de prédios

Designar um prédio residencial com nome que remeta a algum elemento da natureza é estratégia longeva, mas que parece ter experimentado tanto variações quanto continuidades. Em prédios antigos como nos atuais, seguimos encontrando nomes de ilhas, morros, rios, praias, lagos, lagoas, cataratas, bosques, oceanos, mares, florestas, astros celestes, estações do ano. Mas é visível que o que mais importa nos dias de hoje parece estar ligado à distinção social. 

Ninguém mais compra simplesmente um apartamento. Compra-se algo que traga distinção, a si e a seu grupo familiar, e o nome do empreendimento veio se colocando paulatinamente como um índice de tal processo de distinção social. Isso pode explicar porque no caso do Edifício Rio Madeira, um prédio da década de 1950, é crível imaginar que a intencionalidade era render homenagem a este importante afluente da margem direita do rio Amazonas. E o Residencial Rio Sena está cercado por prédios como Torre do Louvre, Madison Garden, Saint Michel Residences, todos recentes, em bairro que prima pelo ar estrangeiro, notadamente europeu, em evidente estratégia de se colocar em sintonia com locais de uma cultura “superior”. Andando pela cidade, percebo que as ilhas são uma preferência para nomes de prédios há muito tempo. Mas aqui igualmente temos variações ao longo da linha do tempo, passando de prédios como Ilha Grande ou Ilha de Marajó, para Ile Di Laren ou Ilha Cartier Residence. As fotos podem ser conferidas no repositório indicado ao final.

Em artigo anterior, já no campo da natureza como fonte de designações, foquei em pedras, plantas e bichos a dar nome a edifícios e condomínios. De modo difuso, a percepção de que a natureza se transformou em mercadoria valorizada, produtora de hierarquias de distinção, se manifestava. Agora amplio o leque, e exploro outros elementos ditos naturais. Nesse texto trato de rios, montanhas, ilhas, bosques, lagoas, lagos, praias, serras, costas, cordilheiras e florestas a indicar prédios.



Começo com as designações gerais, aquelas que não indicam local específico. É um gosto andar pelas ruas e encontrar prédios com nomes como Ed. Açude, Ed. Mar (muito escondida a designação original por conta de um toldo que foi colocado praticamente por cima), Ed. Igarapé, Ed. Arquipélago, Ed. Oceano, Ed. Cordilheira, Ed. Continente. Todos de antigamente, quando a coisa se bastava por si mesma, não sendo necessário indicar o específico. São homenagens de cunho praticamente panteísta às coisas do universo. Encontrei na zona norte um Edifício Tríade das Águas. Também com inspiração semelhante encontrei quatro prédios, em diferentes bairros, com o nome de Ilha do Sol. Embora não exista uma ilha do sol propriamente dita no Brasil, a verdade é que todas as ilhas podem ser ilhas do sol.



No que se refere a rios, o que mais chamou minha atenção foi uma praça no bairro Menino Deus. O local é praticamente um estuário, pois ao seu redor encontrei, situados lado a lado e também nas cercanias, prédios com os nomes Rio Japurá, Rio Jordão, Rio Solimões, Rio Brilhante, Rio Jaú, Rio Cristalino, Rio Xingu, Rio Pelotas, Rio Pará, Rio Juruá, Rio Tapajós, Rio Jary, Rio Javary, Rio Paraná. E não se trata de um condomínio de prédios: cada prédio é diferente do outro, e pelo menos dois são de momento histórico visivelmente distinto dos demais. O nome mais frequente no quesito rios é Rio Branco, a designar cinco prédios. Mas vale dizer que, na coleta que já iniciei de prédios comerciais, Visconde do Rio Branco é também frequente, além de termos um bairro na cidade com esse nome, o que explica pelo menos um dos prédios. De toda forma, fazem referência a rios. Percebi que são frequentes também os nomes de afluentes do Amazonas, em pontos diversos da cidade. 



