Ensaio

As loucas como mulheres que ousam romper padrões

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As loucas como mulheres que ousam romper padrões

Domesticar. Polir. Amansar. Docilizar. Subjugar. Diminuir. Abaixamos o tom da nossa voz quando deveríamos gritar. Performamos delicadeza para nos encaixar. Cuidamos quais palavras usar. Não podemos falar palavrão e nem ousar responder, mesmo quando insultadas. Somos puxadas, esticadas, moldadas. Viramos objetos. Tentam nos tornar sem identidade, sem história. Calar nossas vozes. Buscam nos reduzir a todo instante. Diminuir ao máximo. Esperam de nós gentileza, mesmo que sejamos violentadas, machucadas. É ensinado a nós mulheres engolir todo e qualquer sentimento que se afaste da construção de feminilidade. Esperam de nós sorrisos mesmo sendo alvo de assédios cotidianamente. Dizem a nós que somos multitarefas, que “o cérebro feminino foi treinado para fazer muitas coisas ao mesmo tempo” e ficamos sobrecarregadas com tudo que nos responsabilizamos. Esperam de nós atitudes bondosas, amáveis, afáveis. Dizem-nos para libertarmo-nos de “energias negativas”, entretanto não observam as estruturas que nos esmagam. Insistem em nos deixar intactas em eternos lugares da cuidadora, da mãe, da santa, da pura. Associam mulheres a sentimentos de aceitação e perdão. Sentimos culpa por sentir raiva. Tentam nos tirar até mesmo o direito de sentir raiva. Fazem a gente sentir culpa quando somos abusadas. Pedimos desculpas pelo que somos, pelo que sentimos e desejamos. E quando nos rebelamos a tudo isso? Somos julgadas como as bruxas, as putas, as loucas, as raivosas. 

A insanidade enquanto uma característica intrínseca a mulheres é uma ideia que perpassa séculos. A história da loucura tem um rosto predominantemente feminino. Localiza- se o tema em livros, filmes, seriados, na arte como um todo. Mas não somente, pois a considerada louca está presente em nosso cotidiano, nos espaços que ocupamos. A louca está nos serviços de saúde nos quais trabalhamos. E por tantas vezes, a louca esteve ou algum dia estará no espelho que miramos. 

A concepção acerca do que é loucura sempre esteve atrelada ao momento histórico, social e cultural, sendo modificada ao longo dos anos. Como apontam Silveira & Braga, na Grécia Antiga a loucura era entendida como uma manifestação divina, de forma que as (os) loucas (os) tinham o privilégio de se comunicarem com divindades, por isso acessavam um saber importante. Já na Idade Média comportamentos considerados fora do normal eram vistos como possessão demoníaca. É exatamente nesta época que milhares de mulheres foram perseguidas e apontadas como “bruxas”. Silvia Federici afirma: “A caça às bruxas foi um instrumento da construção de uma nova ordem patriarcal em que os corpos das mulheres, seu trabalho, seus poderes sexuais e reprodutivos foram colocados sob o controle do Estado e transformados em recursos econômicos”. As mulheres foram atingidas negativamente pelas novas regras e leis que compunham este novo modo de organização. Federici sinaliza que, durante o feudalismo, muitas mulheres eram lavradoras, pedreiras, parteiras e curandeiras. Conheciam acerca da natureza, sobre ervas, ervas abortivas e contraceptivas, o que lhes concedia uma maior autonomia sobre seus próprios corpos.

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