Ensaio

As fronteiras e Mohamad Alsouki

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As fronteiras e Mohamad Alsouki Mohamad Alsouki em um curso de formação na cidade francesa de Argentan. 2017 (Foto: arquivo pessoal)

— Quando eu escutava barulho de avião, eu saía correndo. Eu corria rápido, muito rápido.

Essa frase eu ouvi do Mohamad durante uma aula que frequentamos juntos. O professor nos convidou a falar sobre viagens e no quadro ele escreveu, em francês, o verbo viajar. Então esse colega tomou a palavra e começou a sua história. A ideia, pelo que constava no programa do dia, era falar sobre férias. Só que nem todo mundo está fazendo uma viagem a lazer ou por tempo determinado. No caso do Mohamad a intenção era outra: liberdade. Liberdade pro resto da vida.

Eu estou numa cidade pequena chamada Argentan. E ela fica na Normandia, região situada ao norte da França. Cheguei faz pouco mais de dois meses e tratei de procurar um centro de formação para estrangeiros. Aqui eles nos oferecem um suporte em termos de aprendizado. Coisas como: alternativas para que se possa seguir uma vida com emprego; contextualização dos códigos sociais; aulas para aprender a ler, falar e escrever em francês. As aulas, claro, são muito mais do que isso. Nem tanto pela quantidade de alunos, somos poucos, mas pela diversidade de nacionalidades. Sou colega de gente da Turquia, do Marrocos, do Afeganistão, de Mali, do Benim, do País de Gales, da Inglaterra. No intervalo já tive também contato com colegas da Índia e do Sudão. Fora essa turma toda, ainda tem o Mohamad. O Mohamad é da Síria.

 Seu nome completo é Mohamad Alsouki. Ele é um refugiado político que resolveu sair de Damasco, a capital no sudoeste do território sírio, para passar seis meses caminhando em direção à fronteira com a Turquia. Ele disse ter feito um percurso aproximado de mil quilômetros, distância que teria sido atravessada de maneira muito mais rápida não fosse um detalhe importante: bombas imprevisíveis que despencam sobre as cabeças de quem está embaixo. 

Sabe o barulho de avião?


Pois o Mohamad e alguns camaradas de travessia andaram aqui e ali se escondendo de serem bombardeados enquanto realizavam a fuga daquele país. Para cada dia de caminhada, eram de quatro a cinco dias se mantendo às escondidas. Durante as horas de espera, meu colega contou que podia descontrair. Ele falou mais ou menos assim:

— A vida lá na Síria é tão difícil que, no momento em que a gente decide ir embora, a guerra vai ficando pra trás. Os aviões que nos assustavam antes, com as bombas, na hora de escapar já não nos impõem o mesmo medo. Eu e meu companheiros jogávamos, comíamos e dormíamos rindo. A vida lá não importava mais. Ou ela terminava, ou alcançaríamos uma nova oportunidade de viver do outro lado da fronteira.

Na Síria, que é hoje um conjunto de escombros terríveis por conta da destruição incessante, nada pode ser mais lúcido do que tentar um asilo. Até porque o Mohamad não tinha outra alternativa. Ele havia se negado a pegar em armas pelo exército, havia se recusado a fazer parte do regime comandado pelo presidente Bashar al-Assad. Nem favorável ao governo e nem opositor, o lugar dele acabou sendo o de inimigo. Tanto para quem governa, quanto para quem está querendo derrubar o poder vigente. 

Olhando o Mohamad falar, me dei conta de uma marca no rosto. A cicatriz é mais um sinal da violência.

— Isso aqui? — ele sinaliza com o dedo enquanto segue a explicação. — Isso é porque fui atingido por um tiro. Alguém me acertou de cima, do alto de um prédio. Depois desse ferimento eu não consegui mais enxergar direito. Até hoje eu tento ler e é ruim. Nunca mais vi da mesma maneira. A visão esquerda ficou afetada.

De Damasco, na Síria, até Antáquia, na Turquia. Essa foi a rota que deu fim aos dias de guerra vividos por Mohamad Alsouki no seu próprio país. Mas nem por isso foi o fim de um caminho difícil. Na Turquia foram meses tentando uma adaptação. Uma passagem por Istambul exigiu dele muito trabalho e uma vida sem qualquer tipo de qualidade. Por lá, ele explicou, não se consegue ganhar o suficiente para pagar um aluguel. Então muitos refugiados acabam dividindo um apartamento para baratear os custos. Chegam a morar quinze pessoas juntas. Lugares que normalmente comportariam três ou quatro moradores. 

— E como foi depois? Saiu da Turquia como? – perguntou um colega.

A saída da Turquia foi via Dikili, cidade na costa oeste às margens do Mar Egeu. Ali o Mohamad fez mais uma proeza de livro (ou de cinema, como queira). A passagem só acontece por barco. Um bote para quarenta refugiados no caso dele. O preço? Seiscentos dólares por pessoa, para sair à noite e desembarcar na Grécia. O destino é Mitilene, capital da ilha de Lesbos. Claro que o Mohamad não tinha o dinheiro necessário e teve que encontrar uma saída. Magro, leve e rápido, ele esperou o momento exato e correu, bem escondido, para se infiltrar na fila e logo se atirar aos pés dos que haviam pago pelo percurso. Esmagado, apertado ele enfim desembarca na Grécia para deixar a Turquia no passado.

Da ilha de Lesbos para a cidade de Atenas começa o tempo de novas tratativas com a Europa. Uma nova perspectiva aponta no horizonte de Mohamad. À vista, um destino diferente surge. Um telefonema, um contato na França, que pede uma reunião com meu colega. Ele aceita e vai. Sete horas de conversa.

— Mohamad, isso não foi uma reunião. Isso foi um interrogatório — digo eu.

Ele fez que sim com a cabeça e confirmou que durante as sete horas precisou contar a vida inteira. Desde quando era uma criança até a hora em que sentou de frente com os encarregados do governo francês. Horas e horas, histórias e mais histórias. Repetindo e reafirmando aquilo que já havia dito. 

A aula foi chegando ao fim e ninguém comentou mais nada. Só o Mohamad. Foi uma última frase que segue retumbando na memória:

— Todos os meus amigos estão mortos. Meus amigos de infância? Todos estão mortos. 

E ao imitar o som de um avião, Mohamad Alsouki gesticulou com os dedos polegar e médio sobre a classe. Era a cena que imitava alguém em fuga. 

Não tem como não correr com um barulho desses.

Em 2016, Mohamed embarcando da Grécia para a França. (Foto: arquivo pessoal)

Ângelo Chemello Pereira é formado em publicidade e mestrando em literatura.

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