Essa parece ser outra tendência datada, não é o que se vê nos prédios de hoje em dia. Espalhados pela cidade, mas com frequência visível no centro histórico e no eixo de bairros ao longo da avenida Farrapos, encontrei prédios que homenageiam rios gaúchos, em particular edifícios Rio Jacuí e Rio Ibicuí e Rio Uruguai, mas também Rio Taquari e Rio Pardo. Todos antigos. Em prédios mais recentes, encontrei Rio Mondego, Rio Grande, Rio Vouga, Rio Volga, Oiapoque Xuí, Rio Mississipi, Vale Du Loire (sim, estava escrito dessa forma mesmo). Edifício Niágara encontrei um exemplar. E pelo menos três edifícios Iguaçu e um Parque Iguaçu. Aqui podemos pensar nos rios, mas acho que mais apropriadamente homenageiam as cataratas.

As ilhas constituem outra fonte de inspiração para designar prédios. Temos Ed. Galápagos (com direito ao desenho de um iguana acima do nome, como se confere na foto posta no repositório), Ed. Ilhas Fidji, Seychelles, Fernando de Noronha, Mikonos, Estar Ilha do Mel, Ilhas Gregas, Ilha de Santorini, Ilha da Madeira, Ilha de Miracema, Ilha das Palmas, Ilha de Calais, Ilha de Córsega, Residencial Isla Margherita, Paquetá, Île de France, Isola Di Malta. Disputam a primeira posição de nomes mais escolhidos Ilhas Bahamas e Ilhabela, a revelar certa equidade entre o nacional e o estrangeiro nesse quesito. Parece que há grande desejo de viver em ilhas, mesmo morando em edifícios no continente. Só não achei prédio com o nome da nossa vizinha Ilha das Flores, eternizada em clássico documentário, e também senti falta de Ilha do Pavão e Ilha da Pintada. 



Ilhas lembram costas e praias. No quesito praias, o vizinho estado de Santa Catarina, mais particularmente sua capital, está bem homenageado em Porto Alegre. Encontrei Praia de Itapema, Praia dos Ingleses, Praia da Armação, Armação, Campeche, Praia Brava, Jurerê (três designações), Praia da Joaquina, Praia do Forte, Ponta das Canas, Imbituba, Porto Belo, Garopaba. Na mesma quadra de uma rua, e na mesma calçada, achei três prédios com nomes de praias da ilha de Santa Catarina, prédios diferentes, mas do mesmo ciclo construtivo. As praias do Rio de Janeiro igualmente são frequentes em prédios de algumas décadas atrás, como Ipanema, Leblon, Tijuca, Copacabana, Flamengo. Há vários prédios com o nome Itapuã ou Itapoan, o que pode indicar a conhecida praia baiana. Do estado da Bahia também encontrei Edifício Rio Vermelho e Edifício Farol da Barra. Achei um Edifício Viña Del Mar, conhecida praia chilena, e um Juan Les Pins, praia chique da Riviera Francesa. No quesito costas, achei Costa Brava, Costa Doce, Costa Dourada, Costa Amalfitana, Costa do Marfim, Riviera Dei Fiori, Costa di Positano. E achei Edifício Costa, mas esse vai integrar o artigo em que se vai comentar sobre a designação de nomes comuns e sobrenomes familiares a prédios da cidade. Achei um Edifício Baía Blanca, e um Punta Arenas. E um Pontal de Tapes. Todos acidentes geográficos em relação com as águas.

Disparadamente, o acidente geográfico Monte é um grande preferido para nomear os prédios. E dentre os montes, o destaque vai para Mont Blanc e Monte Branco, dos quais deixei de anotar e fotografar quando se completaram quinze citações, mas certamente a coisa vai muito além. Uma leitora da coluna já havia comentado que residiu em um Edifício Monte Branco e alguns anos depois em um Edifício Mont Blanc, sem que tenha sido essa a intencionalidade. A grafia Montblanc apareceu uma vez apenas. A lista de prédios com nomes de montes, e alguns picos, é grande. Indico como amostra: Monte Pascoal, Monte Bérico, Monte Belo (um campeão também em designações, e com a variante Monte Bello), Montes Claros, Monte Rey, Monte Lucas, Montjuic, Monte Líbano, Monte Polino, Montecarlo e Monte Carlo, Montmartre, Agulhas Negras, Itatiaia, Aconcágua, Monte Vêneto, Piemonte, Mont Ferrato. 



