Ensaio

Azar é do goleiro

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Azar é do goleiro
Uma microbiografia do Manga Um dia meu tio chegou em casa do seu trabalho com uma novidade que nos deixou atordoados, em nossa curiosidade infantil: o goleiro Manga havia comparecido no seu serviço para providenciar um documento. Era difícil de acreditar: o meu tio tinha visto de pertinho o Manga! O melhor goleiro que já jogara por estas bandas, herói do título nacional de 1975, defendendo os chutes poderosos de Nelinho. Era incrível, o meu tio Ivo Amaro falou que as mãos do goleiro eram do tamanho de uma raquete de tênis e os dedos todos tortos. E meu tio falava com a experiência de quem segurou nas mãos do goleiro, passou tinta em seus dedos retorcidos, para coletar as impressões digitais e providenciar o documento de identidade do goleiro, o senhor Hailton Correia Arruda, para nós simplesmente Manga, o “Manguita fenômeno”. Bem, talvez tenha exagerado um pouco, “mãos do tamanho de uma raquete de tênis”! Mas foi o que disse. O tio Ivo trabalhava no turno da manhã e nós o aguardávamos, todos os dias, para o almoço, que acontecia quase às duas horas da tarde. No dia emque ele ficou frente a frente com nosso ídolo, eu e meu primo, durante a refeição, não deixamos espaço pra outro assunto; ele já havia repetido muitas vezes as mesmas coisas e nós não conseguíamos saciar nossa curiosidade. Enquanto comíamos, disparamos uma saraivada de perguntas, até nos ser ordenado silêncio – não era permitida muita conversa à mesa. E até o momento em que meu tio se dirigiu para a sua sesta diária, nós continuávamos questionando: que roupa ele estava? ele é mesmo muito feio como dizem? é muito magro? muito alto? “Deixem eu descansar”, disse ele, fechando a porta do quarto. Ao lado da velha casa de madeira, lá pelas bandas de Viamão, havia um terreno baldio, que transformamos em um campinho de futebol, com goleiras de taquara, que envergavam a cada vez que alguém acertava uma bolada mais forte. Ali, diariamente gastávamos nossas tardes, após chegar da escola, com os outros meninos do bairro, jogando futebol. Mesmo em período de férias, só estávamos liberados para jogar depois do café da tarde; até lá tínhamos que nos contentar com a “Sessão das Duas”. Muitas vezes, antes de descansar, recebíamos alguma tarefa de manutenção do pátio – alguma capina, limpeza nos canteiros ou um pequeno conserto na cerca, que eu e meu primo fazíamos com esmero para fugir do “castigo” que era, para nós, ter que também fazer a sesta. Mas naquele dia não foi possível aguardar tanto tempo: quando minha tia se distraiu nas suas lides domésticas, com as enfadonhas e repetitivasroupas e louças de todo o dia, pulamos a cerca e fomos bater uma bolinha. Como os demais garotos só chegavam para jogar no final da tarde, nosdistraímos, por muito tempo, chutando e defendendo a bola chutada pelo outro, fazendo o clássico gol a gol. E a cada vez que meu primo desferia seu chute forte e certeiro, eu […]

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