Uma variante está dada pelo Edifício La Colina, e temos também Colina Maggiore. Edifício Serrano também está entre os preferidos, encontrei três exemplares com esse nome na cidade. E um Serra da Estrela. Na categoria cordilheiras, encontrei Edifício Himalaia, Andes, Alpes Residence. Uma modalidade regional de morros, que vou explorar em outro texto, sobre designações que remetem ao Rio Grande do Sul, são os cerros, como Edifício Cerro Formoso ou Edifício Cerro Grande. 

As referências à terra, ou ao planeta Terra, aparecem na forma de Edifício Terra Nova, Residencial Vila de Gaia, Condomínio Terra Nova Natural e variações desse tipo. São todos prédios novos. E dos lagos temos uma profusão, sendo Lago Azul e Lagoa Azul campeões. Achei um Residencial Mallawi, que pode referir-se ao Lago Malawi, na África, e um Ontário, que também pode fazer referência ao Lago Ontário, e um Edifício Lago Vitória, os que mais me chamaram a atenção. 

A noção genérica de verde, que se liga ao ideal de natureza, é abundante, em prédios com nomes como Vila Verde, Rio Verde, Colina Verde, Lago Verde. Mas da vegetação propriamente dita não achei quase sinal. A exceção é Bosque, em nomes como Residencial do Bosque, Morada do Bosque. Bosque é uma palavra que parece se bastar por si mesma, e sempre indicar algo estrangeiro. O Brasil não é país de bosques. O Brasil é país de matas e florestas. Embora isso, não achei edifício Floresta Amazônica, mas achei Edifício Floresta Negra. Há um determinado bosque do qual encontrei três prédios: Condomínio Bois de Boulogne, Condomínio Edifício Bois de Boulogne e simplesmente Bois de Boulogne. 

Ainda no quesito vegetação penso que seria tão bonito termos Edifício Savana, Tundra Varandas, Recanto da Estepe, e até mesmo, por que não, Jardim das Macegas. Achei um prédio Las Nubes, em Petrópolis, o que me levou a pensar que as nuvens dariam nomes lindos para prédios: Cumulonimbus Residences; Altostratus Suítes; Cirrus Condomínio, Solar Nas Nuvens. Pensamento semelhante tive ao me deparar com o Edifício Las Brisas lá no Alto Petrópolis. Os ventos poderiam fornecer lindos nomes de prédios: Alísios Villagio, Jardim das Monções, Plaza Zéfiro, Reserva de Bóreas ou Torre dos Ventos, ou até mesmo, por que não, Condomínio dos Ventos Uivantes.

Em relação ao texto anterior sobre pedras, plantas e bichos, agradeço leitores e leitoras que indicaram novos nomes, e outros que descobri nas constantes andanças: Ed. Albacora (um peixe); Ed. Lírio; Ed. Orquídea (dois exemplares); Ed. Araras e Ed. Gaivotas (lado a lado); mais dois prédios com o nome Jade e outros dois com Ônix; e um Murano (cristal, forma refinada de mineral, pode-se dizer); um Edifício Butterfly; Residencial Pinus, Residencial Paineiras, Solar das Oliveiras, Edifício Castanheiro e Morada dos Ipês (claro está que sem nenhum exemplar das árvores mencionadas por perto). E um Nature Bussiness Center. E um Edifício Lima (que pode ser fruta, embora a possibilidade de ser designação de sobrenome). 

Ainda no reino mineral, achei um Edifício Mina no Bairro Partenon. E achei um Edifício Diamante Negro, no centro histórico, que fico tentado a achar que é uma homenagem ao tradicional chocolate, tratando-se então de caso único na cidade. Da natureza ainda tenho anotações e fotos de outros elementos, que vão compor outro artigo, logo adiante, abordando as estações do ano, os mares e oceanos, os céus, os astros, as nuvens, a lua e o sol, o globo terrestre, os planetas do sistema solar e os climas.

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Fernando Seffner é historiador e professor na Faculdade de Educação UFRGS

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